"A extrema-direita europeia não precisa mais de violência para chegar ao poder". Entrevista com Sven Reichardt

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07 Junho 2025

O especialista ressalta que o "culto à morte" presente na Alemanha de Weimar não existe mais no país e vê paralelos entre a emergência atual e a de um século atrás na crise econômica, na rejeição reacionária à transformação das identidades de gênero e na revolução do sistema midiático.

A entrevista é de Andreu Jerez Ríos, publicada por El Diario, 05-06-2025.

"A história não se repete, mas frequentemente rima" ou "a história ocorre primeiro como tragédia e depois como farsa" são duas das frases mais comuns quando se refere à repetição da dinâmica histórica. Os tempos em que vivemos, com todas as diferenças existentes em relação ao período do entreguerras, estão se alinhando com o que aconteceu há 100 anos. A ascensão de forças reacionárias é prova disso. O historiador alemão Sven Reichardt explora esses paralelos no que ele chama de "reinvenção do fascismo".

Eis a entrevista.

Você fala da "reinvenção do fascismo" diante da ascensão de partidos e movimentos reacionários em diferentes países ao redor do mundo. Vê muitas semelhanças entre a nossa época e os anos entre as guerras do século passado?

O fascismo que está sendo reinventado difere do fascismo histórico em vários aspectos, entre outros motivos, porque carece de um culto à violência e não reconhece mais guerras imperiais de conquista, com exceção de Putin, que é um caso especial. E por não apresentar o paramilitarismo nem ter o comunismo como oponente, age de forma diferente do fascismo histórico. O que é diferente nos tempos atuais é que, por enquanto, não temos uma grande guerra da qual o fascismo emerja. Além disso, temos um tipo de crise econômica diferente daquela da década de 1920. Nossa sociedade não é mais uma sociedade operária clássica [como era então].

Você acabou de listar as diferenças entre o fascismo de um século atrás e o fascismo reinventado de nosso tempo, mas também estabelece três elementos comuns entre os dois: a crise econômica, a rejeição reacionária à transformação das identidades de gênero e a revolução do sistema midiático. Quando  acha que esses três fenômenos convergem para a "reinvenção do fascismo"?

Na década de 1990, com o colapso dos regimes comunista e socialista, houve uma espécie de libertação que Francis Fukuyama chamou de "o fim da história". A euforia com a globalização se espalhou por um mundo sob uma ordem liberal. Com a virada do século, uma profunda desilusão começou a se desenvolver, pois a desigualdade social no mundo não só não diminuiu, como, na verdade, aumentou. E o Ocidente, em vez de ascender, estava em declínio. O novo vencedor dessa globalização ou do fim da Guerra Fria foi a Ásia, não a Europa ou os Estados Unidos.

Isso também alimentou a direita radical e sua culpabilização dos migrantes pelas decepções econômicas. É claro que isso também faz parte de um mundo globalizado, em que a migração está aumentando. Nos anos 2000, as mídias sociais também começaram a ter um amplo impacto, inclusive no discurso político, o que coincidiu com o declínio da imprensa e dos meios de comunicação de qualidade. Eu diria que este é o momento em que esses três fenômenos começaram a convergir.

Falando em figuras específicas, você vê semelhanças entre Trump e Hitler. Elas incluem agressividade retórica, glorificação do direito dos mais poderosos, ultranacionalismo e ataques racistas contra imigrantes. Você também vê essas semelhanças entre Trump e o partido Alternativa para a Alemanha (AfD)?

Ideólogos da AfD, como o editor Götz Kubitschek e outros, há muito promovem a teoria da Grande Substituição, que defende a ideia do desaparecimento da raça branca. Líderes da AfD, como Björn Höcke e também Alice Weidel, fazem referência a essa teoria. É claro que esses líderes também incitam o discurso público contra os migrantes, falando de "homens-faca" e "mulheres-véu", expressões racistas que desprezam os estrangeiros. A AfD também fala em reforçar as fronteiras, até mesmo em atirar nelas. Isso também é uma glorificação do mais forte, da violência.

Mas o caso de Trump é diferente. Isso também tem a ver com as diferenças entre os sistemas políticos americano e alemão. O culto ao líder funciona muito bem em um sistema presidencialista como o americano, onde as campanhas eleitorais também são altamente personalistas. Nesse sentido, Alice Weidel, candidata do AfD a chanceler, não pode ser comparada a Donald Trump.

