É o fim da Igreja ou o início de uma nova forma de viver o cristianismo? Entrevista com Andrea Riccardi

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09 Janeiro 2023

“A Igreja arde”, adverte Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, no dia da Epifania. Em entrevista ao Le Monde, porém, ele confidencia seu otimismo e convida os católicos a “se libertarem de sua sensação de declínio”.

Andrea Riccardi é um dos principais fundadores da Santo Egídio, uma comunidade de leigos católicos conhecida, entre outras coisas, por seu papel de mediação em diversos conflitos internacionais. Em um livro com o evocativo título L’Eglise brûle" (A Igreja arde, sem ponto de interrogação em francês), esse historiador analisa a crise que o catolicismo vive atualmente e oferece razões para manter o otimismo.

Capa do livro "L’Eglise brûle" de Andrea Riccardi. (Foto: divulgação)

A reportagem é de Gaétan Supertino, publicada em Le Monde, 09-01-2023. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

O título de seu livro refere-se ao incêndio de Notre-Dame de Paris. Em sua opinião, pode-se ver aí uma metáfora da Igreja. O que você quer dizer com isso?

Aquele incêndio me levou a me perguntar por que toda a nossa Igreja está queimando, ou seja, em declínio. A Igreja continua falando de evangelização, mas os católicos são cada vez menos numerosos, pelo menos na Europa. A primeira causa, a meu ver, é a transmissão entre gerações: o catolicismo não circula mais nas famílias. O êxodo rural no século XX teve grande influência, pois a zona rural era o berço da Igreja. Isso se inscreve em um fenômeno social muito profundo, marcado pela predominância do individualismo que rompe toda ideia de comunidade.

Mas há também causas internas à Igreja, como a crise das vocações – a “profissão” de padre não atrai mais – ou as desigualdades entre mulheres e homens no acesso aos cargos de responsabilidade. Diante de todos esses problemas, eu me perguntei: é o fim da Igreja ou o início de um novo modo de viver o cristianismo? Vemos aumentando o poder de comunidades perfeitamente adaptadas à nossa época, à globalização ou à sociedade de consumo, como o neoevangelismo ou o neopentecostalismo. O grande desafio da Igreja é encontrar o próprio lugar diante dessas religiões baseadas na emoção e no sucesso econômico, sem renegar a si mesma.

Seu livro apresenta uma mensagem otimista para o catolicismo. Mas, em sua opinião, é preciso pensar em uma nova forma de viver a Igreja. O que isso significa concretamente?

Acima de tudo, precisamos ser coerentes. Tomemos o problema das mulheres, que é fundamental. Sem chegar a falar de acesso ao presbiterado, é preciso tirar as mulheres do isolamento que vivem dentro da instituição. Elas devem poder participar do destino da Igreja em pé de igualdade com os homens. É preciso confiar a elas responsabilidades oficiais nas paróquias, para que possam participar das decisões mais importantes da Igreja. As coisas começam a se mexer, principalmente na França e na Alemanha. Mas precisamos ir muito mais longe nesse sentido.

Tomemos o exemplo do presbiterado. Os padres são cada vez menos numerosos, e o que significa a Igreja Católica sem o ministério sacerdotal e sem a celebração da eucaristia? Não é mais a Igreja Católica, é outra coisa. Temos que imaginar outros caminhos para chegar ao presbiterado. Por que não a ordenação de homens casados? É uma possibilidade. Mas a primeira reforma a ser feita, a meu ver, é a da visão que temos da nossa comunidade: precisamos nos libertar da nossa sensação de declínio.

Os cristãos não podem se definir como um grupo de mulheres e de homens que vão à igreja para rezar. São pessoas que dão o exemplo de uma forma diferente de viver e de conceber a sociedade, por exemplo colocando os pobres no centro. Devemos oferecer um “imaginário alternativo”. A Igreja sempre foi um laboratório de novas visões e de novos imaginários. E pode ser hoje também.

Você também disse: hoje existem inúmeras formas diferentes de ser cristão. Por que é tão importante salvar a Igreja Católica?

Hoje, existe uma imensa pluralidade de experiências, é verdade. Penso justamente que a Igreja Católica oferece um equilíbrio precioso entre proximidade – cada paróquia é diferente e inovadora à sua maneira – e universalidade – com uma visão global, uma tradição compartilhada, uma continuidade ao longo da história. A Igreja Católica também mantém uma relação particular com a paz. Não se resume a uma nação, a uma etnia ou a um partido político. Mesmo que nem sempre seja bem-sucedida, isso lhe permite ter como objetivo a unidade entre os povos. Na África, por exemplo, a tendência neoprotestante, ao contrário, é mais fragmentada e, portanto, mais fácil de manipular pelo poder político.

A Igreja Católica hoje é abalada pelos escândalos sexuais. Ela conseguirá ser crível se não resolver esse problema?

