A OMS se defende dos ataques de Trump e Milei em relação ao surto de hantavírus

Javier Milei e Donald Trump | Foto: The White House/Flickr

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13 Mai 2026

A Organização Mundial da Saúde (OMS) tem enfrentado a crise do hantavírus no navio MV Hondius, agravada pela retirada do apoio dos EUA e da Argentina. A Argentina é uma das prováveis fontes do surto inicial. Os EUA foram obrigados a repatriar 17 cidadãos de Tenerife, um dos quais foi colocado sob medidas especiais após um teste inicial com resultado levemente positivo, embora o resultado final tenha sido negativo.

A reportagem é de Raúl Rejón, publicada por elDiario.es, 12-05-2026.

O Diretor-Geral da OMS, Tedros Adhanom, acredita que a crise do hantavírus demonstra a necessidade de um sistema internacional de saúde como a organização que ele lidera: "Os vírus não se importam com a nossa política, as nossas fronteiras ou quaisquer desculpas que possamos ter", lembrou recentemente. "A melhor imunidade que temos é a solidariedade", enfatizou também.

É por isso que Adhanom acredita que este surto pode amenizar os ataques frontais que a extrema-direita internacional, liderada por Donald Trump e Javier Milei, está dirigindo à OMS. Pode até levá-los a reconsiderar sua retirada. Ambos os governos já se apressaram em, mais uma vez, difamar a OMS.

Alberto Infante, ex-funcionário da organização e ex-diretor-geral da Agência de Qualidade e Regulação Profissional, Coesão e Alta Inspeção do Sistema Nacional de Saúde, declarou ao elDiario.es que "essas duas administrações decidiram colocar seus preconceitos acima das evidências científicas e do bom senso. Elas não são muito receptivas à racionalidade, portanto não é razoável esperar que mudem seus critérios em curto prazo".

"Este caso demonstra que, se não existisse a OMS, ela teria que ser criada. A situação das mudanças climáticas, a alteração nos padrões de distribuição de doenças e uma população que viaja mais e para habitats antes inacessíveis tornam um mecanismo global de governança e gestão de riscos ainda mais necessário", afirma Alberto Infante.

No entanto, a realidade é que a organização está operando em 2026 com um orçamento 20% menor: caiu de US$ 5,3 bilhões para US$ 4,2 bilhões. Essa redução foi causada pelos US$ 600 milhões que os EUA deixaram de contribuir e agravada pelos cortes resultantes da realocação de gastos de muitos estados-membros para armamentos. "Apesar de nossos esforços, chegamos a um ponto em que não temos outra opção a não ser reduzir nossos programas e nossa equipe", admitiu Adhanom por escrito.

Salvador Peiró, epidemiologista da Fisabio, explica que "embora países com bons sistemas de saúde pública, como a União Europeia, a Grã-Bretanha, a Austrália ou a Nova Zelândia, não precisem da OMS diretamente em seus territórios, precisam dela para reduzir os riscos provenientes de outros países com sistemas mais deficientes".

Regulamento Sanitário Internacional

A operação do MV Hondius envolveu a chegada a bordo de um especialista da OMS "para colaborar na avaliação médica", a coordenação do "envio de 2.500 kits de diagnóstico da Argentina para laboratórios em cinco países para reforçar a capacidade de testagem", bem como a preparação das "diretrizes operacionais" para o desembarque em Tenerife.

"Este evento destaca a importância do Regulamento Sanitário Internacional", do qual Estados-membros da OMS, como a Espanha, são signatários, enfatiza a agência da ONU. Este regulamento é "o conjunto de regras que define os direitos e obrigações dos países na resposta a emergências de saúde pública que podem ultrapassar fronteiras". Trata-se de um "instrumento juridicamente vinculativo do direito internacional".

"Os regulamentos são um dos pontos fortes da OMS e permitiram estipulações acordadas que nos possibilitaram lidar com esta crise do hantavírus de forma relativamente rápida e com um mecanismo predeterminado e previsível", explica Alberto Infante. Esses regulamentos estabeleceram o primeiro ponto de chegada, como os especialistas acessariam o país e as etapas subsequentes. "Eles trouxeram muita segurança às autoridades e ao público em um caso com tanta atenção da mídia."

Salvador Peiró resume que o papel da OMS como escudo externo "é muito importante no mundo atual, com sua extraordinária mobilidade. E, por outro lado, quanto pior o sistema de saúde pública de um país, mais a OMS desempenha um papel internamente". Além disso, a OMS "realiza uma série de procedimentos necessários, como classificar as causas de morte, definir certas doenças e padronizar as estatísticas entre países que, de outra forma, nem sequer seriam capazes de comparar seus dados".

Nenhum remorso por parte dos ultras

Assim, o próprio Diretor-Geral da OMS, à luz dos fatos, viu essa crise sanitária internacional como uma oportunidade para convencer os EUA e a Argentina a retornarem à organização da qual, afinal, se beneficiam sem contribuir. "Acho que eles reconsiderarão suas decisões porque poderão ver o quão importante é a universalidade para a segurança sanitária", declarou publicamente.

Não há dúvidas: o presidente dos EUA, Donald Trump, insistiu que, longe de se arrepender de seu discurso de posse anunciando a saída dos Estados Unidos da OMS, ele está satisfeito: "Estou contente. Estávamos dando a eles 500 milhões de dólares por ano e eles não nos tratavam muito bem. Estavam fazendo diagnósticos errados."

Na Argentina, além de negar que a infecção no Hondius tenha se originado em seu território, o governo de Javier Milei criticou duramente a organização: "A OMS está mais uma vez colocando a política acima das evidências e tentando usar um evento sanitário extraordinário para condicionar uma decisão soberana da Argentina."

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