30 Junho 2026
"Os ministérios leigos não são simplesmente funções delegadas por necessidade pastoral. Eles são exercidos em virtude do batismo e da confirmação, isto é, em virtude dos sacramentos que configuram os fiéis a Cristo e os tornam participantes da missão eclesial".
O artigo é de Linda Pocher, publicada por Settimana News, 29-06-2026.
Irmã Linda Pocher é teóloga salesiana, foi encarregada pelo Papa Francisco de organizar encontros com os seus nove cardeais conselheiros, o chamado C9, para dissecar os nós do papel das mulheres na Igreja.
Eis o artigo.
O recente debate sobre a homilia aos leigos, desencadeado pela resposta do Dicastério para o Culto Divino ao pedido dos bispos alemães, não é simplesmente uma questão disciplinar. O que está em jogo não é apenas quem pode ou não pregar durante a Eucaristia, mas uma visão mais ampla da Igreja, do ministério e da sinodalidade.
A discussão evidenciou uma tensão real: por um lado, a insistência na ligação entre a homilia e o sacramento da Ordem; por outro, o reconhecimento de que, em muitas comunidades eclesiais, a pregação da Palavra já é, de facto, confiada a leigos e leigas com sólida formação teológica e reconhecido carisma eclesial. A questão que se coloca é se esta experiência pode encontrar uma configuração eclesial mais estável e reconhecida.
Como observou Andrea Grillo, a questão não é simplesmente estabelecer quem tem o direito ontológico de falar, mas compreender que forma de Igreja a liturgia expressa e gera.
Uma Igreja que reconhece carismas
O Concílio Vaticano II, contudo, inaugurou uma transformação eclesiológica e litúrgica que não pode ser reduzida apenas às formulações normativas contidas em seus documentos. O Concílio, de fato, não foi meramente uma coleção de textos, mas o início de um processo histórico e eclesial cujos desdobramentos continuam até os dias de hoje.
Os processos inaugurados pelo Vaticano II transformaram profundamente as entidades eclesiais, suas competências e as formas de sua participação. Quando os Padres Conciliares reafirmaram a ligação entre a homilia e o ministério ordenado, o ministro era frequentemente o único membro da comunidade com formação teológica sistemática. Hoje, a situação mudou radicalmente: leigos e leigas estudam teologia, lecionam em universidades eclesiais, coordenam programas de formação, exercem responsabilidades pastorais e desenvolvem um ministério da Palavra reconhecido.
Ser fiel ao Concílio significa não apenas respeitar suas normas, mas também deixar-se guiar pelos processos por ele iniciados, aceitando que estes podem conduzir a desdobramentos não totalmente previstos pelos próprios textos conciliares. A questão da homilia também se insere nessa dinâmica. Um processo não pode ser controlado: ele é acompanhado, discernido e, quando necessário, há a coragem de repensar formas e instituições à luz das novas condições eclesiais.
O reconhecimento de um ministério leigo da Palavra não aborda primordialmente a necessidade de substitutos devido, em alguns casos, à capacidade limitada do clero, como sugere a resposta do Dicastério ao afirmar a necessidade de uma formação mais aprofundada para os candidatos ao ministério. Reduzir o problema a uma abordagem emergencial seria ignorar sua importância mais profunda.
Os carismas, por outro lado, devem ser reconhecidos não apenas com base em um dom pessoal e formação adequada, mas também em resposta às reais necessidades da Igreja.
O nó das relações eclesiais
Uma dessas necessidades hoje é certamente a conversão das relações eclesiais. O Relatório Final do Grupo de Estudos 5 do Sínodo sobre a Sinodalidade observou que o clericalismo consiste também na "tendência de estender o modelo relacional da celebração eucarística à vida da comunidade eclesial". A centralidade do ministro ordenado na ação litúrgica corre, assim, o risco de ser inconscientemente projetada em toda a vida da Igreja, gerando modelos passivos de participação e relações assimétricas.
Se a Igreja realmente pretende adotar a sinodalidade como sua forma ordinária, a luta contra o clericalismo não pode se limitar a piedosas exortações espirituais. Medidas corretivas institucionais e ministeriais também são necessárias para ajudar as comunidades a pensar e viver vidas menos clericais. Nesse sentido, o reconhecimento dos ministérios leigos da Palavra poderia constituir uma dessas medidas corretivas, fomentando uma corresponsabilidade eclesial mais ampla.
Dessa perspectiva, até mesmo a alternativa frequentemente mencionada entre uma concepção "sacramental" do ministério e uma interpretação meramente "funcional" parece um tanto enganosa. Como sugere Paolo Gamberini, o risco é o de construir oposições conceituais que, em última análise, obscurecem a realidade concreta da vida eclesial. Poderíamos até falar de uma espécie de viés cognitivo: há uma tendência a identificar o caráter sacramental exclusivamente com o sacramento da Ordem, esquecendo que o batismo também pertence plenamente à estrutura sacramental da Igreja.
Em virtude do batismo
Os ministérios leigos não são simplesmente funções delegadas por necessidade pastoral. Eles são exercidos em virtude do batismo e da confirmação, isto é, em virtude dos sacramentos que configuram os fiéis a Cristo e os tornam participantes da missão eclesial. Se o ministério ordenado encontra seu fundamento sacramental na Ordem, os ministérios leigos encontram seu fundamento sacramental no batismo. A escolha entre "sacramental" e "funcional" parece, portanto, ao menos em parte, uma falsa escolha.
Dessa perspectiva, poderíamos vislumbrar o reconhecimento de um ministério da Palavra não ordenado, ou uma expansão dos ministérios estabelecidos de leitor e catequista, incluindo, sob condições bem definidas e sujeitas ao discernimento eclesial, formas de pregação homilética. Isso não seria uma liberalização indiscriminada, mas sim o reconhecimento eclesial de carismas já presentes e atuantes entre o povo de Deus.
Em última análise, o debate sobre a homilia leva a uma questão mais profunda: que tipo de Igreja queremos ser? Uma Igreja focada principalmente na distinção de papéis, ou uma Igreja que, embora preserve sua estrutura sacramental, saiba reconhecer e valorizar os carismas que o Espírito inspira na história?
Não se trata de opor instituição e carisma, ministério ordenado e ministério leigo. Trata-se, antes, de aprender a pensar neles em conjunto. Porque uma Igreja verdadeiramente sinodal não é aquela que controla o Espírito, mas aquela que reconhece os seus sinais.
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