O extremismo politiza até as bactérias. Artigo de Moisés Mendes

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12 Mai 2026

Um detergente que não limpa, mas leva micróbios para dentro das casas, acionou a fúria dos tios e das tias do zap.

O artigo é de Moisés Mendes, jornalista, publicada por ExtraClasse, 11-05-2026. 

Eis o artigo. 

Essas eram até agora as grandes pautas envolvidas em controvérsias à esquerda e à direita: a anistia e a redução de penas dos golpistas, o fim da escala 6X1, as máfias das emendas parlamentares e a ameaça de impeachment de ministros do Supremo.

Agora, o gatilho da guerra de bolsonaristas contra lulistas é um detergente. O sabão líquido Ypê divide os brasileiros, depois do alerta da Anvisa de que parte dos produtos da marca está contaminada por bactérias.

A saúde pública foi mexer logo com o detergente de Michelle Bolsonaro e de milhares de ativistas de extrema-direita nas redes sociais. Um detergente, que deveria ajudar a eliminar germes e bactérias, dissemina bactérias.

É uma denúncia provada e admitida pela própria empresa. Mas não pelo bolsonarismo militante. A Ypê não lida com alimentos. Imaginem se lidasse. Lida com sabão, com o produto consagrado desde tempos bíblicos como o melhor recurso contra a sujeira.

Michelle fez postagem nas redes sociais, logo depois da propagação da notícia da contaminação, com a foto de uma garrafa do detergente no pátio de uma casa com piscina ao fundo. E essa saudação fixada num céu azul ao lado do desenho de um sol: “Que dia lindo”.

Abaixo da garrafa, escreveu: “Por aqui só usamos Ypê”. Ao lado, emojis de palminhas. Vários bolsonaristas seguiram Michelle com depoimentos e vídeos grotescos, como o de um sujeito mamando numa garrafa de detergente.

Por que essa propaganda tão enfática? Porque os donos da Ypê são assumida e terrivelmente bolsonaristas. Michelle teve de defender a marca de uma ação que parte da extrema-direita brasileira considera injusta. E no Dia das Mães.

Mas a ex-primeira-dama cuida de um homem doente, com problemas crônicos. Leiam o que o jornal O Globo publicou sobre a contaminação a partir de informações do diretor do Centro de Vigilância Sanitária de São Paulo, Manoel Lara:

“Foi detectada (na fábrica) a presença da bactéria Pseudomonas aeruginosa em amostras de produtos feitos no ano passado. Esse patógeno não é altamente contagioso, mas oferece risco porque costuma infectar pessoas com baixa imunidade. É um organismo relativamente comum em casos de infecção hospitalar, afetando sobretudo o pulmão, e particularmente em pacientes com fibrose cística”.

Michelle cuida de uma pessoa com baixa imunidade. A bactéria pode ser fatal se atacar os pulmões de alguém fragilizado. Bolsonaro é um doente crônico e já foi internado esse ano com problemas pulmonares provocados pelo que os médicos definiram como uma grave broncopneumonia bacteriana.

Numa situação considerada normal, não seria razoável que alguém pudesse exaltar as qualidades de um produto comprovadamente contaminado, com orientação da Anvisa para que não seja usado. Mas o que vivemos, há muito tempo, é uma situação anormal. Até as bactérias sabem.

Tão anormal que se estabeleceu nas redes uma guerra do bolsonarismo contra a decisão da Anvisa. E a situação ficou mais absurda quando, a partir de um recurso administrativo da Ypê contra a suspensão da produção, a fábrica poderia ser liberada a continuar produzindo os detergentes.

O consolo é que os próprios fabricantes, mais transparentes do que o bolsonarismo, teriam preferido manter a produção suspensa, até a adequação das instalações às exigências da saúde pública.

E esse é o novo cenário do ativismo de extrema-direita no Brasil. Grupos se organizam em torno de Michelle Bolsonaro para desafiar, com postagens nas redes sociais e turmas de tios e tias do zap, uma medida tomada em nome da preservação de vidas. Um detergente que não limpa, mas leva sujeira para dentro das casas, acionou a fúria do bolsonarismo.

E assim o Ypê se transforma na nova cloroquina da direita. Para defender um empresário aliado da família Bolsonaro, a mulher de Bolsonaro mobiliza as redes para avisar: aqui usamos esse detergente. Mesmo que a Anvisa diga que tem bactérias.

Num país sob normalidade, uma pessoa comum que incentivasse o uso de produto interditado por ameaçar a saúde pública seria pelo menos chamada a dar explicações.

Em 2021, foram citados no relatório da CPI da Pandemia, com pedido de indiciamento, dezenas de acusados de crime por incentivo ao uso da cloroquina, sem comprovação científica, contra a covid.

É incitação ao crime, previsto no artigo 286 do Código Penal. Os únicos denunciados pelo Ministério Público, pelo uso inadequado de cloroquina e outros produtos e procedimentos, foram os diretores e médicos da Clínica Prevent. Nenhum foi condenado até hoje.

Michelle disse que na casa dela só usa Ypê. O vice-prefeito de São Paulo, Ricardo Mello Araújo (também bolsonarista do PL), e o véio da Havan fizeram a mesma coisa. Quem conseguirá enquadrá-los pela propaganda de um produto contaminado? Quem conseguirá provar que assim ela e ele incitaram o uso de um detergente com bactérias?

Não vai acontecer nada, como não aconteceu com os vampiros das vacinas e da cloroquina. As vendas do Ypê podem explodir. Vamos esperar a próxima controvérsia do bolsonarismo, que consegue ‘politizar’ até as bactérias.

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