02 Outubro 2026
"Nos últimos anos, uma das propostas de renovação programática na esquerda que gerou maior impacto intelectual é a chamada agenda da abundância. Surgida a partir da publicação do livro Abundância, de Ezra Klein e Derek Thompson, essa corrente argumenta que a esquerda não pode se contentar em simplesmente redistribuir a escassez, mas deve redescobrir sua antiga vocação materialisata e implementar um novo programa proativo de expansão das condições de vida", escreve Emilio Santiago Muiño, em artigo publicado por Nueva Sociedad e reproduzido por Outras Palavras. A tradução é de Antonio Martins.
Emilio Santiago Muiño é doutor em Antropologia Social e pesquisador titular do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha. É autor de Contra el mito del colapso ecológico (Arpa, 2023).
Eis o artigo.
“A pior crise no pior momento possível”: este diagnóstico conciso e perspicaz de Xan López resume com precisão o estado da esquerda na virada do século XXI [1]. Enfrentamos uma encruzilhada política que ameaça destruir tanto a democracia quanto o planeta. No curto prazo, precisamos conter uma onda reacionária crescente, que não busca mais apenas reverter as conquistas sociais alcançadas após 1945, como fez o neoliberalismo, mas declarou guerra às conquistas políticas resultantes da Revolução de 1789. Ao mesmo tempo, precisamos descarbonizar o mundo em 25 anos para evitar a desestabilização climática que, se continuar na trajetória atual, poderá deixar, até o fim do século, 3 bilhões de pessoas fora do nicho da habitabilidade humana, colocando em risco a própria civilização como a conhecemos [2]. Duas tarefas colossais que definirão o rumo da humanidade muito além do nosso tempo, e que a esquerda precisa enfrentar sabendo-se politicamente e organizacionalmente frágil, talvez em um dos momentos de maior fragilidade de sua história. Portanto, uma reformulação estratégica é agora um imperativo existencial.
Nos últimos anos, uma das propostas de renovação programática na esquerda que gerou maior impacto intelectual é a chamada agenda da abundância. Surgida a partir da publicação do livro Abundância, de Ezra Klein e Derek Thompson, essa corrente argumenta que a esquerda não pode se contentar em simplesmente redistribuir a escassez, mas deve redescobrir sua antiga vocação materialisata e implementar um novo programa proativo de expansão das condições de vida [3].
Para recuperar a capacidade de impulsionar grandes processos de construção de novas moradias ou infraestrutura de energia e transporte, bem como de fornecer serviços públicos em larga escala, Klein e Thompson defendem que a esquerda deve abandonar seu atual ethos político, que se tornou materialmente defensivo. Segundo o diagnóstico dos autores, um segmento do progressismo recuou para uma cultura política de cautela, regulação, proteção do status quo e vetos preventivos — quase como um ato reflexo — contra qualquer inovação que possa perturbar os equilíbrios sociais estabelecidos. Mesmo quando essas inovações resolvem problemas sociais urgentes, como é o caso da escassez de moradias nas sociedades ocidentais.
Abundância: Como construir um futuro melhor para todos | Ezra Klein e Derek Thompson
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Em muitos aspectos, o livro de Klein e Thompson é excessivamente influenciado pelo debate norte-americano. Nem todos os países enfrentam os mesmos obstáculos de excesso de regulamentação que os Estados Unidos; além disso, é um trauma norte-americano profundamente enraizado interpretar sua relativa estagnação material como um sinal de declínio imperial, em contraste com a ascensão espetacular da China. Da esquerda, Abundância recebeu críticas merecidas por sua tendência a confundir democracia e participação com entraves burocráticos; também por suas premissas centristas (ou liberais, na terminologia americana), que se preocupam excessivamente em aumentar a oferta de bens, mas pouco em questionar a escassez estrutural artificial causada por monopólios, mercados ou a estrutura de propriedade capitalista.
