Uma multa de US$ 1.820.352 e 15 dias para pagar: as penalidades exorbitantes com que Trump está assediando os migrantes

Foto: ONU

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29 Mai 2026

Rosa fez dois pedidos específicos ao marido caso seja deportada para a Guatemala: que ele lhe envie suas panelas e frigideiras e que economize dinheiro para o seu funeral. "Eu iria para lá para morrer", diz essa imigrante indocumentada que luta para se recuperar de um AVC que quase lhe tirou a vida desde janeiro. O governo Trump a tem na mira: há alguns dias, ela recebeu pelo correio uma multa de US$ 1,8 milhão por descumprir uma ordem de saída voluntária emitida em 2013. Este não é um caso isolado: mais de 65 mil imigrantes receberam cartas com multas exorbitantes que totalizam US$ 36 bilhões. Organizações e especialistas consideram a medida inconstitucional, extremamente cruel e uma forma de tortura psicológica.

A reportagem é de Isaías Alvarado, publicada por El País, 28-05-2026. 

"Passo o tempo todo chorando, me sinto muito triste. Acho que não vou conseguir voltar para a Guatemala porque não posso ficar sem meus remédios e não consigo trabalhar porque me canso demais só de andar", lamenta Rosa, que falou sob condição de anonimato. A migrante mora com o marido em um pequeno apartamento em Los Angeles, Califórnia, e toma diariamente um coquetel de medicamentos para diabetes, pressão alta e as sequelas do AVC que exigiu uma cirurgia de emergência. A multa milionária imposta pelo Departamento de Segurança Interna (DHS) no fim de março a deixou ainda mais fragilizada, conta a mulher de 50 anos. "Quando vêm entregar meus remédios, acho que são da imigração. Não quero abrir a porta, não quero sair."

A dívida exata de Rosa com o governo dos EUA é de US$ 1.820.352, um valor que seu marido — o único provedor da família — levaria quase 38 anos para pagar se dedicasse todo o seu salário mensal de US$ 4.000. Ele trabalha como frentista em um posto de gasolina e metade de sua renda é destinada ao aluguel. Ele também é imigrante indocumentado. "Não tenho dinheiro nem para enviar minhas coisas de volta para o meu país", exclama Rosa, com a voz embargada. O DHS estabeleceu um prazo de apenas 15 dias para o pagamento. A única alternativa que oferecem para cancelar a multa é deixar o país o mais rápido possível.

"Eles não têm dinheiro para cobrir essa quantia"

As multas aplicadas a imigrantes indocumentados fazem parte da controversa estratégia de Donald Trump para controlar a imigração além das deportações. No mesmo dia em que iniciou seu segundo mandato, o republicano assinou uma ordem executiva autorizando o DHS a cobrar essas multas. Desde seu primeiro mandato (2017-2021), Trump tentou implementar a iniciativa, baseada em uma lei de imigração promulgada em 1996, mas sem sucesso. O governo Biden posteriormente revisou a medida e concluiu que as penalidades eram excessivamente punitivas e ineficazes.

A estratégia do DHS envolve a imposição de multas de até US$ 1.000 por dia para cada imigrante que permanecer nos EUA após receber uma ordem de saída voluntária. A penalidade tem um limite de cinco anos. É por isso que muitos devem o mesmo valor: US$ 1,8 milhão. No entanto, o governo alerta que a dívida pode continuar a crescer devido a "juros, custos administrativos e multas por atraso".

Desde a primavera de 2025, o DHS vem enviando cartas notificando os migrantes sobre essas sanções econômicas. Mas não está claro se a medida produziu os resultados esperados. A agência não respondeu às perguntas enviadas sobre quanto dinheiro arrecadou ou como o fez. Também não divulgou quantos migrantes optaram por retornar aos seus países de origem para resolver a questão. "Nossa mensagem é clara: estrangeiros que estão no país ilegalmente devem sair agora ou enfrentar as consequências", afirmou o DHS em um breve comunicado.

Organizações de defesa dos migrantes afirmam que o governo Trump confiscou salários de indivíduos com essas dívidas. Outras medidas que estão sendo consideradas pelo DHS, de acordo com as cartas, incluem encaminhar as dívidas para agências de cobrança privadas; reportá-las a instituições financeiras, o que poderia afetar negativamente o histórico de crédito; ou transferir os casos para o Departamento de Justiça para litígio. As cartas também alertam que o descumprimento das exigências será levado em consideração na rejeição de futuros pedidos de regularização imigratória.

"O governo pode tentar confiscar dinheiro dos salários, penhorar uma casa ou até mesmo contas bancárias", explica Raquel Kuronen, advogada de imigração. "Faz parte da estratégia do governo Trump para pressionar os imigrantes de diversas maneiras." O escritório de advocacia de Kuronen em Los Angeles representa cerca de 70 imigrantes que receberam essas multas, o que corresponde a aproximadamente 40% de sua clientela. Nenhum deles pagou um centavo sequer. "Eles não têm dinheiro para cobrir esse valor", afirma a advogada. Especialistas recomendam que os migrantes busquem aconselhamento jurídico o mais rápido possível e respondam a essas notificações do DHS antes do prazo de 15 dias, apresentando uma objeção formal à multa.

