“A igualdade de gênero gera sociedades menos violentas, mais felizes”. Entrevista com Jeff Hearn

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19 Novembro 2021

 

O sociólogo Jeff Hearn (Londres, 1947) é um estudioso da masculinidade. Colabora em três universidades da Suécia, Finlândia e Reino Unido. É membro fundador da associação Profeminist Men e autor do livro recentemente publicado Men of the World. Visita Barcelona convidado pela Universidade Aberta da Catalunha, onde busca demonstrar o mito do homem como catalisador do poder, tanto social como político.

 

A entrevista é de Carlos Márquez Daniel, publicada por Rebelión, 13-11-2021. A tradução é do Cepat.

 

Eis a entrevista.

 

Temos uma ideia errônea sobre a masculinidade?

Há certos elementos que fazem com que você seja, obviamente, um homem. Tem a barba, as características físicas. Muitos estereótipos relacionados ao fato masculino. Mas tem muito mais: existe a atitude.

A atitude define a masculinidade?

É o modo como usamos o poder, como interpretamos a nós mesmos. As formas de fazer, de vestir, relacionadas ao fato de ser um homem. Não existe uma única versão do significado de masculinidade. Há quem a relacione com o mundo do esporte. O Barça, por exemplo, e me perdoe pelo ponto. Ou os negócios, o poder político. Inclusive, a capacidade de beber muito álcool.

O macho ibérico é a masculinidade levada ao extremo?

Pode ser que seja. Em outras culturas também existe essa figura, com outros formatos, mas também reconhecível. Na Finlândia, onde vivo, o macho pode estar relacionado ao herói de guerra.

A má interpretação desse conceito pode levar à violência?

É um dos pontos centrais. Embora existam vários tipos de violência machista, não apenas física, mas também psicológica. Nem sempre se trata de agressões, e focar apenas em hematomas e ossos quebrados transforma outros tipos de agressões em dramas invisíveis.

Uma mulher que bate em seu marido sofre de excesso de masculinidade? Por que não falamos da violência entre casais do mesmo sexo?

A palavra adequada não acredito que seja sofrer. Simplesmente, são papéis trocados. Em meu país, sim, fala-se da violência entre homossexuais. Aqui, não? Há estudos que demonstram que o nível de violência entre casais do mesmo sexo é bastante semelhante ao dos casais formados por um homem e uma mulher.

Alguma vez já comparou os níveis de violência machista na Europa?

Quando você pergunta a uma mulher se sofreu violência de gênero, a maneira como a questão é interpretada difere dependendo do país em que é feita. É complicado obter informação confiável ou comparável. É contraditório, mas os países com mais igualdade são onde as mulheres estão mais dispostas a admitir que foram vítimas de abusos.

Talvez as outras tenham medo dos efeitos de sua resposta.

Sim, o contexto sempre é importante. E as consequências. Em alguns países, é estigmatizado ou simplesmente aceito socialmente que uma pessoa seja vítima de abusos. Há um grande paradoxo a esse respeito, embora acredito que o assunto está cada vez mais presente na agenda política.

A lei é suficiente para combater esse flagelo?

Em 2005, estive em um projeto com especialistas espanhóis inquietos pelas limitações legais na Espanha. É preciso facilitar as coisas, porque muitas mulheres, por problemas econômicos, permanecem convivendo com seus assediadores porque não possuem nenhum lugar para se refugiar. Em nível social, também é preciso dar um salto.

Nos anos 1990, foi realizado um estudo no Reino Unido. As mulheres que foram atendidas em refúgios tinham passado por 12 administrações diferentes, antes de encontrar a pessoa ou entidade capaz de ajudá-las. No caso dos homens, tinham passado por nove espaços. Muitas pessoas jogam a toalha após um processo de anos sem conseguir encontrar o lugar adequado para tratar o seu problema de violência.

Com esses obstáculos, pode acontecer que, no final, já seja tarde demais. Penso que os médicos dos ambulatórios deveriam ser os primeiros a soar o alarme, pois são os primeiros a detectar os sintomas. Basta perguntar à paciente se teve um problema em casa, ou se está tudo bem, ou diretamente se está sendo alvo de abusos.

Não estamos fazendo isso?

Você faz? Não sei. Mas eu duvido. É uma pergunta muito embaraçosa, mas é a mais óbvia se alguém aparecer com um olho roxo. Os médicos são muito importantes, do mesmo modo que os advogados.

É possível reabilitar essas pessoas?

Esse é outro debate. Existem programas de reabilitação. Para simplificar, funcionarão se forem bem executados, com os conhecimentos, acompanhamento, recursos e assessoramento adequados. Mas isso não basta, é necessário fazer um acompanhamento de seis meses, um ano, talvez até seis anos.

Mas para isso falta dinheiro...

Exatamente. Esse é outro inconveniente que caminha de mãos dados com o compromisso dos governos.

A educação também é crucial. Certas gerações deste país se formaram com desenhos animados e quadrinhos repletos de machismo.

Isso não é bom, obviamente. Quem cuida das crianças? Quem se encarrega da casa? Todas essas coisas são importantes. E a educação deve se ocupar delas. É necessária uma sociedade mais democrática. Foram realizados estudos comparativos a respeito da igualdade de gênero, em nível doméstico e nível de violência no lar. Demonstrou-se que existe uma absoluta relação: quanto mais igualdade existe, menos casos verificados de violência.

Na Noruega, além disso, ficou comprovado que a igualdade gera sociedades mais felizes. Se há mais igualdade, há menos depressão e mais felicidade. Outro estudo internacional, que incluía países como a Índia e Brasil, concluiu que os homens que recorrem à violência possuem um problema de fundo: não estão satisfeitos com a sua vida. Em resumo, não são felizes.

Como estamos em comparação a vinte anos atrás?

Agora, há muito mais consciência sobre a violência doméstica. E menos estigma do que no passado. Graças ao ativismo feminista e a política, enfim, faz parte do debate público.

 

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