Contudo, se o livro repercutiu muito além do mundo progressista estadunidense, é porque revela uma deficiência real na esquerda ocidental: talvez a recuperação de nossa capacidade hegemônica dependa da reconstrução de uma promessa material que incorpore um horizonte ousado e sem concessões de prosperidade coletiva. Assim como fizemos nos séculos XIX e XX, como nos lembram Matt Huber, Leigh Phillips e Fred Stafford em seu texto Abundância para os 99%: “os anarquistas planejavam assumir o controle das minas, não fechá-las” [4].
Provavelmente, um dos maiores erros políticos da esquerda nos últimos 50 anos foi limitar-se a salvaguardar valores morais igualitários e entregar narrativas civilizacionais aspiracionais e empolgantes à direita. Para que um povo faça aflorar o melhor de si — e todo processo de transformação precisa disso —, não bastam a indignação desdenhosa e a raiva produzida pelos abusos das elites. É preciso um horizonte desejável que permita almejar algo melhor. Para grande parte da população, que continua a sofrer diariamente com a precariedade e a dolorosa privação material, e que entende o progresso não como um mito teleológico esgotado, mas como uma expectativa de vida legítima, é provável que esse “algo melhor” sempre implique uma experiência de conforto material, e até mesmo um certo luxo, que a noção de abundância sugere.
Se esta tese historicamente óbvia soa provocativa para segmentos significativos do mundo progressista hoje, isso se deve em parte à crescente influência que o ambientalismo do decrescimento exerce sobre o ecossocialismo e, por irradiação difusa, sobre a esquerda como um todo. Sob o guarda-chuva do decrescimento (e de seu gêmeo intelectual, o pós-desenvolvimentismo, formulado a partir das categorias e experiências coloniais do Sul Global), encontramos uma galáxia intelectual diversa que não pode ser homogeneizada sem caricaturar-se. Há um abismo estratégico considerável entre propostas como a de Jason Hickel, um pós-capitalismo ecológico que defende um “Novo Acordo Verde” global para alcançar o decrescimento por meio da implementação maciçaa de energias renováveis, e abordagens como a defendida na Espanha por Adrián Almazán e Luis González Reyes, que questionam a natureza renovável de qualquer tecnologia industrial em larga escala e defendem um programa de decrescimento baseado na ruralização em massa e no comunitarismo econômico e social [5]. Ainda assim, podemos encontrar alguns pontos em comum. Em ambos os extremos, com diferentes graus de intensidade, a crítica e a rejeição ao crescimento econômico decorrem não apenas de razões morais, mas também de sua impossibilidade biofísica em um planeta que ultrapassou perigosamente seus limites ecológicos.
Portanto, de uma maneira mais ou menos disruptiva para nossas normas civilizacionais, os proponentes do decrescimento vislumbram um século XXI marcado pela adaptação forçada a condições materiais mais restritivas; uma nova era que, em comparação com a grande aceleração industrial, perpetuará diferentes formas de escassez, tanto relativa quanto absoluta. Eles postulam um gargalo metabólico que a tecnologia não consegue resolver e que impediria a continuidade da dinâmica expansionista acelerada que, do crescimento populacional à urbanização em massa, normalizamos na era moderna, mas que é historicamente excepcional.
Em outras palavras, para o movimento do decrescimento, a sustentabilidade futura depende de um ajuste corretivo a condições materiais e biosféricas mais restritas. Estas variam desde uma aterrissagem suave dentro dos limites planetários até previsões de empobrecimento em massa e colapso da sociedade industrial, num caminho de contração material que teria de ser voluntariamente abraçado e antecipado para minimizar o seu impacto. O decrescimento também partilha a visão de que este golpe histórico poderia ser relativamente atenuado através da redistribuição, da socialização do consumo e de transformações culturais nas nossas experiências vividas. As expressões politicamente mais astutas destes movimentos, reconhecendo o apelo limitado da austeridade ecológica à maioria, têm enfatizado o potencial de uma nova abundância social como um efeito compensatório que permitiria o desenvolvimento de boas alternativas à modernidade.
