Vozes de Emaús: O mal-estar dos nossos dias. Artigo de Rosi Schwantes

Arte: Lauren Palma | IHU

06 Junho 2026

"No fim das contas, o mal-estar dos nossos dias não vem apenas de fora; ele dialoga com a nossa incapacidade de olhar para o lado com empatia real. Estamos vivendo tempos difíceis, sim. Mas, acima de tudo, são tempos que nos obrigam a parar, silenciar o barulho das redes digitais e fazer uma profunda, honesta e necessária reflexão sobre quem estamos nos tornando como sociedade e como indivíduos", escreve Rosi Schwantes.

O artigo é de Rosi Schwantes, doutora em Ciências da Religião e pós-doutora em Psicologia. Luterana, professora universitária do Centro Universitário São Camilo em São Paulo.

Rosi Schwantes | Foto: Arquivo Pessoal

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo.

Outro dia, eu estava refletindo sobre algo que aprendi logo cedo nas aulas de Psicologia. Algumas teorias preconizam que as pessoas deveriam, idealmente, passar a vida fazendo o que gostam, o que traz prazer e ou o que gera felicidade real. É uma perspectiva belíssima no papel, não acham? Mas aí a gente acorda na segunda-feira de manhã e se depara com a realidade: tarefas inadiáveis, boletos e muitas coisas para fazer. Como colocar isso em prática - a busca de prazer no cotidiano?

A verdade é que somos bombardeados por uma lista infinita de obrigações pragmáticas, tarefas que nos cansam e coisas que, sejamos honestos, não nos deixam nada felizes e passam bem longe de gerar qualquer tipo de satisfação. Viver virou uma sequência de ‘tenho que fazer’ em vez de ‘quero fazer’.

Diante disso, me propus um exercício: o que aconteceria se decidíssemos romper com tudo isso? E se, a partir de hoje, todo mundo resolvesse fazer única e exclusivamente aquilo que dá prazer? Viveríamos o caos perfeito. Quem respondeu a isso com maestria lá atrás, em 1930, foi Sigmund Freud no clássico O mal-estar na civilização. Ele foi direto: se agíssemos governados apenas pelo princípio do prazer, ‘nos devoraríamos a todos’. Freud não tirou essa conclusão do nada; ele estava dialogando implicitamente com a filosofia de Thomas Hobbes, pensador político que afirmava que o homem é o lobo do próprio homem. Se pararmos para pensar, essa dinâmica faz um eco perfeito com o texto bíblico bem realista de Jeremias 17:5, que avisa: “Maldito o homem que confia no homem” ou ‘pessoas que confiam em pessoas’. No fim das contas, a psicologia, a sociologia e a teologia estão apontando para a mesma direção.

Para a Psicanálise, a nossa cultura e as regras da sociedade funcionam como uma espécie de freio de mão. A civilização existe para reprimir e constranger os nossos impulsos mais primitivos, porque, por natureza, guardamos uma agressividade latente e bem perigosa. Freud desfez qualquer romantismo sobre a nossa espécie ao mostrar que, muitas vezes, não olhamos o nosso semelhante como um objeto de amor. Pelo contrário: sem as amarras das leis e da moral, o outro vira alguém vulnerável a ser humilhado, explorado, torturado e até destruído para o benefício próprio. É uma constatação pesada, eu sei, mas basta observar o que sobra quando as regras sociais colapsam.

O que me preocupa de verdade é olhar em volta e perceber que as pessoas estão reproduzindo essa hostilidade de um jeito muito intenso, fantasiado de ‘estilo de vida’ ou até ‘autoajuda’. Vemos todos correndo atrás da realização pessoal a qualquer custo, buscando o prazer individual e ignorando por completo as demandas do coletivo. Claro que não quero generalizar e dizer que todos são assim o tempo todo. Mas, usando a linguagem da própria psicanálise, o problema é que acreditamos estar agindo de forma totalmente consciente, quando, na verdade, estamos sendo controlados pelas forças do nosso inconsciente. É desconfortável olhar no espelho e constatar que nos tornamos profundamente individualistas. Vivemos voltados para nós mesmos, sem, por vezes, nos preocuparmos com a vida que pulsa ao nosso redor, com o futuro do planeta ou com o ambiente onde existimos. É a cultura da realização pessoal acima de tudo.

Na fé cristã, o caminho sugerido vai para o lado oposto. Sugere-se ter confiança na vida e cuidado com o que é coletivo. É por isso que os textos sagrados trazem aquele conforto tão conhecido de que “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus” (Rm 8:28). Só que, mesmo tendo fé, me pego num momento de desabafo e pergunto: será mesmo? Cooperam até mesmo diante de tantas rasteiras que a vida nos dá? Diante de tanta dor, tanto sofrimento escancarado, guerras inúteis e desvarios humanos? Fica difícil digerir essa conta em certos momentos.

