17 Junho 2026
O impacto da política de imigração do governo Trump na Copa do Mundo continua gerando controvérsia. Na preparação para o torneio, um fotógrafo iraquiano teve sua entrada negada ao chegar em Chicago, e o árbitro somali Omar Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos após ser considerado inadmissível ao desembarcar em Miami, apesar de possuir visto válido. Esta semana, um novo episódio se desenrolou: o goleiro de Cabo Verde, Vozinha, estrela de sua equipe na estreia contra a Espanha — que terminou em um surpreendente empate —, chorou após a partida de segunda-feira porque sua mãe não pôde presenciar um momento tão histórico. Ela não tinha condições de pagar a taxa do visto para acompanhar o filho aos Estados Unidos.
A informação é de Abel Fernández, publicada por El País, 17-06-2026.
A controvérsia chegou ao Congresso dos EUA em Washington, D.C., onde o líder democrata na Câmara, Hakeem Jeffries, pediu ao secretário de Estado, Marco Rubio, que interviesse para que a mãe de Vozinha pudesse assistir ao jogo do filho. "Nenhuma mãe deveria perder a oportunidade de ver seu filho fazer história. Pedi ao secretário de Estado, Marco Rubio, que faça tudo ao seu alcance para garantir que ela possa assistir ao próximo jogo de Cabo Verde no domingo", escreveu o congressista.
"Chorei porque cresci com meus avós e, infelizmente, eles não estavam aqui; faleceram há alguns anos", explicou Vozinha após o jogo de segunda-feira. "Eles eram tudo para mim, para a minha vida. Também chorei porque minha mãe não pôde vir por causa do visto. Como tivemos que pagar pelo visto, não conseguimos processá-lo a tempo."
Em janeiro, o governo dos EUA adicionou Cabo Verde à lista de países cujos cidadãos devem depositar uma caução reembolsável de até US$ 15.000 antes de viajar para o país, além da taxa de visto. Um funcionário do Departamento de Estado disse que "todos os familiares de jogadores são elegíveis para isenção da caução de visto, e o Departamento está entrando em contato com a família deste jogador para auxiliá-los com o processo de visto".
Organizações de direitos civis vêm alertando há meses que incidentes como esses acabariam afetando o torneio que será realizado nas próximas semanas nos Estados Unidos, México e Canadá, sendo o primeiro o país que sediará o maior número de partidas em meio a uma ofensiva anti-imigração sem precedentes lançada pela Casa Branca.
Nas semanas que antecederam a Copa do Mundo, grupos pró-imigrantes realizaram protestos em diversas cidades-sede dos EUA, e mais de 200 organizações assinaram um alerta de viagem advertindo visitantes internacionais sobre as políticas de imigração americanas. Ativistas exigem garantias da FIFA e das autoridades locais de que os torcedores não serão submetidos a batidas da imigração ao comparecerem a jogos ou eventos da Copa do Mundo.
Na semana passada, em Miami, um grupo de ativistas levou suas reivindicações diretamente à FIFA em uma coletiva de imprensa. "O futebol tem o poder de unir famílias e países. O que estamos vendo, em vez disso, é medo e caos", disse Yarelis Méndez-Zamora, coordenadora de políticas do Comitê de Serviço dos Amigos Americanos. "Avisamos que haveria prisões arbitrárias, que pessoas teriam a entrada negada nos Estados Unidos, discriminação racial e muito mais. Tudo isso está acontecendo."
As reclamações ganharam novo fôlego após o caso do árbitro somali Omar Artan, que teve a entrada negada ao chegar ao Aeroporto Internacional de Miami, apesar de possuir visto válido e credenciamento da FIFA. Artan foi considerado inadmissível pelas autoridades americanas e excluído do torneio. A Somália está em uma longa lista de países cujos cidadãos foram proibidos de viajar para os EUA por Trump. "Se um árbitro selecionado pela FIFA, com visto válido, pode ter a entrada negada ao chegar em Miami, que mensagem isso transmite aos milhões de fãs, familiares e visitantes de todo o mundo que estão considerando viajar para os Estados Unidos?", questionou Méndez-Zamora.
A ativista acrescentou que a expansão das restrições de viagem implementadas por Trump tem sido uma contradição, visto que o país tenta sediar um evento internacional. "Para organizar com sucesso um evento dessa magnitude, é preciso ser um anfitrião acolhedor. Este ano, mais seleções do que nunca participam da Copa do Mundo, mas 39 países estão afetados por proibições ou restrições de viagem. Não se pode organizar um dos eventos internacionais mais importantes do mundo e, ao mesmo tempo, proibir a entrada de quase um quarto do planeta."
Em resposta, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, abordou o assunto em uma coletiva de imprensa: "Não controlamos tudo. Temos que respeitar o fato de que não somos os reis do mundo, não controlamos governos; somos uma organização esportiva. Queremos unir o mundo. Se quiserem me criticar, critiquem-me. O que aconteceu com o árbitro é lamentável."
A FIFA não respondeu diretamente às perguntas sobre possíveis operações de imigração ou às demandas de ativistas para o estabelecimento de zonas livres de imigração ao redor dos estádios e eventos da Copa do Mundo. Em um e-mail, a organização afirmou que a segurança dos participantes e torcedores é sua principal prioridade e expressou confiança de que os Estados Unidos, o México e o Canadá garantirão um ambiente "seguro e acolhedor" para os participantes.
Por sua vez, o Departamento de Segurança Interna, que supervisiona o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE), declarou que sua "prioridade máxima" é "a segurança do povo americano e dos milhões de visitantes". "Os visitantes internacionais que vêm legalmente aos Estados Unidos para a Copa do Mundo não têm nada com que se preocupar. O que torna uma pessoa alvo de ações de imigração é se ela está ou não ilegalmente nos Estados Unidos."
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