O que Donald Trump ganhou com a Copa do Mundo nos EUA

Foto: Gabriel Kotico/Casa Branca/Fotos Públicas

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21 Julho 2026

Da pressão sobre a FIFA à busca por holofotes na final, presidente americano usou torneio para reforçar sua agenda doméstica, atraindo críticas de analistas e torcedores.

A reportagem é publicada por DW, 20-07-2026.

Rodri, como qualquer pessoa que já jogou futebol, havia sonhado com esse momento. O capitão da Espanha segurava a taça da Copa do Mundo nas mãos, cercado por companheiros de equipe em festa. Mas, antes de poder erguer o troféu, precisou encontrar uma maneira educada de tirar do palco o presidente dos EUA, Donald Trump.

Ele não conseguiu totalmente. No fim, foi preciso que o presidente da FIFA, Gianni Infantino, corresse para a frente dos jogadores na tentativa de fazer o americano sair. Ainda assim, o presidente permaneceu ao lado do meio-campista do Barcelona Pedri, desfrutando da adulação que lhe havia sido negada momentos antes, quando entrou em campo sob vaias. Trump já havia feito movimento similar na entrega do troféu da Copa do Mundo de Clubes, no ano passado.

Embora a final deste domingo (19/07), na qual a Espanha venceu a Argentina por 1 a 0, tenha sido a primeira partida do torneio à qual Trump compareceu, ele afirmou que a Copa em território americano foi "o evento esportivo de maior sucesso talvez da história do mundo". O presidente foi uma presença constante no torneio, mesmo quando estava ausente.

"Trump lançou uma sombra sobre todo o torneio, usando-o como instrumento para fins políticos domésticos, independentemente de ter comparecido pessoalmente aos jogos ou não", disse à DW Jules Boykoff, professor do Departamento de Política e Governo da Pacific University, no estado americano do Oregon.

A intervenção de Trump

As intervenções de Trump impediram a entrada nos Estados Unidos de um árbitro da Somália, forçaram o Irã a treinar no México e viajar para partidas em Los Angeles e Seattle, e barraram torcedores de todo o mundo de assistirem aos jogos. Além disso, segundo Boykoff, a ligação telefônica de Trump para a Fifa durante a fase eliminatória "certamente entrará para a história como uma das intervenções políticas mais notórias da história das Copas do Mundo".

Embora Trump tenha feito lobby com sucesso para reverter a suspensão por cartão vermelho do atacante americano Folarin Balogun, a estratégia teve efeito contrário em campo: os Estados Unidos perderam por 4 a 1 para uma Bélgica motivada nas oitavas de final. "Eu sabia que isso causaria muita controvérsia", disse Balogun. "Quase conseguia perceber um pouco de nervosismo entre meus companheiros porque era algo tão único."

Para Boykoff, as implicações esportivas provavelmente não estavam entre as principais preocupações de Trump. "Intervir na questão do cartão vermelho permitiu que ele transmitisse à sua base política a mensagem de que pode fazer com que organismos internacionais como a Fifa se curvem à sua vontade", disse Boykoff, que jogou nas categorias de base dos Estados Unidos. "A maioria das ações de Trump durante a Copa do Mundo deve ser interpretada como uma tentativa de influenciar o público político doméstico antes de uma importante eleição de meio de mandato, e não como um esforço para convencer o público internacional de que ele é um cara incrível."

Trump insistiu que o torneio melhorou a reputação internacional dos Estados Unidos. "Pessoas do mundo inteiro vieram e adoram nosso país", disse ele aos jornalistas.

A ligação sobre Balogun foi um erro para Trump?

As eleições americanas de meio de mandato estão marcadas para 3 de novembro e, com a guerra no Irã em andamento, o índice de aprovação de Trump está abaixo de 40%. Embora uma espécie de "pressão" sobre uma organização global como a Fifa possa agradar à base que ele já conquistou, o jornalista investigativo Karim Zidan disse à DW que a intervenção no caso Balogun foi um erro político.

"Acho que, ao se vangloriar disso, quando a seleção masculina dos Estados Unidos lhe oferecia a oportunidade de apoiar uma equipe que parecia unir os americanos, ele conseguiu encontrar uma maneira de manchar isso, e aqueles que não gostam dele passaram a gostar dele ainda menos", disse Zidan, que há muito tempo cobre o uso do esporte por Trump na política.

Essa intervenção política direta e sem precedentes em uma decisão do futebol provocou desprezo e indignação em grande parte do restante do mundo. Políticos, federações de futebol, torcedores e treinadores se uniram em críticas. Mas isso não incomodará Trump, afirmou Boykoff.

"Com base em suas ações, Trump não parece se importar muito com o que o resto do mundo pensa dele. Suas políticas anti-imigração mancharam a Copa do Mundo e enfraqueceram o slogan da Fifa de que 'o futebol une o mundo'. Trump usou o torneio para aumentar ainda mais as divisões no mundo, ao mesmo tempo em que estimulava os piores instintos de sua base antes das eleições de meio de mandato", disse.

Moldar o esporte como estratégia dos EUA

O episódio envolvendo Balogun foi a primeira participação realmente relevante de Trump no torneio e ocorreu mais de três semanas após seu início. Dada sua presença constante na preparação para a competição, esperava-se que suas intervenções viessem mais cedo. Para Zidan, a situação geopolítica vinha ocupando seu tempo, assim como as celebrações dos 250 anos da independência dos Estados Unidos durante o torneio.

"Tudo o que realmente interessa a ele é transformar isso em algo sobre si mesmo ou obter algum tipo de prestígio pessoal com o evento", disse Zidan. "Por isso, não me surpreende em nada que ele não tenha estado muito presente nos jogos comuns da Copa do Mundo."

Apesar de seu aparente desinteresse, Trump fez uma investida para futuras Copas do Mundo imediatamente após o fim do torneio de 2026. "Tive uma ótima ideia para Gianni: vocês têm que fazer com dois países. Anunciem os Estados Unidos novamente da próxima vez e depois anunciem outro país. Isso diminuirá parte da raiva e do choque", disse à Fox Sports. "Com base nos números, vamos nos candidatar de novo, imediatamente."

A data mais próxima em que os Estados Unidos poderiam voltar a sediar a Copa do Mundo masculina seria 2038, mas Los Angeles sediará os Jogos Olímpicos de Verão em 2028, quando Trump ainda estará no poder. Os Estados Unidos ainda sediarão os Jogos Olímpicos de Inverno de 2034 em Salt Lake City e são os favoritos para receber a Copa do Mundo Feminina de 2031.

UFC é um refúgio esportivo seguro para Trump

Zidan acredita que Trump primeiro retornará à segurança do Ultimate Fighting Championship (UFC), organização de artes marciais mistas que ele conseguiu incluir nas celebrações do 250º aniversário dos Estados Unidos.

"Sempre que apareceu em um evento esportivo que não era do UFC, recebeu vaias retumbantes. Não é a enorme recepção calorosa que está acostumado a receber no UFC", disse Zidan, cujo livro mais recente, The Ultimate Strongmen (sem tradução no Brasil), aborda a relação de Trump com o UFC.

"É por isso que ele aparece lá com tanta frequência, porque sediou um evento do UFC na Casa Branca. Ele entende que aquele é seu público perfeito e seu espaço seguro e que, não importa quão mal esteja se saindo, não importa o que esteja fazendo no mundo, não importa se há uma guerra em andamento, ele será bem-recebido." 

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