Um ambientalismo não malthusiano
A guinada do ecossocialismo em direção às ideologias do decrescimento não foi impulsionada apenas por uma interpretação da ruptura metabólica capitalista. Ela também é alimentada por uma suspeita cultural, ontológica e moral em relação à suposta natureza alienante e opressiva da modernidade. Essa dupla guinada representa, efetivamente, uma refundação fundamental do programa histórico da esquerda. A tese central deste texto é que, para o ecossocialismo do século XXI, esse rumo ideológico é politicamente contraproducente e, além disso, cientificamente refutável.
Nas notas que se seguem, focarei na crítica da dimensão metabólica ou material desse duplo desafio. Para a dimensão cultural, ontológica e moral, recorro a obras fantásticas, como as de Martín Arboleda ou Marina Garcés, que nos lembram que os muitos pontos obscuros do programa iluminista, em termos feministas, decoloniais ou ecológicos, devem ser corrigidos sem cair na rejeição total de seus princípios ou de sua promessa [6].Se a esquerda tem um fundamento histórico, é o de confiar nos ganhos cognitivos oferecidos pelas ciências e na expansão das possibilidades sociais proporcionada pela tecnologia, e de demonstrar audácia política ao contestar ambos e democratizar suas conquistas em um projeto de aprimoramento universal da vida humana.
No fim do século XVIII, Nicolas de Condorcet e William Godwin lançaram as bases axiológicas da abordagem progressista ao problema ecológico, argumentando que, dentro das possibilidades futuras da humanidade, existia um ciclo virtuoso entre o progresso social e a proliferação da abundância material, pronto para ser ativado por reformas politicamente libertadoras. Thomas Malthus contestou essa promessa, analisando o poder restritivo dos limites naturais como um obstáculo que a humanidade jamais poderia abolir. Embora sua obra se concentrasse no grande drama ecológico de sua época — a produtividade agrícola —, seu raciocínio é aplicável a todos os recursos naturais. Para Malthus, o choque entre a humanidade expansiva e a natureza finita era decretado como uma condição universal, tão trágica quanto inevitável. Consequentemente, ele postulou que todos os futuros seriam marcados por uma antropologia restritiva. A escassez não poderia ser superada. Como Ernest García analisa rigorosamente, essa controvérsia definiu o perímetro lógico e destilou os argumentos elementares, revisitados e reformulados inúmeras vezes, de dois séculos de debate subsequente entre o ambientalismo e a esquerda [7].
O malthusianismo tem sido um dos tributários essenciais do ambientalismo. E não deve ser caricaturizado. De uma forma distorcida, mas parcialmente eficaz, o ambientalismo neomalthusiano ajudou a esquerda a se familiarizar com uma das maiores contribuições do pensamento ecológico para a história das ideias: a noção de um limite natural irredutível à vontade social ou tecnológica humana. Esse realismo naturalista, ou, para usar o jargão marxista, essa autonomia relativa possuída pelas camadas da realidade que tradicionalmente consideramos sob a problemática categoria de “natureza”, é um antídoto essencial à tentação sociocêntrica da esquerda, especialmente porque revela uma certa assimetria ontológica que somos culturalmente programados para negar: a natureza pode minar qualquer projeto social, mas nenhum projeto social pode ditar as condições naturais de sua própria existência. Um exemplo ilustrativo: o comunismo não pode abolir magicamente uma certa concentração de CO2 na atmosfera, mas uma certa quantidade de CO2 acumulada na atmosfera pode impedir o comunismo porque pode impedir a civilização. Sem esse contrapeso conceitual, os indivíduos contemporâneos tendem a atribuir à tecnologia qualidades reconfortantes e milagrosas, permanecendo incapazes de discernir e avaliar os riscos, os danos e as necessidades urgentes decorrentes da crise ecológica.
