22 Julho 2026
Longe das fórmulas ideológicas simplistas, a política contemporânea equilibra-se entre as amarras do tripé fiscal e a urgência da distribuição de renda.
O artigo é de Fernando Nogueira da Costa, publicado por A Terra é Redonda, 20-07-2026.
Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP).
Eis o artigo.
Reduzir o governo eleito em 2022 à justaposição entre uma política econômica neoliberal e uma política social-desenvolvimentista é uma interpretação binária insuficiente. Ela identifica uma tensão política, mas transforma essa tensão ideológica em duas políticas independentes, quando, em termos pragmáticos, qualquer governo opera dentro de uma configuração sistêmica, composta por restrições institucionais, financeiras, produtivas, sociais, políticas e geopolíticas.
Não se trata apenas de um governo “neoliberal na economia e social-desenvolvimentista na distribuição”. A Frente Ampla Antifascista, formada em 2022, não constituiu uma coalizão programaticamente homogênea. Seu denominador comum imediato foi a defesa do regime democrático diante da ameaça autoritária e/ou golpista.
Depois da eleição, porém, reapareceram no debate público midiático as divergências entre forças defensoras da austeridade fiscal e da estabilidade monetária, defensores de políticas social-desenvolvimentistas, interesses empresariais nacionais e transnacionais, pressão de operadores do mercado financeiro para a manutenção da taxa de inflação disparatada, a contraposição de movimentos sociais em defesa de interesses corporativos etc.
Isto sem esquecer da necessidade política de uma base governista majoritária ao custo de aliança com partidos do centrão, no Congresso Nacional, e nomeação para cargos tais como o Conselho Diretor da Caixa Econômica Federal. Permanecem ainda burocracias econômicas dotadas de certa autonomia institucional como a diretoria do Banco Central do Brasil, Banco do Brasil, BNDES, Petrobras etc.
Portanto, a política governamental não resulta de uma doutrina única ou mesmo de um reducionismo binário. Ela é uma resultante emergente da interação entre forças heterogêneas, nenhuma delas capaz de impor integralmente seu programa.
Sob pressão midiática, o governo preservou elementos do regime macroeconômico (“tripé”), estabelecido desde 1999 – metas de inflação, câmbio flutuante e busca de sustentabilidade fiscal –, embora tenha substituído o teto rígido de gastos por um arcabouço fiscal mais flexível. Simultaneamente, recompôs políticas de renda, valorização do salário mínimo, transferências sociais, investimentos públicos e crédito direcionado.
A meta irrealista de inflação permanece em 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual. Desde janeiro de 2025, considera-se descumprida quando a inflação permanece fora da faixa por seis meses consecutivos. Não são, entretanto, duas metades perfeitamente separadas: política monetária restritiva de um lado; política social compensatória de outro. As duas interferem uma na outra.
O juro elevado aumenta as despesas financeiras e reduz a alavancagem financeira de investimentos privados, além de encarecer a dívida pública, apesar da expansão da renda popular ter sustentado consumo, emprego e arrecadação no período 2023-2026. O resultado agregado depende das retroalimentações entre essas variáveis.
De acordo com o novo paradigma da ciência econômica, deve-se superar qualquer reducionismo binário com pelo menos mais um “terceiro incluído”, para refletir a complexidade emergente de interações de inúmeros outros elementos, além dos dois: neoliberalismo versus social-desenvolvimentismo. Por exemplo, o “terceiro incluído” pode ser a inserção estrutural brasileira na economia mundial.
A globalização produtiva, a desnacionalização das empresas industriais e de infraestrutura, todas incluídas em cadeias globais de valor, são componentes decisivos desse terceiro incluído. Ele pode ser formulado de maneira ainda mais abrangente como a posição estrutural ocupada pelo Brasil na divisão internacional do trabalho, sob dominância financeira, tecnológica e empresarial transnacional.
Essa posição condiciona tanto a macroeconomia estrutural quanto a política social. Afinal, o país – um dos cinco (EUA + BRIC) incluídos nos rankings de maiores territórios, populações e renda – possui uma estrutura exportadora muito competitiva em petróleo, mineração, agroindústria, alimentos, celulose e algumas atividades industriais. Essa dimensão estrutural não é resultante de “a força política e econômica do agronegócio pressiona o governo a favorecer exportações de produtos primários em detrimento da reindustrialização”.
