26 Março 2025
"Personalizar terapias pode ser caro e trabalhoso, mas, no final, economiza dinheiro e salva vidas. O paradoxo é que a aceitação de modelos simplificados de tratamento para a África se torna uma forma de criar um novo “padrão duplo” dos tratamentos, voltando ao início da história da AIDS", escreve Mario Giro, professor de Relações Internacionais na Universidade para Estrangeiros de Perúgia, na Itália, em artigo publicado por Domani, 24-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Em muitos países africanos, mais de 83% das pessoas com HIV, cerca de 26 milhões, recebem terapias. Especialistas e médicos, no entanto, fazem soar o alarme para um uso mais consciente dos medicamentos
O HIV-AIDS continua a ser um dos maiores desafios de saúde na África e em todo o mundo. Ainda há quase 40 milhões de pessoas com HIV, cerca de 26 na África Subsaariana. O programa Dream (Disease Relief through Excellent and Advanced Means) da Comunidade de Santo Egídio já está presente em dez estados africanos com protocolos de tratamento para a AIDS, mas também para doenças não transmissíveis, câncer uterino e outras patologias, apoiado por cerca de 30 laboratórios de biologia molecular e pela telemedicina.
Em 24 de janeiro passado, com a presença do Ministro das Relações Exteriores Antonio Tajani, que apresentou os trabalhos juntamente com Marco Impagliazzo, presidente da Santo Egídio, foi realizada no parlamento uma grande conferência sobre o tratamento da AIDS na África, com a presença de ministros da saúde africanos e muitos diretores de programas de tratamento africanos, para fazer um balanço da situação e lançar um alarme global.
Embora as taxas de novas infecções tenham caído 42% entre 2010 e 2022 e o acesso a medicamentos antirretrovirais tenha aumentado para 83% das pessoas com HIV na África Subsaariana, o número absoluto de pessoas vivendo com HIV está aumentando ano após ano.
Trata-se do resultado alcançado graças à redução da mortalidade (muitas pessoas com HIV estão vivendo mais tempo graças aos progressos terapêuticos), mas isso acarreta um aumento da carga financeira e de gerenciamento. Como resultado, o tratamento da AIDS está começando a ser visto como um fardo pelas administrações sanitárias.
Santo Egídio foi uma das poucas organizações a chamar a atenção para a AIDS na África na virada do milênio, quando ninguém estava tratando do problema. Foi denunciada a tendência dos países ricos: pensar que para a África bastasse dar pouco, considerando os africanos impossibilitados e até mesmo incapazes de se tratar. Depois de ter discutido com as agências internacionais e bater em todas as portas, foram criados centros de tratamento com laboratórios e tudo o necessário, no mesmo nível de excelência científico-sanitário do resto do mundo: o programa Dream.
Após 25 anos de trabalho e compromisso, hoje há um novo alarme decorrente do fenômeno da resistência aos medicamentos. Atualmente, uma das ferramentas mais eficazes na luta contra o HIV é o Dolutegravir (Dtg), que se tornou a base da maioria das terapias a partir de 2018.
Em muitos países africanos, mais de 83% das pessoas com HIV estão em tratamento, embora ainda existam milhões de pacientes não tratados. Especialistas e médicos, no entanto, chamaram a atenção para o fato de que 14% das pessoas em tratamento com Dtg não alcançam a supressão viral (ou seja, uma carga viral não mais mensurável).
Isso aumenta o risco de resistências, um fenômeno agravado pela falta de testes de diagnóstico avançados e de monitoramento regular dos pacientes. Em outras palavras, há o risco, como há 30 anos, de “simplificar” o tratamento da AIDS na África a ponto de torná-lo volátil, apesar da presença de um excelente medicamento como o Dtg. Se for administrado sem o monitoramento adequado, há o risco de desperdiçá-lo.
O controle das resistências serve para evitar que cresçam de forma vertiginosa e se espalhem pelo mundo. Como no início da pandemia de AIDS, não tratar bem na África cria um problema para todos. Ainda existem outras linhas de medicamentos muito válidas, pelo menos sete.
No Ocidente, são realizados monitoramentos necessários para curar com medicamentos que ainda são eficazes antes de recorrer ao Dtg, depois do qual não resta mais nada. Uma forma de poupar armas para o futuro, de “economizar as moléculas”, como se diz no jargão médico.
Essa prudente atenção não existe na África, também devido à carência de profissionais que possam monitorar o uso de medicamentos por meio do rastreamento da carga viral. Paralelamente, o aumento das doenças não transmissíveis (como hipertensão ou diabetes) entre as pessoas que vivem com HIV cria o chamado “duplo ônus da doença”, o que exerce ainda mais pressão sobre os sistemas de saúde.
A tendência atual, diante de uma doença (especialmente doenças como a Aids, que precisam ser tratadas durante toda a vida), é confiar toda a responsabilidade ao doente. Há uma mentalidade global dominante que é a do autoteste, do autodiagnóstico e do autocuidado, fomentada tanto pela inovação tecnológica (Internet, Google ou inteligência artificial) quanto pela solidão. A pessoa doente é deixada à própria sorte. Gradualismo sábio
Na África, isso está se generalizando rapidamente, onde as instalações são poucas e caras para os magros orçamentos públicos. O fato de “simplificar o tratamento”, portanto, tem razões específicas. Entretanto, essa facilidade pode se transformar em uma nova e poderosa crise, e a conferência destacou a importância de reagir enquanto ainda há tempo. Assim como acontece com os antibióticos, para o Dtg todas as possibilidades devem ser testadas antes de se chegar à última linha de defesa. Os trabalhos da conferência também contaram com a presença do Ministro da Saúde, Orazio Schillaci, que quis dar seu próprio testemunho do trabalho que está sendo feito na Itália: o país está certamente na vanguarda no tratamento da AIDS e agora está assumindo a liderança nessa nova batalha, graças também aos dados científicos que resultaram do programa Dream.
É necessária um sábio gradualismo para não nos encontrarmos, como testemunhou o professor Carlo Federico Perno, desprovidos de defesas. Basta lembrar que, no exemplo paralelo dos antibióticos, a resistência cresceu muito e há cerca de 14 anos que não são descobertas novas moléculas antibióticas. Como sabemos, um bom sistema de saúde não é representado apenas de medicamentos milagrosos, mas também pela forma como são tomados e de todo o estilo de vida e cuidados que envolvem o medicamento em si, ou melhor, o paciente visto como pessoa.
Personalizar terapias pode ser caro e trabalhoso, mas, no final, economiza dinheiro e salva vidas. O paradoxo é que a aceitação de modelos simplificados de tratamento para a África se torna uma forma de criar um novo “padrão duplo” dos tratamentos, voltando ao início da história da AIDS.