Trump destruiu o Partido Republicano. Se buscamos uma comparação entre Trump e um líder europeu, acho que o mais próximo é o húngaro Viktor Orbán, que atua como presidencialista e abandonou todos os freios e contrapesos democráticos. É o que Giorgia Meloni, na Itália, também gostaria de fazer: reorganizar o sistema político para centralizar tudo nela. Mas isso levará anos, porque o sistema italiano é completamente diferente do americano. Trump governa com decretos, tentando contornar toda a política parlamentar. É um culto à liderança que não existe na Alemanha e que esperamos que nunca exista.

Quando você fala sobre a revolução do sistema de mídia da década de 1920 e a atual revolução da mídia, poderíamos dizer que o TikTok ou o X são como o rádio e o cinema dos nossos tempos?

No TikTok, qualquer um pode se tornar um radialista. Obviamente, isso não era possível na década de 1920. Nem todos podiam fazer um filme ou uma reportagem de rádio naquela época. Hoje, podem. O que é comparável entre a mídia daquela época e as mídias sociais de hoje é a emocionalização da política, a dramatização e a visualização.

A dramatização do conteúdo passou então a ser feita por meio do rádio. Novas formas de reportagem foram criadas, incluindo a gravação direta de sons ou vozes na rua, transmitindo a impressão de que o público estava presente, uma sensação de imediatismo.

Você também sente essa sensação de imediatismo nas mídias sociais hoje em dia. Usuários de mídias sociais podem sentir como se estivessem em uma conversa direta com um candidato do AfD, por exemplo. Os fascistas sabem como usar esses novos formatos de mídia. Eles são muito bem-sucedidos em se apropriar deles, e os algoritmos os recompensam: quanto mais emocional, mais dramático, mais sensacional, mais cliques.

Outros paralelos históricos que você traça entre o fascismo do século XX e o fascismo atual incluem a reação antifeminista e a rejeição da transformação da identidade de gênero.

Durante a Primeira Guerra Mundial, muitas mulheres ingressaram no mercado de trabalho porque os homens estavam na frente de batalha. Elas também conquistaram o direito de votar após a guerra. Tudo isso impulsionou a emancipação feminina e deu origem ao culto a uma nova mulher: autoconfiante, atlética, jovem e dinâmica, não mais uma dona de casa ou um apêndice masculino. Uma cena queer também surgiu em cidades como Berlim. Surgiram clubes gays. Houve um fenômeno metropolitano semelhante ao movimento LGBTQIA+ de hoje. Nesse sentido, existem certos paralelos. Os fascistas descrevem as metrópoles como fossas de pecado, como o colapso da civilização. E isso é algo que aconteceu naquela época e continua acontecendo agora.

Esses movimentos de emancipação, essa pluralização de papéis de gênero, são inovações contra as quais o conceito atual de wokeness, que opõe a cidade ao campo, a tradição à modernidade, se revolta. Isso também ocorreu na década de 1920. Hoje, também, há uma crise da masculinidade clássica. Isso aconteceu então com os homens da República de Weimar, e hoje acontece com os chamados incels, homens incapazes de se relacionar com mulheres e que desenvolvem ódio por elas.

Você já disse isso antes. A grande diferença que você vê entre o fascismo de um século atrás e o de hoje é a glorificação da violência e o uso do paramilitarismo. No entanto, já vimos o início de uma insurreição violenta no ataque trumpista ao Capitólio americano ou na tentativa de golpe de Bolsonaro no Brasil. Não acha que isso também poderia começar a acontecer com movimentos reacionários em países europeus?

Vejo uma grande diferença entre a Europa e os EUA. Este último é um país muito mais aberto à violência. Basta observar o papel desempenhado por Hollywood e pela violência como forma de entretenimento. É um país onde há violência armada, onde quase todo mundo pode comprar uma arma e onde há violência generalizada da direita radical, de grupos como os Proud Boys ou a Ku Klux Klan.

Claro, na Europa também existem lugares como a Casa Pound, na Itália, e também há neonazistas e skinheads, mas o nível de violência é menor do que nos EUA, e é uma violência episódica, não estratégica, dirigida ou controlada por um partido como a AfD. Acho que a violência política é muito deslegitimada na Europa.

Imagine se Alice Weidel tentasse conquistar o Reichstag com 100 mil homens armados. Não daria certo; a AfD perderia seu apoio social. Aquele culto à violência e à morte, que existia na República de Weimar, não existe mais hoje. Essa é uma das maiores diferenças entre aquela época e hoje.

Se houvesse uma escalada na guerra na Ucrânia e, por exemplo, Putin atacasse a Finlândia, talvez começássemos a nos acostumar com a violência na Europa. Os partidos europeus de extrema-direita não precisam mais da violência para chegar ao poder. Eles o conseguem por meio das urnas. A AfD já está perto de 30% dos votos nas pesquisas na Alemanha.

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