O mito da revolução sandinista e o papel da democracia no inconsciente da esquerda

Foto: FSLN/ Reprodução

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22 Julho 2026

"Estou trazendo aqui esse tema da democracia e da “revolução/libertação” por causa do discurso do atual presidente de NicaráguaDaniel Ortega, (o ex-comandante da FSLN da época da revolução) na ocasião do aniversário da revolução Sandinista: a defesa do fim de eleições no país", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.

Eis o artigo.

Eu sou da geração do cristianismo de libertação que viu a revolução Sandinista triunfar e comemorou a entrada da Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) na capital de Manágua no dia de 19 de julho de 1979. A vitória que acabava o longo período de ditadura e exploração econômica da população.

A mesma geração que viu as dificuldades econômico-político-militar que haviam no interior da reconstrução do país e da guerra feita por “os contras” apoiados fortemente pelo governo dos Estados Unidos. Essas lutas pré-revolução e pós-revolução eram vistas e interpretadas como sinais do processo de libertação dos pobres na América Latina.

Na época, na perspectiva da TL, era quase uma certeza de que a ação de Deus e, com isso, o Reino de Deus estava acontecendo no meio de nós. Essa fé (ou a certeza da história) mantinha a confiança da vitória. Nesse processo histórico, a esquerda (“secular” ou de inspiração cristã) tinha como o critério e o valor fundamental a superação do sistema capitalista e a libertação dos pobres da exploração. O tema da democracia não era fundamental, o que significa que a “libertação” poderia justificar a ditadura da esquerda.

Aliás, esse tema da relação entre a revolução/libertação e a democracia era quase ausente na esquerda da época e o tema da democracia era visto como uma questão “burguesa” ou liberal. Nesse contexto, Francisco Welford, sociólogo da USP e um dos intelectuais importantes do PT na época, publicou o livro, “Por que democracia?”, para defender a importância da democracia como um valor fundamental.

Aos poucos Welford perdeu espaço e saiu do PT. Nesse sentido e contexto, a luta contra a ditadura de Somoza não era contra a ditadura como tal, mas sim à ditadura burguesa capitalista que explora os trabalhadores e pobres. Ditadura ou democracia seria aceita ou ter valor na medida em que ela libertasse os pobres e trabalhadores da sua exploração. E as teorias políticas de revolução dominantes eram em favor da imposição da ditadura socialista ou comunista.

Estou trazendo aqui esse tema da democracia e da “revolução/libertação” por causa do discurso do atual presidente de Nicarágua, Daniel Ortega, (o ex-comandante da FSLN da época da revolução) na ocasião do aniversário da revolução Sandinista: a defesa do fim de eleições no país. O problema é que essa postura ou proposta de uma ditadura ou de uma ditadura-branda se justificaria, mesmo no paradigma da esquerda de 1980/90, na medida em que esse sistema resolvesse a situação econômico-social de pobreza que afeta a população do país.

O que não é o caso atual de Nicarágua. Singapura foi um exemplo clássico no mundo capitalista em que se justificou a falta da democracia em nome da necessidade para superar os problemas econômicos e sociais. Sem entrar em discussões aqui, os ocidentais precisam reconhecer que a cultura asiática, especialmente as culturas baseadas no confucionismo (por ex, China e Singapura), com sua metafísica e ética, são muito diferentes das ocidentais. Com tempo Singapura passou a ter eleições livres.

Como disse acima, eu sou da geração que viu na revolução sandinista a esperança e quase certeza de que a história caminharia para a libertação. Mas, a perda da eleição dos sandinistas em Nicarágua, em 1990, e outras derrotas ou desilusões das últimas décadas nos obrigaram a repensarmos a história. Mais do que repensar os mitos da história (como o do progresso, ou do universo caminha para o “bem” ou libertação), eu penso que precisamos retomar o tema da democracia e o que significa a luta pela libertação dos pobres e oprimidos.

Nos últimos anos, a luta pela democracia (contra os trompistas, bolsonaristas...) parecia, a setores da esquerda (progressistas, socialistas e cristãos críticos e da libertação) algo óbvio. Mas, agora com a afirmação de Daniel Ortega contra as eleições (que é o primeiro passo do que chamamos de sistema democrático) a situação ficou mais complexo. Isso porque, no mundo inconsciente da minha geração do cristianismo de libertação e de outros sermões, o mito da revolução sandinista tem um lugar especial

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