Mas o inegável ganho cognitivo da ideia de um limite natural, quando obtido por meios malthusianos, também tem um alto custo: por um lado, nos leva a um terreno político escorregadio; por outro, injeta em nosso imaginário coletivo toda uma série de pressupostos cientificamente inconsistentes. Quanto aos seus perigos políticos, o neomalthusianismo nos coloca em uma posição problemática. Na melhor das hipóteses, defende fórmulas facilmente interpretadas como processos de adaptação voluntária à pobreza. Na pior, corre o risco de normalizar estruturas reacionárias que nossa sociedade está predisposta a abraçar prontamente. Desde que Garrett Hardin formulou a base moral do ecofascismo com sua ética do bote salva-vidas, sabemos que a escassez rima bem com a competição, a crueldade, o acúmulo e o direito de defender o espaço vital ameaçado. Como Carl Amery sustentou de modo pioneiro e como autores como Andreas Malm ou Bruno Latour estudaram recentemente, a ascensão da nova extrema-direita não pode ser separada de uma resposta preventiva à sensação de um mundo ecologicamente saturado, no qual os supremacistas preferem matar a compartilhar [8].
Mas, além dos seus perigos políticos, a abordagem malthusiana é epistemologicamente falha. Ou, no mínimo, é confusa e exige nuances quando aplicada a situações históricas específicas, especialmente ao se considerar o sistema mundial moderno com suas redes humanas globais intensamente interdependentes, impulsionadas por um dinamismo tecnológico, econômico e científico sem precedentes. Aqueles que defendem a persistência da armadilha malthusiana na civilização industrial devem confrontar o fato de que seus alertas foram repetidamente refutados pelos acontecimentos. O próprio Malthus foi desmentido, assim como seus herdeiros intelectuais, com a explosão demográfica da década de 1960 e as teorias de pico de Hubbert que previram o declínio iminente do petróleo na década de 2000. Por que as previsões do ambientalismo malthusiano tendem a falhar? Embora os recursos naturais sejam limitados, eles também são desconhecidos, uma vez que são dinâmicos: o que acabamos utilizando como recurso em um determinado contexto histórico é uma combinação das potencialidades materiais do nosso planeta, incentivos econômicos variáveis e mudanças tecnológicas que expandem as possibilidades humanas.
No entanto, existe outra tradição ambientalista que se libertou das problemáticas influências políticas e científicas do malthusianismo, embora ainda conserve um fragmento de verdade. Trata-se de um ambientalismo que a esquerda frequentemente despreza por seu pragmatismo e por sua consonância com abordagens percebidas como colaborativas com o capitalismo, como o desenvolvimento sustentável. Podemos chamá-lo de ambientalismo modernizador. Esse espaço ideológico não deve ser confundido com sua versão extrema, o ecomodernismo, na medida em que este último defende um tipo muito particular de modernização prometeica, que rejeitou o princípio da precaução em favor da adoção de tecnologias como a energia nuclear, a geoengenharia e a engenharia genética.
Vamos pensar no metabolismo social como o de um organismo: ele retira materiais e energia do ambiente — sua entrada — e devolve resíduos e alterações ao ambiente — sua saída. A divergência entre o ambientalismo malthusiano e o modernista reside não apenas no grau de confiança ou suspeita em relação à tecnologia: reside também no ponto final desse fluxo, onde localizam o limite ecológico. O malthusiano o situa na entrada e pensa na insustentabilidade como escassez: faltas, esgotamento dos recursos. O modernista o situa na saída e pensa nela como saturação: sumidouros ambientais transbordando de poluição, funções ecossistêmicas destruídas ou alteradas. A diferença entre as duas perspectivas é relevante: em termos políticos, a primeira nos leva a pensar na sustentabilidade como uma redução forçada da demanda humana, ou mesmo da população, diante de uma oferta natural em declínio, o que leva a projetar o futuro como um jogo material de soma zero ou negativa; A segunda leva a uma reformulação radical do nosso metabolismo socioecológico e da nossa tecnosfera, que permanece compatível com a promessa de progresso como um jogo material de soma positiva.
Entre um retorno ao produtivismo clássico e ecologicamente cego do abundanteismo e um ambientalismo neomalthusiano que renuncia a oferecer um horizonte aspiracional popular de natureza material, o ecossocialismo precisa orientar seu programa para uma terceira opção: uma versão de esquerda do ambientalismo modernizador que tenha como propósito a abundância dentro dos limites planetários. Essa fórmula deixa de soar como um oxímoro quando consideramos o que está acontecendo, neste exato momento, no campo das forças produtivas: uma verdadeira revolução que, devido ao seu conteúdo, sua gênese e seu potencial, merece ser caracterizada como “ecológica”.
