13 Mai 2026
O artigo é de Massimo Recalcati, psicanalista italiano, publicado por La Repubblica, de 07-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
O nome de Gustave Le Bon tem sido uma presença constante ao longo do século XX. Em particular, sua obra "A Psicologia das Multidões", publicada em 1895, constitui um dos fundamentos teóricos de "A Psicologia das Massas" e "A Análise do Eu", de . O próprio Mussolini reconheceu abertamente sua dívida para com esse texto, vendo em suas reflexões uma chave crucial para a compreensão da força político-emocional das massas. A principal intuição de Le Bon é pensar a massa não como a soma de indivíduos, mas como um verdadeiro fenômeno coletivo.
A massa, em primeiro lugar, oblitera as individualidades, oferecendo-lhes a ilusão de um pertencimento que as libertaria da angústia que a responsabilidade subjetiva acarreta. Não por acaso o autor destaca a natureza fundamentalmente regressiva da massa: as pulsões mais primordiais (violência, ódio, fanatismo, paixão cega, idolatria emocional) podem ser desencadeadas sem que jamais haja um verdadeiro responsável. No centro não existe a dimensão ética da escolha individual porque toda massa é formada por "contágio", reduzindo o limiar crítico do pensamento para intensificar um impulso em direção à ação irracionalmente passional. A massa absorve as individualidades singulares em um sujeito coletivo acéfalo que oferece a seus membros uma identidade granítica: a renúncia à liberdade individual é compensada pela garantia de uma proteção inabalável.
Freud radicalizou a intuição de Le Bon ao demonstrar como a massa sempre se organiza em torno de um processo inconsciente e vertical de identificação: para se constituir, ela precisa de um cabeça, de um líder autoritário, de uma figura capaz de ocupar o lugar do "pai primordial". É essa identificação, e somente ela, que, em última análise, estabelece os laços libidinais que unem as massas como se fossem um único grande corpo. Não basta que os indivíduos estejam juntos: eles precisam amar uma única imagem, um único líder, se reconhecer em um único emblema identitário.
Em nosso tempo, porém, a massa não se assemelha mais ao concreto armado que caracterizara as grandes massas totalitárias do século XX; não é mais um bloco monolítico. Em vez disso, assistimos ao fenômeno de sua radical atomização: a massa que se organiza em torno do novo poder das redes sociais não parece mais ter um dono, um líder com quem se identificar, um pai primordial como alicerce. O concreto armado que constituía as massas novecentistas dá lugar a um enxame oscilante. A dispersão rizomática prevalece sobre a concentração identitária.
As redes sociais representam o laboratório mais evidente dessa metamorfose: a multidão digital não possui mais necessariamente um centro estável, mas se desdobra por meio de rápidas propagações, identificações intermitentes e súbitas explosões emocionais. O ódio coletivo pode se condensar por alguns dias em torno de um alvo e, em seguida, dispersar-se imediatamente em direção a um novo objeto.
A cultura ocidental, dominada pelas novas tecnologias, dissolveu o fenômeno novecentista da massa como uma entidade compacta, estudado pelos teóricos citados. Contudo, essa atomização da massa contemporânea deve levar cada vez mais em conta o retorno de pais-primordiais, de líderes ordálicos (Putin, Trump, Netanyahu, Khamenei) que pretenderiam reanimar a antiga massa identitária.
Por um lado, temos a massa-enxame que caracterizaria o mundo ocidental na época do domínio da cultura-redes sociais e, por outro, a massa identitária como retorno do espectro totalitário. O fenômeno da guerra não pode, de fato, ser concebido a partir da atomização da massa, mas apenas de sua compactação identitária. Trata-se de um mesmo impulso para compactar a angústia coletiva em torno de imagens fortes de identidade, nação, inimigo, pertencimento.
Assim, nos deparamos com dois fenômenos aparentemente antagônicos: de um lado, a massa-enxame da cultura digital ocidental; do outro, o retorno da massa identitária organizada em torno de líderes ordálicos.
Na realidade, esses dois fenômenos não são mutuamente exclusivos: a atomização neoliberal da massa produz sujeitos cada vez mais expostos à angústia, à precariedade e à solidão. E é precisamente essa fragilidade generalizada que possibilita o retorno pulsional de identificações sólidas. Quanto mais disperso o indivíduo se sente, mais deseja uma identidade rígida capaz de protegê-lo da incerteza.
Na Europa dominada pelo individualismo neoliberal, pelo império da cultura digital, portanto, pela atomização rizomática das massas, a necessidade de rearmamento — provocada pela atual desestabilização da ordem geopolítica — desponta para muitos como um retorno espectral do passado.
A guerra sempre exige uma construção coletiva da identidade, à qual deve corresponder a identificação de um inimigo igualmente estável que permita um vínculo emocional capaz de converter a angústia individual em pertencimento fusional.
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