Acho que esse é realmente “o” problema a ser resolvido, senão ele atuará como um veneno que ressurgirá toda vez que tentarmos falar sobre outra coisa. Mas acho que infelizmente isso vai levar anos. No entanto, existem outras questões urgentes também. A pobreza continua atingindo todo o planeta, a crise climática promete ser cada vez mais violenta, muitos países estão em guerra... Nesse contexto difícil, a Igreja deve poder levar uma mensagem de esperança.

A crise dos abusos sexuais também revela certas falhas na Igreja. O relatório Sauvé aponta o dedo, entre outras coisas, para o excesso de poder dos padres. O que você acha?

Por muito tempo, a Igreja desenvolveu uma concepção de poder masculino e clerical: é preciso sair dessa armadilha herdada do passado. Hoje, os padres estão, ao mesmo tempo, cheios de poderes – na hierarquia da Igreja – e muitas vezes são impotentes diante de sua comunidade. Envelhecem e se sentem cada vez mais marginalizados pela história. Devemos mudar e evoluir para uma nova partilha comunitária das responsabilidades, na qual o padre tem seu papel, assim como os leigos, as mulheres e os homens. O processo sinodal iniciado atualmente pelo Papa Francisco em escala mundial deve permitir regenerar a vida da Igreja nesse sentido.

Nesse processo, os mais inovadores parecem ser os bispos alemães. Mas eles são muito criticados, principalmente no Vaticano, onde são acusados de expor os católicos a um risco de cisma... Você realmente acha que a Igreja é capaz de se reformar?

A Igreja Católica é uma grande comunidade, e os processos de mudança sempre foram muito longos, ainda mais quando se parte das realidades locais. Se as reformas fossem impostas de cima, as coisas iriam muito mais rápido, mas não seriam bem recebidas. O papa quis um processo que partisse da base, do chão. Não será algo de um dia. Provavelmente nos ocupará as próximas décadas. Sempre se acha que a Igreja é uma estrutura muito autoritária. Mas, na realidade, ela tem uma opinião pública muito importante, fortalecida hoje pelas redes sociais digitais. Muitos católicos tomam partido em público e entram em contato uns com os outros. Agora, trata-se de chegar a um consenso. Vai ser algo muito longo, mas estou otimista.

Na África, para onde o papa viajará no fim de janeiro – ao Sudão do Sul e à República Democrática do Congo – a Igreja ainda é muito dinâmica. Continua recrutando fiéis e padres, alguns dos quais são enviados para a Europa. O futuro da Igreja está em jogo nesse continente?

Há muito tempo, diz-se que o futuro da Igreja estava sendo jogado na América Latina. Antes, falava-se da Europa. Eu acredito que não há uma terra prometida para a Igreja. Em vez disso, penso que a Igreja tem um papel muito importante a desempenhar na África e que o catolicismo africano é efetivamente muito rico. Na República Democrática do Congo, por exemplo, a Igreja implementa ritos muito inovadores, há uma universidade católica muito dinâmica, muitos intelectuais, mas também ações sociais e de mediação que são realizadas por iniciativa dos católicos etc. Não estou chocado com a vinda de padres africanos para a Europa, pelo contrário. Eles devem vir como missionários, testemunhar sua fé e compartilhar suas experiências. A África é um laboratório do futuro do mundo. Os problemas da relação com o Islã ou com os neoprotestantes e os ligados à guerra existem na África de uma forma muito viva, e a Igreja está na linha de frente desses desafios. Devemos concluir que o próximo papa será africano? Não sei. Mas, afinal, por que não? A Comunidade de Santo Egídio, fundada em 1968, distinguiu-se por seus sucessos diplomáticos.

Em sua opinião, a Igreja deve se envolver mais nas relações internacionais?

Em sua história recente, a Igreja nunca teve um grande peso na diplomacia. Pensemos na prudência de Pio XII durante a Segunda Guerra Mundial ou nos papas prisioneiros de Napoleão. O único soberano pontífice do século XX que realmente teve um peso diplomático foi João Paulo II, que foi um interlocutor politicamente importante no fim da Guerra Fria. No entanto, a Igreja ainda dispõe de uma influência moral muito importante. O Papa Francisco sempre é muito ouvido, até mesmo pelos não cristãos. Se quisermos lutar pela paz, acredito efetivamente que devemos investir mais na diplomacia, mesmo que apenas no nível intelectual. De certa forma, o Papa Francisco acredita nas relações internacionais. Deseja se encontrar com os chefes de Estado, até conseguiu desempenhar um papel, na Síria, por exemplo, quando se opôs a uma intervenção estadunidense. Mas sempre haverá um limite. Quando Roosevelt dizia a Stalin: “O papa quer isto ou aquilo”, Stalin respondia: “De quantas divisões ele dispõe?”. O papa não tem exército, e isso importa nas relações internacionais!

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