09 Janeiro 2025
“O tempo para essa nomeação estava maduro”. Irmã Linda Pocher é a teóloga salesiana que, nos últimos meses, foi encarregada pelo Papa de organizar quatro encontros com os seus nove cardeais conselheiros, o chamado C9, para dissecar os nós do papel das mulheres na Igreja. As conversas foram publicadas pelas Paulinas em vários livros, o último dos quais intitulado Il potere e la vita (O poder e a vida, em tradução livre).
A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 07-01-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Para usar um termo que surgiu durante os seus encontros, a nomeação da Irmã Brambilla é um exemplo de como “desmasculinizar” a Igreja?
É um exemplo do que o Papa pode fazer. Contudo, é claro que não basta haver uma ou algumas mulheres prefeitas, assim como não basta uma única mulher chefe de governo para influir na vida de tantas outras mulheres que vivem situações difíceis. Os bispos, os párocos, todos nós devemos fazer a nossa parte.
Por que, na sua opinião, o Papa nomeou também um pró-prefeito?
Há situações em que alguém terá que presidir a uma ordenação ou a uma celebração eucarística e uma freira não o pode fazer, é preciso um sacerdote. Em todo caso, a prefeita é a freira. A ideia do Papa também poderia ser outra. Uma vez que a vida religiosa tem uma componente masculina e uma componente feminina, pode ser um bom desafio se essas duas pessoas puderem liderar o dicastério de forma colaborativa.
Não é necessário ter a ordem sagrada para desempenhar um cargo governamental?
Há uma longa tradição que fez coincidir esses dois aspectos. Mas os estudos elaborados nesse interim e também o processo sinodal levam a identificar tarefas administrativas e formas de ministerialidade que não requerem a ordenação. Há um movimento de "desclericalização" que visa não tanto a estender as prerrogativas das ordens sagradas às mulheres, mas sim desvincular ministérios e serviços que podem ser atribuídos a mulheres, mas também a leigos.
Acredita que essa nomeação tenha aberto um caminho?
Em minha opinião, sim, espero que sim. No Dicastério para os Leigos, a Vida e a Família, por exemplo, poderia haver um leigo, homem ou mulher, prefeito. Parece-me lógico que a primeira prefeita seja a superiora do Dicastério dos Religiosos, porque no mundo há mais religiosas mulheres do que religiosos homens. Não se trata de quotas cor-de-rosa, mas de colocar num serviço a pessoa que pode desempenhar bem esse serviço. Na constituição apostólica Praedicate Evangelium, o Papa esclareceu que, para ocupar cargos na Cúria, é preciso ser batizado e competente.
Os conservadores protestam: dizem que um prefeito só pode ser sacerdote.
Só um sacerdote pode administrar os sacramentos, isso é evidente. Além disso, historicamente, aqueles que escolhiam uma carreira eclesiástica optavam por uma formação superior e todos os cargos se concentraram nessas pessoas. Mas a sociedade atual é diferente, há pessoas leigas ou mulheres consagradas que estão muito bem preparadas e podem dar a melhor contribuição para uma determinada função ou serviço.
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