Jacó luta com o Adversário e finalmente conhece a si mesmo. Artigo de Enzo Bianchi

Foto: Canva Pro | Getty Images

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08 Junho 2024

Chega o momento em que é preciso atravessar o rio e lutar contra a terrível, mas paradoxalmente amigável, figura do Adversário. Somos espontaneamente levados a pacificar os conflitos, a reconciliar as lacerações, a reparar as fraturas, e a ideia de entrar em choque com a força adversa, com o poder do negativo, é afastada como se afasta um fantasma. Mas a luta com o outro, o adversário, o rival que nada mais é do que enfrentar a sombra de si mesmo, é o que espera a todos, mais cedo ou mais tarde.

O artigo é de Enzo Bianchi, publicado por La Stampa em 01-06-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Há um episódio bíblico narrado em cerca de dez versículos do livro do Gênesis (32,23-33) que nos últimos dois séculos influenciou fortemente a cultura, a filosofia, a teologia e a arte ocidentais, e é a luta do patriarca Jacó com um ser não identificado e identificável na margem do rio Jaboque. Chega também para Jacó a hora da provação, uma hora terrível: ele trava uma luta noturna realmente única. Jacó vive uma solidão total, condição que é a ausência de outros para ser plenamente si mesmos, condição que permite assumir plenamente a própria singularidade, para poder tecer relações verdadeiramente conscientes.

É nessa situação de medo que “um homem lutou com ele”, rolando com ele na poeira: aquele que desde o ventre de sua mãe se tornou protagonista de árduas lutas, se depara com outro que o ataca. É outro homem, um “sujeito” não melhor especificado, desconhecido para Jacó; ele esperava no dia seguinte o encontro-embate com seu irmão Esaú, e em vez disso é novamente surpreendido, atacado por alguém que se lança sobre ele e o derruba. Estamos diante da luta das lutas, do entrelaçamento de dois corpos que se abraçam e se batem.

Jacó revela-se um lutador tenaz e indomável, a tal ponto que o seu antagonista, “vendo que não conseguiu vencê-lo, o atingiu na articulação da coxa, que se deslocou": estamos no meio de uma luta sem limites, na qual não se hesita a recorrer a golpes baixos!

Só no final da noite Jacó ouve o rival dizer: “Deixe-me ir, porque rompeu a aurora", a hora em que as trevas fogem e Deus resplendece como salvação! Pedido não imediatamente aceito, ao que se segue um intenso diálogo entre os dois contendentes. Jacó pede ao outro a bênção, mas é respondido com outra pergunta: “Qual é o teu nome?”. E é assim que Jacó se rende ao seu adversário, porque dar o nome significa entregar-se: o nome é a pessoa, é a realidade mais íntima de cada ser humano, e Jacó ao entregá-lo, se entrega àquele “alguém”.

E enquanto faz isso – nova surpresa – o seu nome é mudado: “Não te chamarás mais Jacó, mas Israel, pois como príncipe lutaste com Deus e com os homens e prevaleceste”.

Quem pode mudar o nome exceto Deus? Jacó, que ainda não entendeu quem é seu interlocutor, por sua vez pergunta-lhe o nome, e ouve-o responder com a bênção: mas não é a própria bênção um nome de Deus? Jacó é um vencedor que chora e pede graça, é um vencedor ferido, isto é, mostra no seu corpo que na verdade Deus venceu contra ele, nele: Jacó é o enganador enganado, o vencedor vencido. Coxo e chorando, ele não é mais o homem que era antes, mas é agora um lutador que pela graça obteve a bênção; é um homem que carregará para sempre os sinais da luta no seu corpo e no seu coração.

Às inúmeras obras literárias e artísticas originadas pela luta de Jacó, acrescentamos agora o surpreendente e encantador ensaio do filósofo Roberto Esposito, I volti dell'Avversario, L'enigma della lotta con l'Angelo [As Faces do Adversário, O Enigma da luta com o Anjo], publicado pela Einaudi. Conhecemos a importante contribuição que os estudos e obras de Roberto Esposito propiciaram à investigação filosófica, em especial nos temas da comunidade e da biopolítica: a sua trilogia Communitas, Immunitas, Bìos é hoje um ponto de referência. Por isso I volti dell'Avversario, é uma obra surpreendente, porque é surpreendente a descontinuidade, ou melhor, a ruptura com os seus livros anteriores, algo que ele próprio não hesita em reconhecer.

Mas é exatamente esse desvio que permite a Esposito entregar-nos uma interpretação diferente do episódio bíblico em questão. O autor submeteu a sua obra à prova da alteração, mais exatamente da prova do Outro, a ponto de colocar o Adversário como pedra angular a partir da qual iniciar a análise da luta de Jacó. O enigma do Adversário como figura interpretativa, na medida em que o adversário com quem Jacó luta durante uma noite inteira, do anoitecer ao amanhecer, tem recebido infinitas interpretações, mudando continuamente suas conotações, assumindo ora as feições do homem e a sua sombra, ora de Deus e de Satanás, de inimigo e do amante.

Uma luta que vai além de si mesma e que assume e resume todas as formas possíveis que a relação possui, ela é encontro, embate, confronto, abraço, “no ponto incandescente onde polemos e eros parecem misteriosamente cruzar seus contornos".

É emblemática a escultura Jacó e o anjo de Jacob Epstein onde Jacó se abandona ao abraço com aquele contra quem lutou ao extremo, para mostrar que o enigma tem uma relação com a verdade sem pretender resolver o enigma. Esposito observa: “Não há luta - por parte de Jacó como de cada um de nós – para apoderar-se de uma verdade inalcançável, mas para aceitar sua inalcançabilidade, com o tormento ou o alívio momentâneo que isso acarreta. Seja lá o que for a motivação contingente, em última análise, sempre lutamos pela nossa verdade, para buscar, pelo menos por um instante, vê-la cara a cara, como Jacó faz com adversário, antes que ele desapareça novamente".

A grande capacidade de Roberto Esposito é confiar não só nas palavras, mas também nas representações artísticas que ao longo dos séculos interpretaram das mais diversas maneiras o episódio: luta hierática na iconografia bizantina; abraço resistente em Rembrandt; embate de dois corpos poderosos em Eugène Delacroix; confronto entre um anjo imponente e um minúsculo Jacó em Marc Chagall; a hercúlea prova de força em Léon-Joseph-Florentin Bonnat; cena vista de longe por espectadoras curiosas em Paul Gauguin. Jacó luta com um homem inominado; ele luta com sua própria sombra, com um anjo que representa seu próprio “eu desdobrado”; briga com o anjo da guarda de Esaú; ou luta com Deus. Lutando com o Outro, cada um luta contra si mesmo, para se aproximar de uma verdade que continua a lhe escapar. “Luta consigo mesmo para criar a si mesmo”, como afirmou Jung para Song of Hiawatha.

A colocação do Adversário no centro da análise constitui a chave pessoal da interpretação oferecida por Esposito. A luta de Jacó demonstra como a identidade é inseparável da alteridade ou do conflito, assim como o conflito é da identidade. “O Adversário - observa Roberto Esposito com perspicácia - é aquele que ao mesmo tempo cria e mina a nossa identidade. Ao ameaçá-la, a institui, porque a arranca da sua unidade, como nenhum amigo poderia fazer, empurrando-a para um sentido mais maduro de si mesmo."

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