Confesso que ando cansada. Dá um esgotamento mental, por exemplo, esperar por melhoras nas relações humanas, por ver as pessoas se tratando com o mínimo de dignidade. E o que falar das autoridades? Dá um desânimo ver quem deveria cumprir funções básicas e inequívocas em prol do povo, mergulhado em esquemas de corrupção e roubos ‘a torto e a direito’ - e vamos combinar, que é infinitamente mais ‘a torto’ do que ‘a direito’.

Nesse cenário complexo, há uma ala religiosa que prefere enfatizar que estamos vivendo os "últimos tempos". Podemos ver vídeos curtos nas redes digitais com pastores pregando um apocalipse iminente, apontando o dedo e dizendo: "Jesus está voltando! As profecias estão se cumprindo!".

Para ser bem sincera, fico extremamente incomodada com o que chamo de ‘Evangelho do Terror’, essa teologia do amedrontamento e da ameaça psicológica. ‘Olha o fim do mundo! Olha o julgamento final!’.  Parece que usam a palavra sagrada como uma ferramenta de coerção, para assustar os fiéis. O grande contrassenso é que essas mesmas pessoas que pregam desse jeito, a meu ver, um tanto agressivo, parecem cegas para os absurdos do cotidiano.

A atitude mais correta não deveria ser um autoexame minucioso? Em vez de olhar para o céu esperando o fim catastrófico, não deveríamos olhar para dentro de nós mesmos e perguntarmos: estamos cumprindo os ensinamentos práticos de Jesus no chão da vida?

Eu ando irritada, confesso. E desanimada também. Mas quero deixar claro: não estou desanimada com o Evangelho em si, mas sim com a pretensão arrogante de quem diz conhecer a Deus, mas trata a fé como se fosse uma barganha de balcão de negócios. É aquela teologia utilitarista de ‘faça esse sacrifício aqui e você será bem-sucedido ali’. Que lástima! Transformaram a boa-nova em um ‘bônus novo’, uma vantagem financeira, um passaporte VIP para o sucesso individual, baseado em uma espiritualidade também individual. Os jornais estão cheios de notícias de líderes religiosos comprometidos com o dinheiro, capazes de qualquer coisa por lucro. São tempos confusos e desanimadores, mas que exigem de nós uma reflexão urgente.

Para fechar, o que mais me tira do sério são as superficialidades que as pessoas usam para medir a espiritualidade alheia. Recentemente, recebi uma visita, de postura muito rígida, que começou a desabafar: “As pessoas não querem nada com nada na fé, só pensam em si mesmas!”. Até aí, eu quase concordei. Mas ela continuou: “Você acredita que na igreja que eu frequento as mulheres vão com roupas decotadas, inadequadas? E o pior: o meu pastor não usa terno para pregar! É uma falta de compromisso total!”. Eu olhei para aquilo e pensei: sério mesmo? Desde quando usar um terno ou o comprimento de uma roupa virou o termômetro do compromisso com o Evangelho?

Lembrei-me na hora do meu querido professor Jaci Maraschin. Ele costumava dizer que certas atitudes ou expectativas na religiosidade das pessoas são "apenas perfumaria". Ele estava criticando o foco na realidade objetiva, exterior, como usos e costumes, por exemplo, esquecendo-se da profundidade subjetiva, de focar no que realmente sustenta nossa fé e prática.

Fico pensando se essas pessoas, tão obcecadas com o arrebatamento ou outros temas teológicos, entenderam o real significado do retorno de Jesus, ou se reduziram a vivência comunitária da fé a uma espécie de clube social de encontros dominicais. Há uma arrogância velada no discurso daqueles que se antecipam dizendo: 'Ele vem buscar a Igreja, nós estamos prontos!'. Mas qual seria o critério dessa prontidão? Por acaso já superamos a nossa inclinação histórica de fazermos acepção de pessoas? Cuidamos dos pobres com a urgência e a radicalidade que o Evangelho pede? Ou ainda preferimos gastar o tempo criticando e desumanizando quem depende de programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, para simplesmente sobreviver?

No fim das contas, o mal-estar dos nossos dias não vem apenas de fora; ele dialoga com a nossa incapacidade de olhar para o lado com empatia real. Estamos vivendo tempos difíceis, sim. Mas, acima de tudo, são tempos que nos obrigam a parar, silenciar o barulho das redes digitais e fazer uma profunda, honesta e necessária reflexão sobre quem estamos nos tornando como sociedade e como indivíduos.

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade Líquida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na cultura. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.

HOBBES, Thomas. Leviatã: ou a matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

MARASCHIN, Jaci. A estética da religião. São Paulo: Paulinas, 2000.

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