27 Agosto 2026
A encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, rejeita a cultura global de domínio militar e econômico, defendendo, em vez disso, uma “civilização do amor” centrada na dignidade humana, na responsabilidade compartilhada e no bem comum.
O artigo é de Ruben Mendoza, publicado por Global Catholic, 25-08-2026.
Ruben C. Mendoza é um teólogo leigo casado. É professor e ex-chefe do Departamento de Teologia da Universidade Ateneo de Manila. Cofundou o Centro KU Leuven-Ateneo para Teologia Católica e Justiça Social com Stephen van Erp e Wilson Angelo Espiritu, onde atua como diretor executivo.
Eis o artigo.
Em sua encíclica Magnifica Humanitas, o Papa Leão XIV critica a cultura do poder que sustenta o problema da guerra e o desenvolvimento de armamentos avançados.
Como ele afirma, “Em nosso tempo, uma cultura de poder está se consolidando, na qual a disponibilidade de recursos e a capacidade de dominar tendem a ditar a agenda e os critérios para a tomada de decisões. Dessa forma, o bem comum da humanidade é relegado a um segundo plano e a tragédia concreta dos povos em guerra é reduzida a uma consideração secundária em relação aos interesses estratégicos” (MH 188).
O Papa observa ainda que esta “cultura do poder infiltra-se na sociedade, altera as relações e os comportamentos e cresce normalizando a guerra, procurando um poder militar cada vez maior, aproveitando-se da crise do multilateralismo e alimentando um falso realismo que insiste que não há alternativa” (MH 188).
A cultura do poder da qual o Papa Leão XIV fala é evidente na guerra entre os EUA e Israel contra o Irã, onde a mentalidade predominante nos EUA é "a força faz o direito". Essa cultura também se manifesta no genocídio em curso em Gaza, onde Israel tem buscado seus "interesses estratégicos" sem a devida consideração pela população civil de Gaza.
Lamentavelmente, Israel parece ter esquecido o que significa não ter uma pátria. Parece estar tratando os palestinos como os cananeus, hititas, heveus, ferezeus, girgaseus, amorreus e jebuseus – os povos expulsos da Terra Prometida no livro de Josué.
Não surpreendentemente, a cultura do poder também está presente nas relações econômicas entre países, onde as nações industrializadas se esforçam para dominar as em desenvolvimento. Por exemplo, o presidente dos EUA, Donald Trump, decidiu impor unilateralmente tarifas abusivas aos parceiros comerciais dos EUA.
Os líderes de nações menos poderosas tiveram, por assim dizer, que se curvar a Trump para garantir tarifas alfandegárias favoráveis para seus países. O movimento Make America Great Again, iniciado por Trump, nada mais é do que outra forma de imperialismo que não leva em consideração o bem comum.
A cultura do poder também é aquela que simplesmente extrai os recursos da natureza sem levar em consideração a integridade ecológica. A humanidade tem o poder de dominar a natureza e usá-la para seus próprios interesses.
Em outras palavras, a cultura do poder da qual o Papa fala é aquela em que nações poderosas dominam as menos poderosas. O poder reside no desejo de controlar a maneira como as pessoas pensam, sentem e agem.
Ela se concentra exclusivamente nas necessidades e desejos dos poderosos, sem levar em consideração as necessidades dos outros. Desmerece aqueles que discordam ou são diferentes e demoniza seus inimigos percebidos. É uma neocolonização em que as fronteiras geográficas não importam de fato.
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Essa cultura de poder não se manifesta apenas na ordem geopolítica, no complexo militar-industrial, no sistema econômico neoliberal e no descaso insensível pelo meio ambiente. Suas raízes, na verdade, começam nas relações interpessoais.
"Precisamos lembrar que o amor em si é um poder. É um poder que busca a vontade de Deus acima de tudo, que permite que alguém se sacrifique pelos outros e que perdoa sete vezes sete, mesmo que aquele que é perdoado não seja digno."
Isso fica evidente em pessoas que, consciente ou inconscientemente, querem dominar e controlar os outros, não respeitam a autonomia alheia para decidir e agir por si mesma e agem como se suas ideias ou modo de pensar fossem sempre superiores aos dos outros.
Em contraste com a cultura do poder, o Papa Leão XIV convida os povos a construírem uma civilização do amor. Para ele, a graça “inspira uma resistência ativa ao mal e uma criatividade surpreendente na prática do bem”.
Ele acrescenta: “Os cristãos veem as trevas e as reconhecem pelo que são, mas não se limitam a contemplá-las passivamente, pois conhecem a luz e compreendem que as trevas não a venceram nem podem derrotá-la (cf. Jo 1,5). Por esta razão, mesmo quando o sofrimento parece ter a última palavra, os cristãos servem o bem e são sustentados por uma esperança teológica que dá à realidade sentido e direção” (MH 211).
Para o Papa Leão XIV, para construir a civilização do amor, somos chamados a ser como Neemias, que não impôs soluções de cima para baixo e “escutou as preocupações das pessoas, coordenou os seus esforços e enfrentou qualquer oposição” (MH 8).
Construímos nossa civilização do amor “através da responsabilidade compartilhada de todos: homens, mulheres, sacerdotes, artesãos, chefes de família e jovens, todos desempenham um papel. É um empreendimento com Deus no centro, que reconstrói relacionamentos antes de reconstruir com pedras” (MH 8).
Nossa linguagem comum “não é de uniformidade, mas de comunhão, ou seja, a harmonia que surge quando todas as pessoas assumem seu próprio papel e reconhecem que sua força vem do Senhor” (MH 8).
Precisamos lembrar que o amor em si é um poder. É um poder que busca a vontade de Deus acima de tudo, que nos permite sacrificar-nos pelos outros e que perdoa sete vezes sete, mesmo que aquele que é perdoado não mereça; um poder que vê, ouve e responde aos clamores dos pobres, dos oprimidos e da Terra; um poder que busca o florescimento de todos e nos impulsiona a trabalhar pelo bem comum; um poder que empodera os outros; um poder que coloca o bem das pessoas acima de tudo; e um poder que não tem medo de ser vulnerável, fragilizado e compartilhado para dar vida.
Este poder do amor é ininteligível para aqueles que não sabem o que significa amar. É impraticável para aqueles que veem o mundo através de um paradigma tecnocrático em que “a lógica da eficiência, do controlo e do lucro moldam as decisões pessoais, sociais e económicas” (MH 92).
É descartada como sentimentalismo inútil, um obstáculo ao progresso. No entanto, foi precisamente esse poder que levou Jesus a proclamar o Reino, escolher a Cruz e ressuscitar, dando assim vida a todos.
Somos profundamente e infinitamente amados por Deus e recebemos a graça de construir uma civilização do amor.
A tarefa não será fácil, pois nadaremos contra a corrente em um mundo dominado pela cultura do poder e pela mentalidade tecnocrática. Nossa esperança reside em Jesus, que nos diz para não termos medo, venceu a morte e nos assegura sua presença constante em seu Espírito enquanto nós, como Neemias, caminhamos para construir a cidade de Deus.
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