Hora da verdade. Artigo de Laymert Garcia dos Santos

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09 Setembro 2026

A disputa eleitoral contrapõe a consolidação da soberania nacional às investidas de subordinação geopolítica e desestabilização institucional.

O artigo é de Laymert Garcia dos Santos, publicado por A Terra é Redonda, 07-09-2026.

Laymert Garcia dos Santos é professor aposentado do Departamento de Sociologia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de "Politizar as novas tecnologias" (Editora 34).

Eis o artigo.

1.

Falta pouco para as eleições. Já se disse que elas não são corriqueiras, que há algo muito maior em jogo. Em meu entender de cidadão, para o Brasil, chegou a hora da verdade. Inexoravelmente, o país vai ter de escolher. Consciente ou inconscientemente. Consciente e inconscientemente. Vai ter de decidir qual será o seu caminho. Muito maior do que o caminho de Lula ou o caminho de Flávio Bolsonaro e de todos esses candidatos crapulosos que devem apoiá-lo, caso haja segundo turno.

Já não há mais tempo para análises e controvérsias sobre como e por que chegamos até aqui, a hora da verdade. Invocá-las seria cairmos de imediato na armadilha da fieira de razões e desrazões, que nos levariam a um emaranhado sem fim. O que importa é que estamos diante de dois caminhos, e só dois: Brasil soberano ou Colônia 2.0.

Seguindo à distância a conjuntura (pois de perto corremos o risco de enlouquecer, tamanha é a vertigem do que está em questão, ou, então, de nos perdermos na floresta de minúcias e detalhes, que também são importantes, mas nublam a percepção) não há como escapar do embate entre duas forças imensas que atravessam de alto a baixo o destino do país, mobilizando todas as suas instâncias, sociais, econômicas, políticas, culturais, raciais, jurídicas e, last but not least, institucionais e geopolíticas.

Queiramos, ou não, todas essas instâncias expressam o tamanho e a intensidade do conflito entre a força de um país que se recusa a morrer diante da evidência da ascensão da nova ordem mundial e a força de um país que já se encontra comprometido com a ordem emergente.

Não adianta tentar tapar os olhos. A lucidez obriga a perceber que o Brasil se encontra no centro do xadrez geopolítico mundial, junto com China, Rússia, Irã, Índia e, óbvio, Estados Unidos. Não se pode incluir na lista a União Europeia, pois ela tem dado crescentes demonstrações de irrelevância nesse cenário. E o mesmo vale para o Japão

Nosso empedernido provincianismo, somado ao complexo de vira-latismo, nos impede de realizar esse fato, esse deslocamento incontornável. Olhando para o lado de nossas elites, não se sabe ao certo se isso decorre de má-fé a serviço da ignorância, ou vice-versa. Além disso, uma parcela importante dos brasileiros continua alheia ao assunto, ou insistindo em acreditar que o jogo não mudou. O mais estranho de tudo é que o Brasil, e suas eleições, estão na mira de Washington, Beijing, Moscou, Nova Délhi, Londres e nas capitais europeias.

2.

É evidente que os interesses externos, globais ou não, se somam ou se alinham com uma ou outra das duas forças em conflito internamente, alimentando-as em tudo o que podem, de forma aberta ou velada. Mas não é pela mídia ou pelos assim chamados comentaristas políticos que ficamos sabendo disso, com as exceções de praxe, é claro.

Deslocando-se para o centro do tabuleiro, o Brasil tornou-se questão prioritária da diplomacia mundial e até mesmo da guerra entre a hegemonia norte-americana e o multilateralismo. Afinal, seu destino pesa não só sobre todo o hemisfério ocidental, mas também sobre o mundo como um todo, em virtude de suas riquezas minerais, tamanho continental, biodiversidade e florestas etc.

Ou seja: o Brasil já não cabe mais no quintal dos Estados Unidos; será necessário impor-lhe uma camisa de força gigantesca e horripilante para mantê-lo como república de bananas.

Por tudo isso, é óbvio que a violência do embate está se acirrando inacreditavelmente. Que se tome como a mais recente manifestação dela o vale-tudo que André Mendonça instaurou no Supremo Tribunal Federal. Tal um cavaleiro do Apocalipse, o ministro disparou um míssil contra um dos três poderes da República, sua própria instituição, na esperança de precipitar o caos institucional e dar continuidade à lógica do golpismo que, diga-se de passagem, havia sido contido, mas não eliminado.

E se a conjuntura política já estava explosiva, tendo em vista a polarização entre um Executivo progressista e um Legislativo arqui-reacionário, que dirá agora, com a desestabilização do Judiciário…

Lula e parte dos progressistas sabem muito bem de tudo isso e trabalham no sentido de proteger as instituições da República e dar fôlego à força do Brasil novo. Que se tomem suas declarações de estadista e sua conduta interna e externamente; que se atente às posições de um candidato como Fernando Haddad, e outros; que se avalie o trabalho admirável que Dilma Rousseff tem feito à frente do Banco dos Brics, fica patente a compreensão do papel do país no mundo de hoje e por vir, e que seus inimigos querem evitar a todo custo, propondo uma regressão infinita em todas as frentes e a canga no pescoço da população.

Que se considerem as manifestações dos outros candidatos à presidência. A única proposta não é uma proposta: é o escárnio, com o perdão da palavra, a escrotidão. Flávio Bolsonaro entende que a insegurança climática é problema de saneamento básico, assim como seu pai propunha, como solução, que os brasileiros fossem ao banheiro dia sim, dia não!

Renan Santos concebe a segurança pública como limpeza étnica e social contra seu próprio povo, no melhor estilo genocida! O escritor de autoajuda acha que os diplomatas deveriam ser descartados e substituídos por influencers! Convenhamos: é esse lixo que os brasileiros almejam ter como Presidente da República?

E, como ápice do caráter surreal, delirante, do que estamos vivendo, há a declaração obscena do Ministro da Defesa que, diante da perspectiva de uma interferência direta dos Estados Unidos nos assuntos do país, propõe que os brasileiros "abram o portão"!!! Como aceitar que a principal autoridade das Forças Armadas possa dizer isso assim, de cara alegre?

A verdade está aí, diante de nós. Escancarada. As consequências de nossa escolha serão incomensuráveis. Tanto num sentido, quanto no outro. A força que prevalecer vai abrir, ou fechar, o nosso futuro.

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