Migrantes, um destino de morte ao longo da rota que passa pelo Chade

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31 Agosto 2023

No relatório da Human Rights Watch, a denúncia de sofrimentos e violências terríveis. Ao calor e aridez somam-se os bloqueios intensificados nas fronteiras com o Níger e o Sudão. E quando essas vidas em caminho conseguem chegar à Etiópia, aqui o inferno continua. Poucos chegam às portas da península arábica, mas mesmo aqueles que conseguem enfrentar o longo êxodo não podem se dizer salvos. O caso do tráfico de medicamentos que, usados como antitérmicos, causam graves danos à saúde de mulheres e crianças.

A reportagem é de Dorella Cianci, publicada por Avvenire, 30-08-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

No extremo norte do maciço de Tibesti existe uma região com o mesmo nome, talvez pouco conhecida, que aproxima o Chade à Líbia e, a oeste, também ao Estado do Níger. A rota migratória que termina no Chade e em especial na zona do lago, não é atualmente conhecida como zona de bloqueios, de maus tratos, de mortos. No entanto, precisamente nessa área, estão se concentrando muitas pessoas que se dirigem para o norte, mas também para a península arábica. Este relato relativo ao Chade surge do relato de uma autópsia do início de julho e de testemunhos de médicos voluntários decididamente confiáveis, mas também expostos a muitos perigos.

Por que justamente o Chade? É daí que vêm os relatos de outras mortes de migrantes em caminho rumo àquela área do norte, que o Papa Francisco definiu, na JMJ de Lisboa, como um dos maiores cemitérios do mundo, ainda maior que o Mar Mediterrâneo.

A área da morte deveria estar localizada em torno de Gouro, mas as autoridades líbias não estão autorizadas a informar sobre essa área (e de qualquer maneira não informariam sobre essa horrível situação) e do Chade, absurdamente, não chega nenhuma notificação, também porque os números de pessoas que fogem do vizinho Níger estão fora de controle, desde um pouco antes do golpe. Nenhum governo tem interesse em divulgar esses dados ainda muito confusos. Bem poucos, no Ocidente, querem verificá-los diretamente. A esse cenário confuso, numa zona tão variegada nos cenários da política interna, quanto comum, até às fronteiras, por pobreza, insegurança, violência e crises climáticas somam-se os preocupantes dados (mas precisos e confiáveis) relatado pela Human Rights Watch.

O que está acontecendo nessa zona de trânsito, tanto para o leste (na fronteira com o Iêmen e os seus "corredores ilegais") quanto para o Sudão, até o limiar do Nilo Azul, como para norte, nos beirais da Líbia? Muito se tem falado sobre o que acontece na Líbia, mas de fatos quase não se conhecem as problemáticas migratórias ligadas à centralidade geográfica do Chade e à complexidade de suas fronteiras.

Em um mapa, esse trajeto leva tanto tempo quanto uma olhadinha; na verdade, mesmo viajando a bordo de carros confortáveis, a situação é bastante sustentável, apesar da travessia pelo território de Mongororo (quase próximo a Darfur) definitivamente perigoso de cruzar devido aos bandos violentos que chegam da África Central. Como é esse trajeto, porém, que gira em torno do lago Chade, quando é percorrido em veículos improvisados e com muitos quilômetros a serem cobertos a pé? Só pode ser um trajeto de morte, porque é quente, muitas vezes árido, sedento, mas também violento por causa dos bloqueios de fronteira intensificados (ainda não muito conhecidos) entre o Níger e o Chade e depois entre o Chade e o Sudão.

Nos raros casos em que essas vidas em caminho do Níger conseguem alcançar a Etiópia, o inferno não acabou.

Um dos relatos mais precisos foi fornecido pelo The Guardian, assinado por Peter Beaumont, que divulgou um mapa útil sobretudo para compreender o dossiê dos horrores cometidos pelos guardas sauditas. O relatório de 73 páginas da Human Rights Watch detalha o que já era conhecido, informalmente, desde março: “Dispararam sobre nós como rajadas de chuva. Houve assassinatos em massa na Arábia Saudita, especialmente de migrantes etíopes, na fronteira entre o Iêmen e a Arábia Saudita”; os guardas têm, de fato, usado armas explosivas para matar muitos migrantes e atiraram em outros à queima-roupa, mesmo contra muitas mulheres e crianças, de acordo com um modelo sistemático de ataques e violência, ditado por Governo saudita. Também se lê: “Em alguns casos, os guardas de fronteira pediram aos migrantes para qual membro atirar e depois atiraram”.

Contudo, não há informações, nem mesmo por esse ótimo dossiê, do que acontece com aqueles que não conseguem nem mesmo chegar à Etiópia.

