Um livro italiano acende o alerta para os progressistas.
O artigo é de Federico Nastasi, publicado por El País, 22-07-2026.
Federico Nastasi é professor de economia na Universidade Autônoma Metropolitana do México e jornalista freelancer especializado em América Latina. É autor do boletim informativo Taccuino Latinoamericano, publicado pelo CeSPI.
Após a vitória de De la Espriella na Colômbia, a guinada da América Latina para a extrema-direita parece quase completa. É pouco reconfortante repetir que este é apenas um voto de protesto contra os governos em exercício. A vitória de Milei nas eleições legislativas argentinas, a flagrante interferência de Trump nas eleições latino-americanas e as pesquisas eleitorais para a presidência brasileira — uma disputa direta entre Lula e Bolsonaro, uma repetição de 2022 — apontam para algo mais profundo. Vale a pena, portanto, entender quem são esses grupos políticos, o que pensam e como se organizam. E o que os progressistas podem fazer para confrontá-los.
A literatura acadêmica sobre a nova direita é extensa: Steven Forti, Pablo Stefanoni e, mais recentemente, "A extrema-direita na América Latina", publicado em acesso aberto pela Cambridge. Em contraste, a lista de políticos progressistas que escreveram sobre o fenômeno é breve, como se aqueles que deveriam conhecer melhor seu adversário não o estivessem estudando. E esse é o principal mérito de "L'internazionale reazionaria. Dall'America Latina all'Europa le reti della nuova destra", publicado há algumas semanas pela Castelvecchi na Itália.
Seu autor, Donato Di Santo, não é acadêmico nem escritor profissional — por vezes, a prosa é um tanto laboriosa. Di Santo pertence a uma espécie em extinção: ex-metalúrgico, militante do Partido Comunista Italiano e de suas sucessivas transformações, onde foi responsável pela América Latina, chegando a ser Subsecretário de Relações Exteriores no governo de centro-esquerda de 2006-2008. Durante décadas, viajou extensivamente pela região, manteve relações próximas com seus principais líderes políticos e acompanhou suas mudanças históricas. Na década de 1990, publicou, juntamente com Giancarlo Summa, Rivoluzione Addio (Revolução de Adeus), livro no qual reconstruiu, através das vozes de progressistas latino-americanos, a transição para o reformismo e o abandono das armas como instrumento político. Ele agora se refere a esses países autoritários de esquerda — Cuba, Venezuela e Nicarágua — como “incubadoras do autoritarismo de Estado”.
O valor do livro reside, sobretudo, nisto. Numa era marcada pela separação entre política e cultura — investigadores que não se envolvem na política e políticos que não leem, muito menos escrevem — o gesto de Di Santo contraria a corrente: ele analisa rigorosamente um fenómeno crucial a partir da perspectiva de um político que conhece a região intimamente.
Di Santo reconstrói o horizonte comum da nova direita — radical, extremista, reacionária, ou como queiram chamá-la — em torno de alguns temas recorrentes: identidade nacional, retórica anti-establishment, rejeição do papel ativo do Estado na economia, revisionismo histórico, religião e o mito do sucesso individual. E, claro, a construção do inimigo: não mais os comunistas, quase extintos, mas feministas, imigrantes, minorias e movimentos sociais. O livro oferece uma análise país por país, partido por partido, destacando tanto os pontos de convergência quanto os de divergência.
De grande interesse é o papel da direita espanhola na promoção da coordenação entre o velho e o novo continente. O livro reconstrói o papel intelectual de Vargas Llosa e o papel político de Aznar na consolidação dessa família política e na metamorfose da direita liberal conservadora da década de 1990 nos gritos bárbaros de hoje. Di Santo investiga as estratégias subjacentes do Vox: mapeando sua rede de publicações, fundações e iniciativas; traçando as trajetórias de alguns de seus líderes, que passaram da moderação do Partido Popular ao radicalismo do Vox; e mostrando como a retórica da hispanidade é usada para propor uma visão de fraternidade baseada na língua e na religião entre a Espanha e a América Latina. Através de seus numerosos núcleos latino-americanos, o partido de Abascal aspira a reafirmar um monopólio euro-latino-americano para a Espanha, de acordo com os parâmetros de sua família política e seus parentes ideológicos na América Latina.
O texto também reconstrói o contexto das trocas de favores entre líderes da direita italiana e latino-americana, começando pelo governo Berlusconi (2001-2006 e 2008-2011) e o atual governo Meloni. Faz isso não de forma sensacionalista, mas examinando, sob uma perspectiva histórica, as redes da direita italiana, os movimentos neofascistas subversivos da década de 1970 e os benefícios que alguns de seus expoentes obtiveram não apenas em termos políticos, mas também em termos estritamente pessoais.
Entre as páginas mais interessantes está a reconstrução da pouco conhecida história da loja maçônica P2, que na década de 1970 planejou um golpe de Estado na Itália e que teve origem em conexões entre a Itália e a América do Sul. Di Santo traça sua evolução até os dias atuais: o filho do fundador da loja tornou-se cidadão nicaraguense e, nessa condição, embaixador na Espanha, cargo que ocupou até janeiro passado. O que faz o filho de um maçom fascista italiano, envolvido em conspirações para derrubar a democracia, representando em Madri um governo que se proclama revolucionário? Di Santo levanta essa questão. A resposta fica a cargo dos pesquisadores — acadêmicos e juízes.
O prólogo, assinado pelo Secretário Internacional do Partido Democrático, e o epílogo, escrito por um magistrado que investigou as ligações entre as ditaduras sul-americanas dos anos setenta e a extrema-direita italiana, enriquecem o volume com as perspectivas de dois italianos que têm a América Latina em seu horizonte profissional.
O livro de Di Santo é político, direcionado principalmente a políticos italianos, que muitas vezes se mostram distantes da política internacional, e ainda mais da América Latina. O abismo entre a densa rede de relações dentro da nova direita e os escassos laços dentro da esquerda é gritante, com exceção da recente cúpula de Barcelona, após anos de indiferença mútua. Mas também é um livro útil para acadêmicos e jornalistas interessados nesses fenômenos. Sua principal desvantagem é ter sido publicado apenas em italiano. Dada a sua relevância para o mundo hispânico, seria interessante traduzi-lo.