18 Abril 2026
“Deus escreve reto por linhas tortas", dizem na Cúria. O ataque de Trump coincide com a viagem de Leão XIV à África, que reitera: "A paz não é um slogan; não deve se basear em ameaças e armas. Os governantes devem ter a mente lúcida e a consciência íntegra; são necessárias pontes". O cardeal Marcello Semeraro observa ao La Stampa: "Não com a prepotência da voz grossa, mas com o diálogo da voz fraca. De uma terra de martírio, o testemunho do Papa ressoa ainda mais significativo em relação ao falatório vulgar e constrangedor do magnata." O pragmatismo manso de Prevost como método para desarmar a bomba Trump. "Não poderia haver lugar melhor do que a Argélia para manter a posição", afirma o Bispo Domenico Mogavero. "De um dos países do mundo que mais duramente persegue os cristãos, Leão se confirma como o Papa de dois mundos e uma ligação entre o Ocidente e os continentes emergentes."
A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no jornal La Stampa, 16-04-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Nenhum passo atrás "diante da estratégia supremacista de Trump e Netanyahu que coloca a Igreja em sua mira. Primeiro, em Jerusalém, o Santo Sepulcro é barrado para os líderes espirituais dos católicos da Terra Santa, perdendo a simpatia até mesmo aqueles como o governo italiano, que relutam em falar de genocídio, violências na Cisjordânia e limpeza étnica em Gaza. Depois, Trump, já arrependido de ter se deixado arrastar por Israel para um conflito sem solução no Irã, coloca o Papa na mira para desviar a atenção de mais um atoleiro EUA depois da Coreia, Vietnã, Canal de Suez, Iraque, Afeganistão e Síria. A Venezuela não pode ser replicada." A Santa Sé se retrai da tentativa desajeitada de envolvê-la na confusão das polêmicas. "A lógica do Papa não é partidária, é a alta política dos valores universais: defesa da vida, centralidade da pessoa, rejeição da guerra e da agressão. Um antídoto para o veneno de Trump e Netanyahu, novo horizonte para o resto da humanidade. As negociações já são uma vitória para o Irã, o jogo de empurra e puxa em estilo oriental será seguido pela fuga estadunidense. O Papa se faz voz dos cristãos do Oriente sem ofuscar os patriarcas católicos e ortodoxos locais”.
Um jogo que de Roma e Washington se estende a Israel e à questão dos cristãos do Oriente
Mogavero destaca: "Leão XIV atualiza a lição de Karol Wojtyla, que, apesar de ser aliado dos EUA para derrubar o Muro de Berlim, depois se opôs à intervenção no Golfo por causa do fundamentado temor de que os caldeus do Iraque pagariam o preço, como acabou acontecendo." Com cristãos em fuga da Síria e sob ameaça no Líbano, as minorias no Oriente Médio correm o risco de desaparecerem”. O efeito bumerangue geopolítico dos insultos de Trump a Prevost é ter recompactado o catolicismo em torno do Trono, incluindo as franjas hostis a Francisco. Leão é "uma figura internacional de referência moral, também para os não cristãos". O padre Filippo Di Giacomo, canonista e analista de assuntos eclesiásticos, enquadra o "erro colossal de avaliação de Trump” dentro de uma "subestimação das estruturas e alianças tribais que no Oriente Médio e no Magreb são o pré-requisito para qualquer verdadeiro tecido social". Ao atacá-lo, o líder estadunidense "não entendeu que o Pontífice, desvinculado de qualquer vassalagem, mesmo da superpotência de onde provém, é percebido como amigo de todas as estruturas sociais, e é com esse perfil que ele se manifesta concretamente universal, ensina como enfrentar àqueles que confundem mansidão com fraqueza".
Erro também cometido pelo Estado de Israel, que, segundo o padre Di Giacomo: "após o reconhecimento mútuo formal com a Santa Sé, colocou em xeque quase a totalidade das propriedades eclesiásticas católicas, ortodoxas gregas e armênias, angariando apenas antipatias, suspeitas e sentimentos antissemitas." Leão XIV "consegue falar e ser ouvido, mesmo de um país considerado opressivo como a Argélia, onde até três meses atrás não havia sequer um núncio apostólico, tendo como força institucional apenas a credibilidade conquistada no terreno por meio da mediação entre os quatro bispos residentes e as autoridades estatais."
Uma receita universalmente apreciada, visto que, com sua "forma de governo puramente instrumental, o Vaticano, um Estado de 46 hectares e algumas centenas de cidadãos nominais, mantém relações diplomáticas com 187 dos 193 países representados na ONU, animando assim uma espécie de assembleia geral onde os países marginalizados são livres para apresentar instâncias às quais as potências hegemônicas do Conselho de Segurança das Nações Unidas negam atenção. A ‘persuasão moral’ da Santa Sé oferece a qualquer um o espaço que os órgãos supranacionais censuram."
É o método iniciado há dois séculos no Congresso de Viena, pelo Secretário de Estado Consalvi, que "em vez de exigir a devolução dos territórios tomados por Napoleão, obteve o reconhecimento internacional para a Santa Sé, podendo assim firmar concordatas também com os estados luteranos da região germânica."
Foi aí que nasceu "o multilateralismo de Prevost, que enfurece Trump e que quase custou à Santa Sé a expulsão da ONU, evitada durante a presidência de Obama graças à sua contribuição para a cultura diplomática contemporânea". O pe. Di Giacomo especifica: "O eixo do mundo deslocou-se para o Oriente, o relógio do Vaticano já não está no meridiano de Greenwich, a Igreja atual é apenas 22% ocidental, a longa marcha em direção a Pequim incluiu o acordo assinado pelo Cardeal Parolin com o Vietnã e as novas experiências culturais e espirituais incorporadas pelas Igrejas asiáticas. O tabuleiro de xadrez da Santa Sé já foi rearranjado, e Trump, mais do que Prevost, tem em vista a Igreja multilateral que transcende arranjos de poder atuais e, como paradoxalmente demonstrado pelo primeiro Papa EUA, pode dizer ao mundo que não há necessidade de temer quem late para a lua nos jardins de Washington”.
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