A revolução ecológica das forças produtivas
Desde o famoso e frequentemente citado prefácio de Marx à sua obra Contribuição à Crítica da Economia Política, uma vertente do marxismo cometeu o erro teórico de atribuir às forças produtivas uma agência histórica quase automática. Mas, como argumenta o filósofo César Rendueles, há algo nessa tradição que, sem ilusões deterministas, ofereceu enormes ganhos explicativos às ciências sociais e que vale a pena resgatar politicamente: as forças produtivas disponíveis condicionam persistentemente tanto a relação com a biosfera quanto as possibilidades de organização social. Esse condicionamento pode ser restritivo, mas também capacitador. É claro que o conceito de forças produtivas não pode ser simplesmente equiparado ao de tecnologia: trata-se de uma tecnologia socialmente estruturada, politicamente orientada e contestada. Essa é uma distinção essencial, pois os grandes impactos históricos das forças produtivas não são impulsionados apenas por avanços técnicos, mas por sua massificação por meio de estratégias de implantação politicamente induzidas e economias de escala.
Hoje, a humanidade atravessa o limiar de três revoluções nas forças produtivas que expandirão o espaço antropológico e poderão ter efeitos evolutivos disruptivos. Duas merecem o rótulo de ecológicas porque possibilitam alcançar a sustentabilidade e, simultaneamente, aumentar a produtividade, mesmo quando medida em categorias tão destrutivas para o meio ambiente e a sociedade quanto o capitalismo. Ambas também carregam a marca do ambientalismo em sua própria essência: a revolução das energias renováveis no setor energético e a revolução regenerativa na agricultura. A terceira, a revolução digital-cognitiva, não é inerentemente ecológica. Dependendo de seu desenvolvimento, poderá se tornar ecológica ou poderá se tornar mais um vetor da devastação ambiental contemporânea.
A revolução digital-cognitiva, da computação à internet, incluindo a inteligência artificial e a robótica, recebeu atenção social exagerada, a ponto de constituir o que Rendueles chama de uma espécie de ciberfetichismo [9]. A esquerda se envolveu com ela em uma relação maníaco-depressiva que oscilou entre a ingenuidade adâmica do final da década de 1990 e o colapso atual. Sem dúvida, as preocupações que essa revolução suscita em 2026 são justificadas por fenômenos como o tecnofeudalismo, o capitalismo de vigilância e sua contribuição para a deriva fascista do século XXI. No entanto, como todas as forças produtivas, essas também são contestáveis. E sua aquisição ofereceria, como apontaram autores como Aaron Bastani e Paul Cockshott, enormes possibilidades socialistas em termos de cálculo econômico, planejamento democrático, redução da jornada de trabalho e abundância literalmente “comunista”, graças aos processos de custo marginal zero que ela possibilita. Contudo, se a abundância material do futuro for ecológica, a informação digital gratuita ajudará, mas somente uma relação diferente com a Terra e a energia poderá garanti-la.
É isso que a revolução regenerativa e a revolução das energias renováveis tornam possíveis. A primeira combina o conhecimento agrícola ancestral com a ciência de ponta e revela que o solo, longe de ser um suporte inerte, é um dos ecossistemas mais complexos da Terra. Abandonar práticas que destroem sua estrutura e substituí-las por outras que a restauram está permitindo manter alcançar ou superar a produtividade da agricultura industrial, ao mesmo tempo que restaura a fertilidade. A mudança evolutiva que promete é promissora: reiniciar a era neolítica e redirecionar a produção primária de biomassa para recuperar a exuberância de nossos ecossistemas.
