“A postura da Igreja em relação ao universo LGBTI não apenas é anacrônica, como também é anti-evangélica. Pedra de tropeço”. Entrevista com James Alison

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28 Junho 2021

 

James Alison (Londres, 1959) é um teólogo, escritor e padre católico, ao qual o próprio Papa Francisco entregou “o poder das chaves”, que atende espiritualmente e celebra os sacramentos para a comunidade CRISMHOM de Madrid e, de forma itinerante e telemática, muitas outras comunidades LGBTI de todo o mundo. Está há anos lutando, com seus escritos e sua vida, a favor do reconhecimento pleno dos homossexuais na Igreja, de maneira firme, porém não radical. Está convencido de que “a postura da Igreja em reação ao universo LGBTI não apenas é anacrônica, como também anti-evangélica. Pedra de tropeço”.

Porém, não rompe com a Igreja e reconhece os passos, pacientes, mas seguros, que está dando o Papa Francisco: “O fruto destes anos de Francisco está sendo maravilhoso. Começamos a perder o medo de falar destas questões”.

Louva a valentia do padre youtuber Daniel Pajuelo, sobre o qual os “‘haters’ fizeram chover enxofre”, pelo simples pecado de tê-lo entrevistado em seu canal do Youtube: “quero felicitá-lo cordialmente por sua valentia, pois ele também sabe quantos dragões dormentes se desperta quando se dá espaço à fala sincera neste tema”.

A entrevista é de José Manuel Vidal, publicada por Religión Digital, 28-06-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

 

Eis a entrevista.

 

Que presente pediria à Igreja para a comunidade LGBTI na semana do Orgulho LGBTI?

Que siga deixando nos movermos pelo Espírito Santo, para ir ensinando, tal e como já está fazendo, ao clero, e sobretudo a hierarquia, a não ter nem tanto medo de nós, nem tanta vergonha de si mesma, que não poucas vezes é a mesma coisa.

 

Pode se afirmar que a postura da Igreja em relação ao universo LGBTI não apenas é anacrônica, mas também antievangélica?

Claro que sim. Se eu não sei de algo e posso estar dizendo algo equivocado, talvez não seja culpa minha. Mas uma vez sabendo, e resistir à verdade e insistir na repetição do erro, é algo mais que um anacronismo. Por isso, não se culpam os astrônomos ptolemaicos por seus erros de cálculo. Unicamente teria culpa, se, passado o tempo, insistisse em rejeitar os dados obtidos pelo giro copernicano e buscasse fazer valer um sistema que não se enquadra com os fatos.

O mesmo passo agora: quando todo mundo dava como suposto que LGBT era vício ou patologia, o que se deduzira nos princípios, regido por um a priori baseado no ato matrimonial, foi um erro antropológico que se correspondia com o sentido comum da época, agora não mais. Porém, com o que aprendemos ao longo dos últimos 70 anos sobre o não patológico das diversas orientações sexuais e identidades de gênero, já não. Querer insistir, como se fosse de Deus, nos quais as pessoas deduzam o que são a partir de premissas estabelecidas a priori, para chegar a concluir que sofrem uma tendência objetivamente desordenada (e por isso seus atos são intrinsecamente maus), deixa de ser um erro para se tornar um ato de obstinação contra a recepção cristã da verdade inteligível sobre o criado. Uma autêntica pedra de tropeço, ou skandalon.

 

O que precisa ocorrer para que a instituição deixe de ser homofóbica e machista?

Então, a presença de mulheres em condições de igualdade em todas as instâncias da Igreja.

 

Como é possível que o Vaticano pare de dizer que não se pode abençoar os casais gays?

Seria uma grande surpresa se dissesse outra coisa. Não é tarefa da CDF ditar nova doutrina, mas sim vigiar pela manutenção da atual. Para que se possa dizer outra coisa, o papa ou um concílio teria que ordenar que se reformulasse seu enfoque sobre esta questão. Tal e como fizeram a petição do papa em matéria de inadmissibilidade da pena de morte. De modo muito elegante, certamente. Porém, nesta matéria ainda não lhes chegou esta ordem. Isso sim, pode se discutir a conveniência de que se tivesse pronunciado ou mantido silêncio sobre o assunto das bênçãos. Porém, pelo visto, a CDF não está alheia aos jogos e manipulações político-eclesiásticas, neste caso a raiz de medos suscitados pelo Caminho Sinodal Alemão. De qualquer forma, parece que saiu o tiro pela culatra.

 

Você segue exercendo o ‘poder das chaves’ que o próprio Papa lhe deu?

Como não seguir? O poder das chaves entendo como jurisdição universal para confessar e pregar, e o exerço toda vez que me pedem. Neste final de semana, por exemplo, presidirei e pregarei para a CRISMHOM, o grupo de fiéis LGBTQIA+ de Madrid, e no dia seguinte uma missa online para um grupo de San José, da Costa Rica. De fato, o trabalho pastoral nesta área cresce na medida em que mais jovens começam a ter a confiança e serenidade suficiente para saber que podem formar comunidade eucarística. Começam a crescer na fé, em saúde mental e em uma vida de caridade a partir do que são, e não apesar do que são.

