“Estou irritado com a homofobia na minha Igreja”. Por que esse jesuíta alemão está indo contra o decreto do Vaticano que proíbe bênção a casais homossexuais?

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13 Mai 2021

 

Essa não foi uma decisão tomada da noite para o dia, mas quando o jesuíta alemão Jan Korditschke escutou a dor e a raiva sentida pelos católicos LGBT com a carta do Vaticano, publicada em março, que barrava os padres de abençoar as uniões homossexuais porque “Deus não pode abençoar o pecado”, ele sabia que precisava fazer algo.

“Eu estou irritado com a homofobia na minha igreja, e eu também sinto uma vergonha por causa disso”, falou o padre Korditschke à America. “E eu sinto uma urgência para falar pelos católicos LGBT em nossas comunidades”.

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada por America, 12-05-2021. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

O padre Korditschke disse que encontrou-se com muitos católicos LGBT depois de seu trabalho no programa de batismo de adultos na Arquidiocese de Berlim. Ele disse que encontrou casais homossexuais comprometidos com a Igreja e que saiu “impressionado pela sua fé e seu desenvolvimento espiritual”. Alguns desses casais homossexuais expressaram desapontamento, pois a declaração do Vaticano parece “desqualificar ou desvalorizar esses relacionamentos”, afirmou.

Ele rezou sobre a melhor forma de responder e então recebeu permissão de seu superior local para participar de um movimento que acontece em cerca de 100 igrejas em toda a Alemanha esta semana, no qual padres e ministros leigos abençoarão casais do mesmo sexo. No domingo, o padre Korditschke, de 44 anos, fará uma cerimônia em uma paróquia jesuíta em Berlim para qualquer casal, gay ou hetero, que busca a bênção da igreja.

Se algum casal do mesmo sexo comparecer à missa de domingo – as igrejas de Berlim já ofereceram a oportunidade de bênção na semana passada – o padre Korditschke disse que “reconhecerá e apreciará que seu amor é algo bom, agradeça a Deus por este amor porque é bom, louve a Deus por este amor e peça a Deus que proteja este amor e o fortaleça e o oriente”.

Os líderes da igreja e teólogos alemães vinham discernindo há anos como incorporar as pessoas LGBT na vida da igreja, incluindo a ideia de que uma bênção para casais do mesmo sexo, diferente do casamento, poderia ser uma forma de ser mais acolhedor. Como parte de um processo sinodal que começou em 2020, com o objetivo de enfrentar uma série de desafios enfrentados pela Igreja, alguns bispos alemães têm pressionado por um plano que permita aos padres em suas dioceses abençoar casais do mesmo sexo, mesmo que outras dioceses pelo mundo os tenham proibido.

No domingo, o padre Korditschke fará uma cerimônia em uma paróquia jesuíta em Berlim para qualquer casal, gay ou hetero, que busca a bênção da igreja.

A declaração da Congregação para a Doutrina da Fé efetivamente anula essa ideia.

O chefe da Conferência dos Bispos Alemães no mês passado criticou a iniciativa de base para bênçãos gays, que é chamada de “Liebe Gewinnt” ou “O Amor Vence”. O bispo de Limburg, Georg Bätzing, disse que as bênçãos “não são adequadas como um instrumento de manifestações políticas ou ações políticas da Igreja”.

Mas a poderosa organização leiga da Alemanha, o Comitê Central dos Católicos Alemães, ou ZdK, que tem defendido bênçãos para homossexuais desde 2015, posicionou-se mais uma vez a favor deles. Chamou o contencioso documento de Roma de “não muito útil” e expressou explicitamente seu apoio à iniciativa “O Amor Vence”.

“Estas são celebrações de adoração em que as pessoas expressam a Deus o que as move”, disse Birgit Mock, porta-voz do ZdK para assuntos familiares, à AP.

O ZdK participa há mais de um ano dos encontros do “caminho sinodal” com os bispos alemães. Eles devem ser concluídos no outono. Os encontros incluem palestras sobre como permitir o casamento de padres, a ordenação de mulheres e uma compreensão diferente da sexualidade, entre outras reformas. O processo foi lançado como parte da resposta às revelações de abuso sexual do clero.

Alguns eruditos católicos alertaram que as bênçãos alemãs podem levar ao cisma – o fato de os serviços religiosos estarem ocorrendo no país natal do reformador Martinho Lutero é uma analogia aparentemente boa –, mas o padre Korditschke diz que tais temores são exagerados.

“Existem opiniões diferentes, existe conflito e existe uma pluralidade de teologias e modos de viver uma vida espiritual”, disse ele. “Acho que isso não é um problema, mas é uma característica de sermos católicos. A Igreja Católica não é uma totalidade uniforme sem diferenças. Há espaço para uma diversidade de diferentes culturas, diferentes teologias”.

“Quero contribuir para uma Igreja onde as pessoas LGBT podem participar plenamente e oferecer todos os seus talentos e capacidades e fazer parte da vida da Igreja”.

Ele disse que esta realidade “pode causar tensões e conflitos” e acrescentou que é trabalho dos pensadores católicos “desenvolver uma cultura de lidar com esses conflitos”.

Em sua paróquia, localizada em um bairro de classe média de Berlim, a missa dominical busca ser acolhedora e o culto é complementado com oficinas de espiritualidade inaciana e grupos de discussão religiosa. O padre Korditschke disse que é importante que os padres que apoiam os católicos LGBT falem e se posicionem. No final das contas, ele disse que, apesar dos riscos, ele abençoa casais homossexuais porque em seus relacionamentos ele vê o amor.

“Quero contribuir para uma igreja onde as pessoas LGBT podem participar plenamente e oferecer todos os seus talentos e capacidades e fazer parte da vida da Igreja”, disse ele. “O amor deles é algo bom. Isso é o básico ao qual tudo se resume, que eu não acredito que o amor deles seja pecado”.

 

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