A tortura de Felipe

Felipe, um mexicano de 47 anos que vive no sul da Califórnia, também tem uma dívida de US$ 1,8 milhão. O imigrante, que trabalha na construção civil, cogitou colocar seus veículos no nome dos filhos e sacar o pouco dinheiro que tem no banco, prevendo ações mais agressivas do governo. Ele recebeu a carta do DHS em 7 de maio e não consegue encontrar paz de espírito desde então. "Isso mudou minha vida. Eu não gostaria de arruinar a vida dos meus filhos", diz ele entre soluços. "Se meus filhos já tivessem terminado os estudos e pudessem se sustentar, eu me aposentaria, sem ter que passar por esse tormento. Mas minha missão ainda não acabou."

Quando Felipe abriu a carta enviada pelo DHS e viu o número, pensou que poderia ser algum código relacionado ao seu antigo pedido de asilo. "Olhei com mais atenção e disse: não, isto é uma multa. Pensei que nunca a receberia." Ele acabou nessa situação porque, em 2001, um ano depois de emigrar de Guadalajara, um tabelião prometeu regularizar seus documentos, mas nunca explicou que a estratégia envolvia entrar com um pedido de asilo, algo que raramente era concedido a mexicanos naquela época. Mais tarde, ele recebeu uma autorização de trabalho e um número do Seguro Social. Tudo parecia estar indo bem até a audiência no tribunal de imigração, onde um juiz lhe disse que seu caso não tinha fundamento. "Devemos deportá-lo ou você sairá voluntariamente?", perguntou o juiz. Felipe escolheu a segunda opção, acreditando que se esconder da polícia de imigração seria suficiente. Mas a multa deixou claro que as autoridades sabiam exatamente onde ele estava.

"Estou constantemente em alerta. Toda vez que saio de casa, faço o sinal da cruz e digo: 'Que seja feita a vontade de Deus'. Estou sempre olhando para todos os lados. Já me deparei com agentes da imigração, mas eles não me prenderam", diz Felipe.

Rosa, a guatemalteca, acabou no radar do ICE em circunstâncias semelhantes. Tendo chegado recentemente a Los Angeles na década de 1990, ainda adolescente, ela foi levada a um escritório jurídico para abrir um pedido de asilo. Ela pagou milhares de dólares, mas abandonou o processo por falta de recursos. Mesmo assim, conseguiu obter uma autorização de trabalho que lhe permitiu encontrar emprego em fábricas e linhas de montagem. Em 2013, ela tentou reabrir seu caso, mas sem sucesso. "Eles nunca me disseram que havia uma ordem de deportação contra mim. Só descobri quando recebi a multa."

"Uma dívida que os levará à ruína"

Os advogados que defendem os migrantes com essas dívidas estão baseando seus casos em três argumentos: provar que seus clientes não eram um encargo público, que nunca souberam que as multas poderiam aumentar ao longo dos anos para milhões de dólares e que circunstâncias atenuantes os impediram de retornar aos seus países. "Queremos provar que não foi deliberado, que talvez eles nunca tenham recebido notificação judicial quando uma ordem de deportação foi emitida à revelia (sem a presença do migrante). Talvez estivessem doentes, presos, tivessem um parente doente, algo aconteceu", explica Kuronen.

No fim de 2025, organizações civis entraram com uma ação coletiva em nome de duas migrantes que haviam sido multadas, identificadas como Maria L. e Nancy M., residentes de Massachusetts e Flórida. A ação judicial inclui o DHS, o Serviço de Imigração e Alfândega (ICE), a Alfândega e Proteção de Fronteiras (CBP) e ex-funcionários do governo Trump, como Pam Bondi e Kristi Noem. De acordo com esse processo legal, as agências federais estão impondo essas penalidades civis sem analisar se elas são apropriadas em cada caso individual — por exemplo, revisando por que a pessoa não retornou ao seu país — e estão fazendo isso sem realizar julgamentos com júri. "Se não forem contestadas, essas multas levarão Maria L., Nancy M. e milhares de outras pessoas… a dívidas ruinosas, em violação à Constituição" e à Lei de Imigração, argumenta o processo. O objetivo da ação, que ainda está sendo litigada em um tribunal federal em Massachusetts, é obter uma liminar para suspender a cobrança das multas.

"Com esta administração, tudo pode acontecer, e é aí que você percebe que o interesse deles não é resolver problemas, mas sim assediar e intimidar imigrantes para forçá-los a se autodeportarem", afirmou Jorge Mario Cabrera, porta-voz da Coalizão pelos Direitos Humanos dos Imigrantes de Los Angeles (CHIRLA). "Não é justo, porque nosso povo é trabalhador e não tem como pagar essas multas."

Rosa, a migrante guatemalteca, diz que procurou escritórios de advocacia e a sede de uma organização pró-imigrantes em Los Angeles para analisar seu caso. Todos recomendaram que ela retornasse à Guatemala, alertando-a de que, se não fosse embora, o governo "a processaria para receber o dinheiro". Ela perguntou a um advogado se seria uma boa ideia se mudar para sair do radar do ICE. A resposta do advogado a deixou atônita: "Vou fingir que não ouvi nada."

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