Tenho o privilégio de ter acompanhado este tipo de grupos em Chile, Peru, Brasil, Colômbia e México, sem pensar nos grupos online neste tempo pandêmico. Isso é imparável, e pouco a pouco até alguns bispos começam a se dar conta do bem que fazem estes grupos. Pois bem, eles têm um papel de sinalizar que isso da Igreja em saída é real, e que não vamos ficar definitivamente presos nas mentiras e na violência do passado. Ou seja, se você conviver com essa questão é um sinal de que a verdadeira evangelização vai ser possível.

 

Não lhe parece que Francisco fez e ainda faz ‘gestos’ em direção aos homossexuais, mas não se posiciona aberta e canonicamente a seu favor?

Olha, estou tão impaciente quanto qualquer homossexual que se respeita para que finalmente o sucessor de Pedro atualize oficialmente, para nos incluir no ‘Deus me disse para não chamar nenhum ser humano de profano ou impuro’, dito pelo apóstolo em Atos 10. Ao mesmo tempo, reconheço que este assunto tende a produzir enorme ansiedade, violência e perda de razão, sobretudo no alto clero e seus afins.

E sejamos francos: toda comunidade cristã em que este assunto começou a ser discutido passa inevitavelmente por um processo muito violento até começar a se acalmar. Nesse sentido, agradeço muito que Francisco tenha procedido por meio de sinais e gestos, porque inevitavelmente isso permite que as pessoas comecem a perceber que algo não está bem na situação atual e se preparem para o momento em que possa ser corrigido. E assim foi: os frutos destes anos de Francisco foram maravilhosos. Começamos a perder o medo de falar sobre essas questões, a reconhecer que são as pessoas LGBTQI que têm que formular sua experiência de fé na primeira pessoa, sendo súditos e não um ‘eles’ perigoso.

Aos poucos a temperatura vai baixando. Se estivermos aprendendo a viver a verdade relacionalmente, por meio de conhecidos, parentes e amigos, aos poucos a possibilidade de corrigir nossa frágil racionalidade, descrevendo-a em documentos e catecismos, tornar-se-á evidente e imperativa sem produzir cismas. Não é por isso que deixo de rezar para que Francisco se dirija a nós com palavras que indiquem nossa inclusão, para que o esquema apriorístico, em vigor até agora, seja deixado para trás. E também que pelo menos seja tomada a decisão institucional de se pronunciar a favor da descriminalização da homossexualidade nos países onde é punível com prisão e até mesmo com a pena de morte.

 

Os rigoristas criticaram duramente o padre Daniel Pajuelo por uma entrevista que ele acabou de dar com você em seu canal no YouTube. Você esperava tanta aspereza contra seu entrevistador e, claro, contra você mesmo?

O vídeo da entrevista do padre Dani Pajuelo com James Alison, em espanhol

Vários amigos já me disseram que choveu enxofre sobe o padre Dani, por ter dado lugar a este indigno que normalmente só chega a um pequeno público. Portanto, estou imensamente grato por ele me oferecer a hospitalidade de seu canal de longo alcance. E quero felicitá-lo calorosamente por sua bravura, pois ele também precisa saber para quantos dragões adormecidos ele foi despertado quando a fala sincera teve espaço sobre esse assunto. Como youtuber profissional, é preciso ter a pele bem grossa, já que linchamentos virtuais acontecem todos os dias nesse mundo. Por isso, peço ao Espírito Santo para protegê-lo de toda essa toxicidade. Dani quis se expor ao tipo de repúdio que é a experiência típica de muitos crentes LGBT, para que alguns de seus ouvintes possam receber a mensagem de que Deus os ama exatamente como são, talvez pela primeira vez em suas vidas. É um sinal da sua nobre solidariedade cristã.

Acho interessante analisar o fato de que os ‘haters’ raramente vão atrás de mim, mas sempre e com muito mais veemência, eles atiram no meio que me dá espaço. E eles acertaram o alvo: o ataque da violência sagrada sempre tenta impedir que as coisas sejam faladas. Claro, quem quer que diga essas coisas está desacreditado. Mas aquele que lhes permite encontrar eco público é uma ameaça muito maior. Bem, mesmo que não se pronuncie sobre isso, permite que muitos encontrem uma maneira de ver as coisas às quais não foram expostos e comecem a formar sua opinião fora da rigidez do sagrado. Nada disso é surpreendente.

E neste caso, sobre a amargura contra mim mesmo, porque não a vivi, pois tenho como disciplina não ler os comentários às entrevistas onde apareço, precisamente por saber que este tema desperta raiva e ódio totalmente desmensurados. Se alguém deseja iniciar um diálogo comigo, escreva-me em tom fraterno e conversamos. É simples assim.

 

Chegará o dia em que os gays terão o direito à cidadania na Igreja?

Vere vere dico vobis, o dia está chegando, e já é... nos resta descobrir e viver.

 

Nota do Instituto Humanitas Unisinos – IHU

 

No dia 21 de julho de 2021, às 10h, o Instituto Humanitas Unisinos – IHU realiza a conferência A Inclusão eclesial de casais do mesmo sexo. Reflexões em diálogo com experiências contemporâneas, a ser ministrada pelo MS Francis DeBernardo, da New Ways Ministry – EUA. A atividade integra o evento A Igreja e a união de pessoas do mesmo sexo. O Responsum em debate.

 

A Inclusão eclesial de casais do mesmo sexo. Reflexões em diálogo com experiências contemporâneas

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