“Possíveis divisões? A Igreja superará as dificuldades”. Entrevista com o Cardeal Camillo Ruini

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09 Janeiro 2023

“Entre Bento e Francisco pontos de diversidade, mas na estima e no afeto”. “Vatilieaks, ele não merecia tal situação”.

Foi um dos seu fidelíssimos. O cardeal Camillo Ruini, 91, presidente da Igreja italiana até 2007, fala de sua relação especial com Bento e de um papado que abriu para à nova temporada de Francisco.

A entrevista é de Paolo Rodari, publicada por Oltre Verona, 06-01-2023. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Eminência, houve alguma contraposição entre Bento e Francisco nesses dez anos de convivência?

Havia mais estima e afeição recíprocas. Também havia evidentes diversidades de caráter, de sensibilidade e também, em certa medida, de orientações doutrinárias e pastorais, mas sempre dentro do afeto e estima recíprocos.

Pensando no futuro da Igreja, o senhor está preocupado com os possíveis conflitos causados pelos opositores do pontificado de Francisco?

Prefiro sempre ter confiança de que o Senhor ajudará a Igreja a superar possíveis dificuldades.

Quem era Joseph Ratzinger?

Ratzinger certamente quis manter o depósito da fé intacto em sua totalidade. Mas o fez com aquela extraordinária inteligência e aquele requinte espiritual que o Senhor lhe deu. Ele sabia muito bem, portanto, que a vive no tempo e, precisamente para permanecer si mesma, deve renovar-se continuamente, face às demandas e aos desafios do seu tempo. Já durante o período de seu pontificado, a meu ver, as pessoas haviam entendido que encerrar sua personalidade no estereótipo do cão de guarda da fé era um grande absurdo, um verdadeiro mal-entendido. Poucas pessoas como ele compreenderam em profundidade o nosso tempo, com suas riquezas e suas contradições.

Quais encontros teve com Ratzinger que lembra como mais significativos?

Tive muitas conversas, a começar pela de 1971, ano em que o convidei para Reggio Emilia quando era professor em Regensburg e assim o conheci pessoalmente. Depois o encontrei quando era prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e eu era secretário e depois presidente da Conferência Episcopal Italiana e vigário de João Paulo II para a diocese de Roma. Depois, claro, quando ele se tornou papa e eu fui seu vigário por três anos. Depois, novamente quando eu já era emérito e, finalmente, depois de sua renúncia ao pontificado: eu diria que as conversas deste último período foram as mais pessoais e nas quais nosso vínculo mais se aprofundou.

O que o senhor pensou sobre a renúncia?

A sua renúncia, à qual eu estava presente, no momento me confundiu e muito me preocupou. Logo percebi que, com a eleição do sucessor, o trauma teria sido absorvido. Nunca falei com ele sobre os motivos da renúncia porque, conhecendo sua retidão, acho que os motivos são aqueles que ele declarou, e não outros. Não era tanto o cansaço quanto a percepção de que as próprias energias eram agora insuficientes em relação aos empenhos do pontificado. Excluo que seu propósito fosse dar uma sacudida no governo da Igreja.

Quando Ratzinger renunciou, muitos se lembraram das palavras de João Paulo II segundo o qual "não se desce da cruz". Considera que aquele gesto pode ser criticado de alguma forma ou não?

João Paulo II e Bento XVI foram dois pontífices em grande continuidade e também pessoalmente muito próximos, mas suas personalidades eram muito diferentes: portanto, a maneira como eles reagiram ao declínio de suas energias também foi diferente. Cada um dos dois fez o que considerou certo e adequado.

O que pensa sobre o período das Vatileaks?

Foi uma época ruim, que entristeceu quem realmente ama a Igreja. Joseph Ratzinger absolutamente não merecia tal situação.

Bento XVI levantou grandes temas teológicos e morais sem medo de ir contra o mainstream. Por que, na sua opinião, sentiu a necessidade de insistir nesses temas e por que hoje se fala menos?

Bento XVI identificou com grande precisão as principais divergências entre a fé cristã – mas também a reta razão – e as correntes culturais que de alguma forma são dominantes hoje. Na minha opinião, estas são também as grandes questões do futuro que está à nossa frente: por isso é pouco perspicaz falar menos delas.

Ratzinger também estava muito atento aos assuntos políticos italianos. Recordemos, por exemplo, as audiências concedidas às instituições civis romanas em que também se manifestava duramente sobre as várias políticas tomadas sem fazer concessões a ninguém. Era ingerência ou expressão legítima do ponto de vista pessoal Bento XVI certamente não foi um Papa político; as audiências com as autoridades civis, tanto em Roma quanto em outros lugares, são uma prática padrão. Naquelas ocasiões, como em muitas outras, o Papa Bento XVI não hesitava em trazer aqueles grandes temas mencionados na pergunta anterior: não se tratava de ingerências, mas de tomadas de posição obrigatórias.

Durante o pontificado de Bento XVI também se falava muito de Europa, de suas raízes. Por que esse tema parece ter sido esquecido hoje?

Como João Paulo II, Bento XVI teve uma grande atenção pela Europa. O primeiro desses Papas contribuiu decisivamente para a queda da divisão após a Segunda Guerra Mundial, mas depois lutou contra a secularização. O segundo continuou esta luta. Hoje a Europa está perdendo cada vez mais a sua centralidade e por isso é de certa forma inevitável que se fale menos dela, embora também o Papa Francisco tenha dedicado algumas intervenções muito importantes à Europa.

Bento XVI foi eleito após a famosa Via Sacra do Coliseu na qual falou da sujeira presente na Igreja. Havia nos cardeais que o elegeram a vontade de purificar uma Igreja suja por dentro?

Havia, sem dúvida, essa vontade, mas não foi o principal motivo de sua eleição. Pesaram muito mais a estima pessoal de que desfrutava e a proximidade com João Paulo II. Fiquei impressionado com o clima de confiança e alegria que permeou aquele conclave, a começar pelas reuniões preparatórias.

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