"Israel não vê Gaza, mas apenas o antissemitismo". Entrevista com o diretor do Haaretz

Foto: Anadolu Ajansi

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30 Junho 2025

Aluf Benn vive no centro das notícias há anos: é o diretor do Haaretz, o jornal progressista de Israel. Um jornal que, apesar da queda nas vendas, continua sendo um ponto de referência fundamental para quem quer entender o país. Desde 7 de outubro de 2023, a influência do jornal cresceu exponencialmente: a transmissão ao vivo pela web que o site inaugurou naquele dia nunca se interrompeu e registrou milhões de acessos. Desde as semanas que se seguiram ao massacre do Hamas e ao início da guerra em Gaza, Benn impôs a si mesmo uma regra, que ele também respeita nesta entrevista: nenhum comentário sobre como o Haaretz acompanhou aqueles fatos, sobre artigos específicos e sobre a reação que provocaram em Israel.

A entrevista com Aluf Benn é de Francesca CaferriB, publicada por la Repubblica, 29-06-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Diretor, vamos tentar colocar alguns pontos firmes no grande caos destes dias. Em que posição a guerra com o Irã deixou Benjamin Netanyahu e o governo?

Ela os fortaleceu: não apenas porque os Estados Unidos se aliaram a ele e porque Israel militarmente saiu vitorioso da ofensiva. Mas porque a decisão de declarar guerra ao Irã deu a Netanyahu a oportunidade de atingir no coração o campo da oposição: Bennett, Lieberman, Gantz e Lapid se posicionaram ao seu lado e agora terão dificuldade para dizer que ele não tem legitimidade para liderar o país. O front do ‘tudo menos Bibi’ enfraqueceu.

E o que o primeiro-ministro fará com essa nova força?

É muito difícil fazer previsões hoje em dia, mas ele enfrenta dois dilemas. O primeiro diz respeito a Gaza: pela primeira vez, há pessoas em sua coalizão e em seu próprio partido que pedem que ele acabe com a guerra e traga os reféns para casa o mais rápido possível. O que, no plano político, significa romper com a extrema direita, que não está disposta a aceitar isso. O segundo dilema é convocar ou não eleições antecipadas, contando com pesquisas favoráveis: para buscar a resposta, precisamos nos perguntar se esse governo está destinado a durar muito tempo, no caso de não ser dissolvido. Eu não acredito, porque a questão do serviço militar dos ultraortodoxos logo terá que ser revolvida. Portanto, Netanyahu poderia decidir dissolver o governo antes que ele caia sozinho e convocar eleições antecipadas. Uma coisa é certa: hoje ele tem mais margem de manobra do que antes.

Há sinais concretos de que ele poderia usar esse espaço para chegar a uma virada em Gaza?

Os sinais existem: Israel não pode dizer que está vencendo em Gaza hoje, soldados continuam morrendo e não há nada a ganhar permanecendo atolados na Faixa. Tenho esperança de que as coisas mudem. Também porque é evidente para todos a diferença entre o sucesso de uma campanha militar conduzida a milhares de quilômetros de distância para derrotar o Irã e a impossibilidade de deter o Hamas e trazer os reféns para casa a poucos quilômetros de Tel Aviv. Isso pesará muito.

E Donald Trump? Ele é realmente o melhor amigo de Israel, como ouvimos dizer há dias?

Não gosto de falar de amizade. O que importa aqui é o interesse: Trump seguiu o caminho de todos os presidentes estadunidenses desde 1948, apoiando Israel. O que virá a seguir, teremos que aguardar para ver. O que é diferente do passado não é Trump: é a relação entre os dois países. Não só a dependência de Israel do apoio estadunidense aumentou drasticamente em termos de fornecimento de armas, informações de inteligência e apoio internacional nos últimos vinte meses. Mas agora, pela primeira vez, Israel pediu aos EUA que lutassem em seu nome. Isso nunca havia acontecido.

O senhor acompanha Benjamin Netanyahu há muito tempo: uma coisa que muitos na Europa não entendem é como é possível que em vinte anos nunca tenha surgido um líder alternativo a ele. Por que Netanyahu se tornou a cara de Israel?

Não é uma questão de líderes, mas de ideias. Bennett, Lieberman e Gantz não têm uma ideia de Israel diferente daquela de Netanyahu: vimos isso quando o elogiaram por ter atacado o Irã. Eles também pensam como ele sobre a questão palestina: portanto, ele é melhor do que eles na narrativa, no que contou ao país. Além disso, há a economia: a partir dos anos 1990, uma nova era começou aqui do ponto de vista econômico. Startups e tecnologia tornaram Israel um país rico, pelo menos em parte, e muitas pessoas são gratas por isso. A pergunta a se fazer para entender o sucesso de Netanyahu é: existe alguém hoje com uma visão diferente da dele? Eu não vejo ninguém.

Há outra coisa que as pessoas na Europa não entendem: como é possível que Israel reclame tanto de estar isolado e não veja de onde nasce esse isolamento? E com isso quero dizer Gaza...

Porque não vê Gaza. Os órgãos de imprensa israelenses, em média, não noticiam o que acontece lá. Noticiam o crescimento do antissemitismo no mundo sem enquadrá-lo no contexto maior: assim as pessoas não entendem.

Que legado acredita que tudo isso deixará para o futuro?

Essa é uma pergunta muito difícil. Acredito que o peso do que está acontecendo aqui está sendo sentido muito além de nossas fronteiras: a vitória de Mamdani nas primárias para prefeito de Nova York é um sinal. O fato de alguns eleitores muçulmanos não terem votado em Harris e, portanto, ajudado Trump é outro sinal. Quanto a nós, israelenses, talvez se nos próximos meses se confirmarem os acordos de paz de que se fala atualmente, o sentimento de hostilidade que existe em relação a nós diminua, pelo menos em parte. Mas é muito cedo para dizer.

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