Vozes de Emaús: “Não em nome da fé”: relatório ecumênico reforça chamado ao enfrentamento do avanço dos fundamentalismos. Artigo de Magali Cunha

Arte: Lauren Palma | IHU

25 Julho 2026

"O relatório nos diz que há saída e há resistência organizada e que há fé que liberta diante da fé que oprime".

O artigo é de Magali Cunha, doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade de São Paulo (USP), pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e integrante da International Association Media Religion and Culture e da World Association for Christian Communication.

Magali Cunha (Foto: Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

Neste primeiro semestre de 2026, o ramo sul-americano da ACT Aliança, uma articulação de organizações baseadas na fé que atuam pela garantia do direito à vida em todas as suas dimensões, o Fórum Ecumênico da América do Sul (FESUR), vem promovendo lançamentos do seu novo relatório regional: Não em Nome da Fé: Fundamentalismos, regressão democrática e ataques à justiça de gênero. Documentação de casos da Argentina, Brasil, Colômbia e Peru. O documento vem sendo apresentado ao mundo como resultado de anos de reflexão coletiva e documentação promovidos pelos Fóruns da ACT Aliança na América Latina e no Caribe. O último evento de lançamento foi realizado em 24 de junho, durante a 56ª Assembleia Geral da Organização do Estados Americanos (OEA), no Panamá.

Tive a honra de conduzir, em 2020, a pesquisa que originou o primeiro relatório do FESUR sobre os fundamentalismos na região. Seis anos depois, ao ler este novo documento, sinto que o alerta que fizemos então não apenas se confirma: ele se aprofundou e se tornou mais urgente. O nome do relatório diz muito: “Não em nome da fé”. Afinal, o processo sociopolítico que está em curso nos países da América do Sul pode ser, sim, avaliado, como uma articulação da fé para projetos políticos autoritários, antidireitos e antidemocráticos. E precisamos nomear e evidenciar isto.

O que o relatório documenta

O relatório do FESUR é uma publicação baseada em evidências, com casos concretos documentados nos quatro países-base (Argentina, Brasil, Colômbia e Peru) que revelam como a convergência de fundamentalismos político-religiosos está corroendo a democracia, o espaço cívico, a justiça de gênero e a dignidade humana no continente.

Entre os principais achados, o relatório destaca quatro dinâmicas que se repetem nos países analisados. A primeira é que a desinformação e os discursos de ódio são amplificados estrategicamente por meio de plataformas digitais. As mídias sociais tornaram-se o principal campo de batalha da chamada guerra cultural.

A segunda é que a retórica religiosa é articulada para justificar agendas autoritárias e patriarcais, com a fé sendo convocada não para libertar, mas para excluir, silenciar e dominar. A terceira é que atores fundamentalistas exercem influência crescente sobre legislações, políticas públicas e sistemas de justiça, ocupando o Estado, como base em teologias ultraconservadoras antigas que ganharam força renovada, como as do Domínio. A quarta é que lideranças religiosas progressistas e defensoras e defensores de direitos humanos enfrentam ameaças, estigmatização e violência cada vez maiores.

O relatório alerta ainda que essas dinâmicas já não constituem fenômenos religiosos isolados. Fazem parte de projetos autoritários mais amplos que buscam consolidar poder e reverter avanços em direitos sociais, sexuais e reprodutivos, ambientais e democráticos.

O que já sabíamos e o que mudou

Na pesquisa de 2020, havíamos identificado que os fundamentalismos na América Latina haviam ultrapassado a dimensão religiosa de matriz cristã para ganhar um perfil diversificado, com caráter político, econômico, ambiental e cultural. O fenômeno não era isolado nem passageiro mas sistêmico e estrutural.

O novo relatório, seis anos depois, confirma e aprofunda esse diagnóstico. Entretanto, há algo que mudou de forma acelerada e que merece atenção especial: o papel das mídias digitais e da inteligência artificial generativa como amplificadores e aceleradores dos fundamentalismos.

A direita cristã aprendeu antes de qualquer outro ator político a operar na lógica das redes sociais, que não é a lógica dos fatos, mas a da emoção. O que circula nas plataformas digitais não é o que é verdadeiro, mas o que emociona e aciona crenças e valores e administra o medo. E o medo é o principal ativo da comunicação fundamentalista: medo do fechamento das igrejas, medo da perseguição aos cristãos, medo da noção inventada de "ideologia de gênero", que supostamente ameaça as crianças, medo do comunismo que estaria escondido nas políticas de direitos humanos.

Sempre repito que aprendi com o antropólogo Ronaldo de Almeida uma formulação que me parece essencial para compreender o que está em curso: em vez de falarmos em religião na política, precisamos falar em religião como política. Fazer religião hoje tem sido fazer política. E a direita cristã faz isso muito bem, porque simula não falar de política quando está fazendo política; entra no debate pelo viés moral, com linguagem religiosa, com símbolos e rituais que tocam crenças profundas. Família, defesa de Israel, liberdade religiosa, segurança: temas com enorme apelo emocional, são capturados pela direita cristã e transformados em instrumentos de mobilização política.

“Não é em nome da fé” é resistência e esperança

Importa destacar que o relatório do FESUR não é apenas um documento de análise e denúncia. É também, e fundamentalmente, um testemunho de resistência e esperança. A partir de perspectivas ecumênicas e de fé libertadora, o documento apresenta dez recomendações estratégicas dirigidas a governos, igrejas, organismos internacionais e sociedade civil.

Entre essas recomendações, destacam-se o combate aos discursos de ódio, ao extremismo religioso e às campanhas de desinformação digital que alimentam a polarização e o retrocesso democrático; o apoio a vozes de fé progressistas e ecumênicas comprometidas com os direitos humanos, a construção da paz, a igualdade de gênero e a inclusão social; a proteção do espaço cívico e da liberdade de expressão para organizações de mulheres, povos indígenas, pessoas LGBTIQ+ e organizações de direitos humanos baseadas na fé; e o fortalecimento de mecanismos de prestação de contas e monitoramento internacional dos direitos humanos diante de agendas autoritárias e antidireitos.

O relatório nos diz, portanto, que há saída e há resistência organizada e que há fé que liberta diante da fé que oprime. O texto reforça que nomear claramente o que está acontecendo, afirmando que isso não é em nome da fé, é um importante ponto de partida de resistência.

Neste ano eleitoral no Brasil, o relatório do FESUR chega em momento de grande urgência. As eleições de 2026 serão disputadas por aqui, fundamentalmente, no ambiente digital, não pelo convencimento pelos feitos, mas pela capacidade de mobilizar emoções, acionar crenças e administrar medos. Os recentes resultados eleitorais ultraconservadores no Peru e na Colômbia reforçam esta gravidade.

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