Mas a chave para um programa de abundância dentro dos limites planetários reside na revolução das energias renováveis. A redução nos custos da energia fotovoltaica e eólica, bem como do seu armazenamento, é uma das mais espetaculares da história econômica. Sua implantação está progredindo em um ritmo sem precedentes. A China levou 16 anos para construir a Usina Hidrelétrica de Três Gargantas; em 2025, instalou painéis com capacidade semelhante a cada três semanas [10]. Essa aceleração energética não se limita à China. Paquistão, Índia, Quênia e Vietnã demonstram que uma das grandes virtudes da revolução das energias renováveis é que ela não será monopolista, mas distribuída, e isso abre uma oportunidade histórica para o desenvolvimento endógeno no Sul Global.
Nenhuma outra transição energética jamais ocorreu dessa forma. Atualmente, não há maneira mais barata de produzir eletricidade na maior parte do mundo do que apontar um painel fotovoltaico para o sol. Mais do que outras transições energéticas, esse processo se assemelha à ascensão dos microprocessadores: uma redução radical de custos que levou bilhões de pessoas a carregarem em seus bolsos, na forma de um telefone celular, um computador milhões de vezes mais poderoso do que os usados no Programa Apollo. Já que a esquerda, sobrecarregada por 200 anos de imaginários baseados em combustíveis fósseis, luta para compreender o potencial transformador dessa força produtiva, proponho uma comparação antropológica provocativa: o que está acontecendo com a energia fotovoltaica e as baterias é um salto evolutivo semelhante à descoberta do fogo. Parafraseando Karl Marx, estamos prestes a deixar para trás a pré-história energética da humanidade, que era queimar coisas. Nas próximas décadas, poderemos virar a página do hábito de queimar moléculas da fotossíntese, seja por meio de biomassa ou de combustíveis fósseis, que tem sido nosso domínio energético por milhões de anos, para entrar em um novo mundo muito mais eficiente e de abundância colossal: o movimento de elétrons graças à dádiva gratuita do sol.
Se acrescentarmos a isso o fato de que já é técnica e economicamente viável eletrificar cerca de 70% dos nossos processos materiais, que a eletricidade é muito mais eficiente do que os combustíveis fósseis e que a sua implementação oferece soberania, segurança e um potencial democratizador que não é garantido, mas real, compreendemos que a conversão dos nossos países em eletroestados renováveis é o objetivo inicial de qualquer programa ecossocialista.
O ambientalismo do decrescimento questionou o potencial das energias renováveis para garantir um futuro de abundância com vários argumentos: argumentos puramente tecnológicos, que faziam algum sentido há 15 ou 20 anos, tornaram-se empiricamente obsoletos; objeções sobre o impacto na biodiversidade são relevantes, mas a experiência também mostrou que as energias renováveis podem ser integradas à agricultura e aos ecossistemas e, quando bem geridas, podem aumentar a biodiversidade — por exemplo, através da restauração da vegetação nativa sob e entre os painéis. As limitações de recursos minerais não comprometem a viabilidade da transição onde mais importa — na geração de energia renovável, nas redes de distribuição e no armazenamento, que não são intensivos em minerais e são recicláveis. No entanto, surgem dúvidas se o objetivo for eletrificar a frota atual de veículos um a um, ou seja, reproduzir o modelo atual em uma versão elétrica. Nesse caso, o gargalo, pelo menos com a tecnologia contemporânea, são as baterias, e o modelo atual de privatização do espaço público pelo automóvel tem efeitos sociais desastrosos que o ecossocialismo deve combater.
É claro que a transição energética expandirá a fronteira da mineração, mas é importante esclarecer um equívoco que o decrescimento ajudou a popularizar: a implantação de toda a infraestrutura de descarbonização nos próximos 25 anos requer menos minerais do que um único ano de metabolismo de combustíveis fósseis [11]. Esse fato, que muitos lerão com surpresa, tem uma explicação simples: os combustíveis fósseis são produtos minerais constantemente queimados. Os minerais metálicos, uma vez extraídos e processados, são incorporados ao capital do sistema na forma de produtos com longa vida útil e também podem ser reciclados [12].
