Vozes de Emaús: Como a espiritualidade pode reencantar a Política. Artigo de Marcelo Barros

Arte: Lauren Palma | IHU

13 Junho 2026

"E a Política se revelará como a arte brincante da beleza do cuidado e do carinho social. E, em nosso dia a dia, viveremos o ensaio dos novos céus e novas terras nos quais todos nós poderemos ver e sentir a morada divina no meio de nós. E o Amor Divino poderá, de novo, dizer: “Sou eu que faço novas todas as coisas” (Ap. 21, 5)."

O artigo é de Marcelo Barros, monge beneditino, teólogo e escritor, publicado em abril de 2026. Barros assessora movimentos sociais e comunidades eclesiais de base e é membro da Comissão Teológica da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo.


Marcelo Barros (Foto: Arquivo pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

A tarefa de reencantar a Política parece com histórias que nos contavam quando éramos crianças. Havia uma caverna e na caverna um tesouro, mas para chegar lá o herói ou heroína tinha de passar por sete dragões ameaçadores. De fato, não há como chegar à Política com P maiúsculo, como Helder Camara denominava, sem passar pela política com p minúsculo, que, na maioria das vezes, não passa de politicagem.

É difícil encontrar beleza e encanto nas armações políticas e arranjos que, no momento, parecem como necessários para quem quer ganhar eleições. Diante de pessoas que se dizem decepcionadas e não querem saber de Política, como ajudá-las a descobrir a Política como o mais belo exercício de convivência humana, se nos deparamos com a tragédia que é a configuração do atual Congresso brasileiro?

Seja como for, não há outra saída a não ser reencantar a política, ou seja, resgatar o seu propósito fundamental: a busca pelo bem comum e a construção da justiça social. Como toda espiritualidade humana vê na água o sacramento da presença divina e do renascimento contínuo da vida, é preciso descobrir na Política o seu DNA que é o amor social.

Há muitas dificuldades e obstáculos, mas não podemos ceder à descrença. É urgente denunciar a política do cinismo, discernir os verdadeiros políticos daqueles que são mercenários e ensaiar de novo a Política como espaço cotidiano de vivência do cuidado, do diálogo intercultural e da solidariedade, principalmente, com as camadas mais carentes da população e com os direitos da Mãe-Terra e da natureza.

De fato, o termo reencantar é muito apropriado, porque apela para uma transformação do nosso olhar e, ao mesmo tempo, provoca mudanças no objeto de nosso encantamento. Conforme Cervantes, Dom Quixote, o cavaleiro errante, ao olhar a prostituta Aldonza, vê nela a nobreza de uma dama e a chama de Dulcineia. Em torno, as pessoas consideram-no louco. No entanto, pouco a pouco, algo faz com que Aldonza tome consciência de que a visão daquele homem estranho não é apenas delírio. É revelação de algo submerso no mais profundo do seu ser e essa descoberta a faz caminhar em direção ao sonho que parece impossível. Assim, é a nossa tarefa de reencantar a Política: revelar a Dulcineia que existe oculta em toda Aldonza.

As comunidades indígenas reverenciam rios, montanhas e matas, como moradas dos encantados. Isso permite que, sem qualquer sinal de anormalidade psicológica, as pessoas possam conversar com as pedras, receber das árvores sua proteção e descobrir na correnteza do rio o chamado para o amanhã.

Assim como o povo de terreiro vê Iemanjá vindo sobre as ondas do mar para receber as flores que lhes são oferecidas e na lagarta pode-se, antecipadamente, vislumbrar a beleza da borboleta, vale a pena encararmos os obstáculos e resgatarmos o encanto da Política como exercício de amorosidade e caminho da realização do projeto divino no mundo.

Há muitos anos, o poeta Marcos Barbosa escrevia: “Varredor que varres a rua, tu varres o reino de Deus”. Nossa tarefa é essa: revelar que a sociedade, mesmo com todas as suas contradições, está grávida do espírito divino. Se o evangelho diz que a Palavra se fez carne, Pedro Casaldáliga dizia: fez-se índio. Podemos, hoje, dizer: faz-se política libertadora.

De fato, ocorre nova encarnação da divindade, (que as espiritualidades originárias chamam de encanto) onde e quando alguém ou algum pequeno grupo consegue contaminar com o sopro da amorosidade social qualquer ação política e essa rompe com a lógica da sociedade dominante e abraça o projeto da Vida, da justiça ecossocial e da Paz.

Em toda ação que leva à segurança alimentar, quem é cristão pode ver a mesa eucarística, preparada para a partilha do corpo divino e quem é de terreiro, sentir-se-á comungando com a comida de santo.

Em todo projeto de defesa dos direitos da classe trabalhadora, é a própria Páscoa de Jesus que se renova. Quem é pentecostal vibre com o Espírito que vem falar todas as línguas para expressar que a fé e a esperança podem acabar, mas o amor não passará (1 Cor 13).

Quem é de Candomblé, reviverá em nossos dias e, em cada conquista social e política, a tradição, conforme a qual Oxalá foi tirado da prisão e reempossado como rei. Cada direito político reconquistado é como a festa correspondente ao que, nos terreiros, festeja-se nas águas de Oxalá.  

Se nos unirmos para reencantar a Política, reencantaremos nossas relações afetivas, redescobriremos o encanto que torna belo cada sorriso e cada gesto de carinho. Saberemos que o tempo gasto no convívio é nossa melhor oração e toda  forma de amor vale a pena.

Reencantar a Política fará com que a elite do atraso compreenda que não investir em combustíveis fósseis é proteger o encanto divino na natureza e garantir a sustentabilidade da vida para os nossos filhos e nossos netos e netas. Ao pensar em oferecer um mundo mais sadio à geração que virá, ninguém mais, em sã consciência, quererá explorar novos poços de petróleo na foz do Amazonas, ou seja lá onde for.

E a Política se revelará como a arte brincante da beleza do cuidado e do carinho social. E, em nosso dia a dia, viveremos o ensaio dos novos céus e novas terras nos quais todos nós poderemos ver e sentir a morada divina no meio de nós. E o Amor Divino poderá, de novo, dizer: “Sou eu que faço novas todas as coisas” (Ap. 21, 5).

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