O destino de morte, muitas vezes, diz respeito sobretudo aos requerentes de asilo que chegam do Níger e se dirigem (teoricamente) para a Arábia Saudita. Nessa zona intermédia, “fora da vista do resto do mundo”, para usar uma expressão de Nadia Hardman, refugiada e investigadora de direitos dos migrantes, não existe nem o direito internacional nem os olhos do resto da humanidade. Poucos chegam às portas da península arábica, mas mesmo aqueles que conseguem enfrentar o longo êxodo não podem se considerar salvos. Hardman também declarou: “Gastar bilhões para comprar golfe profissional, equipes de futebol e grandes eventos de entretenimento para melhorar a imagem saudita não deveria distrair a atenção das mídias desses crimes horrendos, que já foram divulgados através da rede social TikTok em 4 de dezembro de 2022. Ninguém se mexeu. Ninguém se preocupou realmente.

O vídeo mostra um grupo de cerca de 47 pessoas, das quais 37 mulheres, caminhando por uma encosta íngreme, dentro da Arábia Saudita, justamente na trilha usada para atravessar o campo de migrantes de Al Thabit. A Human Rights Watch entrevistou, como se sabe, muitas pessoas, mas sobretudo analisou mais de 350 vídeos e fotografias publicados nas redes sociais ou recolhidos de outras fontes.

Graças a essas fontes não oficiais podemos contar outros detalhes, acrescentando a nossa voz direta: ao longo do caminho através do Chade há muitos cidadãos e cidadãs do Níger que estão encontrando a morte, enquanto uma parte do mundo aplaude a cúpula dos BRICS em Johanesburgo.

Essas pessoas, no silêncio mais absoluto, nunca chegarão ao seu destino.

E, além disso, há outro assunto que também acontece no Chade e que ainda não conseguiu encontrar espaço na mesa internacional da África do Sul: de onde vêm os supostos antipiréticos, quase vendidos como paracetamol, que deveriam curar a febre malária das crianças do Sahel? Estamos falando do chamado “remédio do migrante”, (denominação definitivamente imprópria e com conotação desdenhosa naquelas regiões), o tramadol. No início de julho conseguimos documentar diretamente a triagem no Chade. Uma parte desses pseudofármacos segue para a Líbia, outras descem para Nigéria, Sudão, Etiópia, até reencontrar seus vestígios nas análises das crianças de Uganda. A carga, muitas vezes, para perto do Lago Chade, em zonas muito próximas do Níger, de onde não vazam notícias suficiente sobre o que acontece na parte ainda mais ocidental (onde teria origem. Muitos indicam a Costa do Marfim como o principal centro de produção, mas deveriam ser acrescentados não apenas Senegal e Guiné, mas o próprio Chade, que faz negócios lucrativos com a Líbia. Por sua vez, o submundo da Líbia exporta a droga para a Sicília e a Calábria ou justamente para a Arábia Saudita e a Jordânia até chegar aos portos da Turquia).

O que tentamos documentar no Chade? Não tanto a “rota da droga”, mas a disseminação da substância tramadol para tratar crianças no Congo, Zaire e Uganda. Conseguimos, em parte, notar como a África Central não permite o seu uso em crianças e mulheres grávida, mas o produto, justamente por ser produzido internamente, tem baixo custo e é prescrito para doenças simples, embora cause danos muito elevados. As crianças que o recebem para baixar uma simples febre estão sujeitas a danos cardíacos irreversíveis ou até mesmo paradas cardíacas imediatas. Nas mulheres, muitas vezes sem o seu conhecimento, o medicamento provoca abortos espontâneos, o que deveria resolver, de acordo com os testemunhos do pessoal da saúde que coletou os dados, a superpopulação de determinadas áreas. Obviamente essas práticas desumanas e indecentes são permitidas pelos controles das milícias do estado, que já tiveram, nos últimos anos, "treinamentos" suficientes tanto dos terroristas do ISIS quantos dos homens do grupo Wagner, que costumam usar o produto como droga de baixo custo, a ser revendida também no Leste Asiático a preços bem diferentes.

Ambos os cenários encontrados no Chade, local indicado como muito perigoso depois o assassinato de Déby, em 2021, falam-nos de uma zona do norte e centro de África da qual muitos tentam fugir, para procurar abrigo, para proteger os seus filhos. É difícil fazer isso. É ainda mais difícil para as pessoas do Níger, ainda totalmente no caos. Frequentemente, fugir tanto para o norte quanto para o leste é quase tão perigoso quanto ficar. Essa realidade permanece invisível na cúpula de Johanesburgo. Mas não só...

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