É verdade que novas minas serão abertas, impulsionadas pela transição verde, e que esses processos, dependendo de sua gestão política, podem ser extrativistas e violentos. Mas também podem ser exemplares e benéficos. A chave é contestá-los. O mesmo se aplica à implementação de energias renováveis. Implantadas sob a lógica capitalista, em muitas regiões elas geram novos episódios de acumulação por desapropriação sob uma retórica verde e provocam resistência legítima. Mas o trabalho ecossocialista não pode simplesmente se juntar ao questionamento de sua implantação em larga escala, porque essa posição nos coloca inadvertidamente como aliados de fato do capital fóssil. O que deveria concentrar as atenções a esquerda é disputar politicamente a transição energética para colocá-la a serviço de uma modernização ecologicamente rigorosa e socialmente inclusiva. Podemos aplicar o mesmo tipo de mudança política proativa e modernizadora às questões relacionadas à extração mineral: em vez de uma rejeição automática dos processos para tal fim, quando estes respondem a processos úteis para derrotar o modelo dos combustíveis fósseis, a esquerda ecossocialista poderia abordá-los a partir de um novo desenvolvimentismo popular, que coloca a recuperação da soberania material na agenda, mas vai além de um nacionalismo clássico dos recursos, por meio de fortes condições de acesso para investidores, vinculadas à transferência de tecnologia, a estruturas de comércio cooperativo e ao desenvolvimento de políticas industriais endógenas.
Um ecossocialismo de maiorias
A forma como as novas forças produtivas verdes estão expandindo o horizonte ecossocialista, com sua promessa de uma nova abundância, não elimina a ameaça de uma crise ecológica. Continuamos a enfrentar uma mutação catastrófica do regime climático que precisa ser interrompida urgentemente e que, além disso, já exige um esforço maciço de adaptação, no qual estamos muito atrasados. Continuamos a extinguir espécies a uma taxa sem precedentes e a erodir funções essenciais dos ecossistemas de forma autodestrutiva. Continuamos a ultrapassar sete dos nove limites de segurança planetária: aos seis já identificados — mudanças climáticas, integridade da biosfera, mudanças no uso da terra, água doce, fluxos biogeoquímicos e novas entidades — a acidificação dos oceanos foi adicionada em 2025.
As transições energética e regenerativa são os pilares de uma transformação ecológica do metabolismo industrial, capazes de garantir sua viabilidade a longo prazo, mas não são os únicos. Precisamos de uma economia verdadeiramente circular, com enormes implicações que vão desde uma nova indústria de reciclagem de minerais críticos até uma reformulação de todos os processos produtivos, incluindo a abolição de estratégias capitalistas de maximização do lucro, como a obsolescência programada. Precisamos socializar múltiplas formas de consumo para otimizar sua eficiência, a começar pela mobilidade. Precisamos de transformações em hábitos populares que não são e não podem ser sustentáveis em nenhum cenário imaginável de abundância ecológica, como o consumismo, a cultura do descartável e a predominância sem precedentes da carne na dieta contemporânea.
Nenhuma dessas reformas é compatível com o capitalismo neoliberal. E muito menos se aspiramos, como a esquerda deve, a uma transição ecológica rápida e justa. Ambos os requisitos devem ser considerados em conjunto, porque se não for justa, não poderá ser rápida, já que a mudança será dificultada pelos atritos do descontentamento popular. Mas o oposto também é verdadeiro: se não for rápida, não poderá ser justa para os mais expostos e vulneráveis ao caos climático. Nem para as gerações futuras, que estamos condenando injustamente a viver em um mundo opressor.
Portanto, embora seja evidente que a nova vantagem competitiva das energias renováveis abre um nicho de rentabilidade que já está sendo explorado pelo capital, inaugurando uma nova fronteira de acumulação, com toda a violência social que isso acarreta, a tarefa ecossocialista não pode consistir em deter essa mudança tecnológica. Pelo contrário, devemos acelerá-la por meio do controle público e colocá-la a serviço do bem comum: nossa missão geracional é domar o capital para que, em 25 anos, possamos descarbonizar o mundo, eletrificar completamente a estrutura produtiva global e distribuir equitativamente essa nova fonte de riqueza coletiva. Embora isso possa soar provocativo, neste contexto histórico de retorno das lógicas imperiais, com um capitalismo marrom se transformando em fascismo fóssil em petroestados capazes de remodelar a ordem mundial, como os Estados Unidos, o capitalismo verde pode não ser nosso principal inimigo. O que é privado hoje pode ser socializado amanhã. Mas um cenário de Terra com efeito estufa é irreversível: será um fracasso antropológico que tornará a vida muito mais difícil para as futuras gerações humanas por milhares de anos.
