“Precisamos mudar nossa visão sobre as trabalhadoras do sexo e reconhecer a presença de Deus nelas”

Foto: Reprodução | Metrópoles

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19 Dezembro 2024

Por ocasião do Dia Internacional para Acabar com a Violência contra Trabalhadores do Sexo, lembrado em 17 de dezembro, a La Croix International conversou com pessoas envolvidas no trabalho pastoral com mulheres envolvidas no trabalho sexual em Cotonou, a segunda maior cidade do Benim.

A reportagem é de Juste Hlannon, publicada por La Croix International, 17-12-2024.

Desde 1984, Vincent Akpodji serviu como catequista na Catedral de Nossa Senhora da Misericórdia em Cotonou. Esta paróquia supervisiona o bairro de Jonquet, o infame epicentro do comércio sexual na segunda maior cidade do Benim. Tendo crescido em um distrito vizinho de Jonquet, Akpodji sempre foi profundamente tocado pela situação das trabalhadoras sexuais. "Por que essas mulheres são forçadas a vender seus corpos?", ele sempre se perguntava.

Em 1989, Akpodji se tornou o secretário da paróquia e desde então testemunhou nove pastores sucessivos se dedicando, cada um à sua maneira, a ministrar às mulheres em seu território paroquial. Ele lembra particularmente do falecido Monsenhor René-Marie Éhouzou, que serviu como pároco de 1996 a 2003. No Natal, Monsenhor Éhouzou convidava trabalhadoras do sexo para uma refeição na paróquia.

“Eu andava por Jonquet entregando os convites”, lembra Akpodji. Durante as reuniões, algumas mulheres aproveitavam a oportunidade para se confessar, pois “muitas dessas mulheres são batizadas”, ele ressalta. Com o tempo, a paróquia iniciou missas na Comunidade Eclesial Básica de Guinkomey, à qual Jonquet pertence, proporcionando “outra ocasião para escuta e evangelização”.

“Minha família me renegou”

Esses serviços pastorais, no entanto, ainda não chegaram a Anita, 31, e sua colega Kafui, que está na casa dos vinte. Ambas alegam ter frequentado escolas católicas — Anita durante o ensino fundamental e Kafui durante o ensino médio — mas nenhuma delas se lembra da última vez que foi à missa.

As duas jovens foram entrevistadas em uma movimentada noite de sábado em Jonquet. Anita, originalmente de um país vizinho, diz que é “uma orgulhosa trabalhadora do sexo” desde os 20 anos. Ela explica que se voltou para o trabalho sexual após suportar repetidos abusos sexuais. “Todos os homens da minha família me estupraram antes de eu completar 18 anos — meu irmão mais velho, um tio materno, até mesmo o primo em quem eu confiava”, ela conta.

Kafui, por outro lado, é “nova no setor”. Tendo abandonado a escola, ela chegou em Jonquet vinda de Comé, no sudoeste do Benim, no início deste ano. “Com este trabalho, posso comer direito e cuidar de mim mesma. Meus pais me rejeitaram, mas eu não dou a mínima”, ela diz desafiadoramente, exalando uma baforada de fumaça de charuto.

De acordo com o especialista legal Dr. Bob Liassidji, “a prostituição por adultos consentidos não é uma infração criminal” no Benin. Estima-se que 30.000 pessoas se envolvem em trabalho sexual no país, cerca de metade das quais opera clandestinamente.

Além do alto risco de contrair HIV/AIDS, os profissionais do sexo enfrentam violência física, sexual e psicológica significativa, relata a The Global Network of Sex Work Projects (NSWP), um grupo internacional de advocacia para profissionais do sexo. “Essas questões são frequentemente subestimadas e ignoradas pelas autoridades e pela comunidade. A violência, em particular, é vista como um 'risco ocupacional', e os casos de agressão nem sempre são relatados”, observou a NSWP em um de seus relatórios.

Ajudando as mulheres a recomeçar

Para Vincent Akpodji, o cuidado pastoral oferecido às trabalhadoras sexuais continua insuficiente, em grande parte devido ao preconceito social persistente. “Precisamos mudar nossa visão sobre essas mulheres e reconhecer a presença de Deus nelas. Vamos estender a mão para ajudá-las a deixar a prostituição”, ele pede. Durante as consultas para o Sínodo sobre a Sinodalidade, ele defendeu que o ministério pastoral diocesano para essas mulheres fosse ampliado.

“Desde 2022, muitas trabalhadoras sexuais têm participado das campanhas de evangelização da paróquia”, diz Akpodji com otimismo. “Quando elas envelhecem e se encontram destituídas, algumas vêm à paróquia em busca de ajuda, e a Caritas as apoia no início de atividades alternativas de geração de renda.”

Desde 2015, a comunidade católica Saint John Paul II tem se concentrado em ajudar trabalhadoras do sexo, particularmente aquelas que operam em casas particulares. “Essas mulheres são frequentemente dependentes financeiramente de homens que esperam favores sexuais em troca, sem qualquer emprego estável”, explica Antoine Boco, o líder nacional da comunidade. Ele diz que o grupo frequentemente fornece a essas mulheres “escuta, apoio e reintegração profissional”.

Para isso, “nós as convidamos a participar do seminário ‘Builder's Talents’, que a comunidade organiza anualmente. Ele as ajuda a identificar seus talentos e a iniciar negócios que apoiamos”, explica Boco. Segundo ele, muitas mulheres em Cotonou conseguiram “escapar da armadilha da prostituição ao se comprometerem a trabalhar ou se formar em áreas onde têm talento”.

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