Na realidade, é praticamente irreversível uma indústria de transformação integrada a redes transnacionais. Isto porque, com seu baixo nível de desenvolvimento educacional, científico e tecnológico, dependente de gastos públicos, o país possui elevada dependência de componentes, máquinas, equipamentos, insumos químicos, fármacos, semicondutores e tecnologias importadas.
Por serem as maiores empresas industriais controladas no exterior, suas decisões estratégicas são tomadas segundo a rentabilidade global do grupo. O sistema financeiro nacional é capaz de carregar os títulos de dívida pública, financiar a política habitacional e o consumo. Entretanto, não capta funding orientado ao investimento industrial de longo prazo, exceto o BNDES via debêntures incentivadas. Com a troca de TJLP por TLP emergiu o mercado de títulos de dívida direta das empresas não-financeiras como debêntures.
Como o mercado interno, seja o popular, seja o da elite, é grande em termos internacionais absolutos, embora marcado por forte desigualdade, é atraente para as empresas transnacionais. Logo, a apreciação cambial não age apenas como instrumento anti-inflacionário.
Ela também barateia componentes e equipamentos importados; favorece empresas montadoras dependentes de insumos externos; reduz custos de bens finais importados; pressiona produtores domésticos a serem competitivos em preços e qualidade; diminui a rentabilidade da produção local de bens comercializáveis; e estimula a substituição da produção nacional por importações – ao contrário do anacrônico modelo de substituição de importações.
Forma-se uma circularidade: juros elevados → entrada de capitais ou valorização cambial → importações mais baratas → inflação menor no curto prazo → perda de competitividade industrial → maior dependência de importações → maior vulnerabilidade futura ao câmbio → dependência de um superávit comercial estrutural, baseado na disponibilidade de recursos naturais exportáveis.
Portanto, a política anti-inflacionária pode reduzir a inflação corrente ao preço de enfraquecer a capacidade produtiva doméstica, sob o risco de aumentar, posteriormente, a própria exposição à inflação importada. Uma baixa inflação, de imediato, não é uma demanda popular no Brasil?
A observação sobre a vantagem comparativa interna da empresa transnacional é central. Na economia contemporânea, boa parte do comércio internacional não ocorre entre empresas nacionais independentes. Ocorre entre matriz e filial, entre diferentes subsidiárias do mesmo grupo, entre fornecedores subordinados a uma empresa líder e entre plataformas coordenadoras de cadeias dispersas.
A empresa transnacional escolhe onde localizar cada etapa, conforme uma combinação de custos, escala, logística, impostos, subsídios, acesso a mercados, domínio tecnológico, proteção jurídica, disponibilidade de fornecedores e estratégia geopolítica. Essa decisão não corresponde necessariamente à “vantagem comparativa do Brasil”. Corresponde à vantagem privada da cadeia corporativa global. A empresa transnacional não organiza sua cadeia segundo o interesse nacional ou de acordo com a política econômica hegemônica.
Uma subsidiária brasileira pode ser lucrativa importando peças asiáticas e apenas montando o produto no Brasil. Do ponto de vista da corporação, isso é eficiente. Do ponto de vista nacional, implica em baixo conteúdo tecnológico local, reduzida formação de fornecedores, remessas de lucros e royalties, déficit em bens industriais sofisticados, pouca difusão de conhecimento e vulnerabilidade externa.
Há, portanto, uma diferença essencial entre eficiência microeconômica da empresa transnacional e eficiência sistêmica do desenvolvimento nacional. Basta esse “terceiro incluído” – a globalização e/ou a desnacionalização da economia brasileira – para verificar a complexidade enfrentada por qualquer governo, independentemente do seu credo ideológico dominante.
No atual contexto internacional, com tentativa de retomada da política imperial por parte dos Estados Unidos, a defesa da soberania nacional é crucial no debate eleitoral. Entretanto, não se deve confundi-la com o antigo nacionalismo sonhador de ser possível o alcance de plena autonomia com reindustrialização.
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