Em última análise, a abundância dentro dos limites planetários não é uma nova extensão tecnológica para perpetuar os padrões ecocidas que fizeram do Antropoceno um beco sem saída evolutivo. É uma oportunidade para transformar radicalmente nossas relações socioambientais com uma agenda política que, ao contrário do horizonte de autossuficiência do ambientalismo malthusiano, pode projetar, de forma cientificamente fundamentada, um futuro sustentável e desejável para a vasta maioria da população existente. Esta é a razão fundamental pela qual vale a pena explorar politicamente a ideia de abundância dentro dos limites planetários: o ganho que ela oferece em termos de ação política. O “povo do clima” não surgirá de uma mudança ontológica ou de uma reforma moral equivalente a uma conversão religiosa: construiremos o “povo do clima” desafiando o senso comum que emana do material antropológico de nosso tempo, com seus medos, suas ilusões, suas expectativas e suas regras intuitivas de cálculo político.
De certa forma, a oportunidade de conciliar a abundância futura com os limites planetários, graças às possibilidades oferecidas por uma síntese ecossocialista de novas forças produtivas verdes, é talvez a melhor notícia do século: embora tenhamos nos acomodado a uma dúvida catastrófica mais do que razoável, hoje sabemos que a desestabilização climática e da biosfera não fechou historicamente o que Marx nos ensinou a chamar de Reino da Liberdade. E se alguma vez tivemos um objetivo capaz de unir grandes maiorias e forjar o tipo de caráter coletivo que possa responder às muitas vicissitudes e infortúnios ao longo do caminho, foi este.
[1] Xan López: O Fim da Paciência, Barcelona, Anagrama, 2025.
[2] Chi Xu, Timothy A. Kohler, Timothy M. Lenton e Marten Scheffer: Futuro do Nicho Climático Humano, PNAS vol. 117 No 21, 2020.
[3] Ezra Klein e Derek Thompson: Abundância [2025], Madri, Capitán Swing, 2026.
[4] Matt Huber, Leigh Phillips e Fred Stafford: Abundância para os 99%, Jacobin, 02/08/2025.
[5] Jason Hickel: Menos é Mais. Como o Decrescimento Salvará o Mundo, Madrid, Capitán Swing, 2023; Adrián Almazán e Luis González Reyes: Decrescimento. Do Que ao Como, Barcelona, Icaria, 2023.
[6] Martín Arboleda: O ambientalismo rebelde e humanista de Friedrich Engels, em Jacobin, 18/2/2024; Marina Garcés: Novo Iluminismo Radical, Barcelona, Anagrama, 2017.
[7] Ernest García: Ecologia e igualdade, Valência, Tirant Humanidades, 2021.
[8] Carl Amery: Auschwitz, onde começa o século XXI? Hitler como precursor, Madri-Cidade do México, Turner/fce, 2002.
[9] César Rendueles: Sociofobia, Madri, Capitán Swing, 2013.
[10] Keith Bradsher: Por que a China construiu 162 milhas quadradas de painéis solares no planalto mais alto do mundo, The New York Times, 11/10/2025.
[11] Daan Walter, Sam Butler-Sloss e Kingsmill Bond: A Revolução Eletrotécnica: O Formato das Coisas que Virão, Ember, 2025.
[12] Para uma visão abrangente dos avanços na revolução das energias renováveis, combinando rigor acadêmico e compromisso ativista, veja Daniel Carralero, Marta Victoria e Cristóbal Gallego: A Place to Arrive: Political Map of the Energy Transition, Madri, Levanta Fuego, 2025.
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