A transformação do mapa religioso na América Latina: uma questão de fé. Artigo de Mario J. Paredes

Foto: cgallardooyarzun/Pixabay

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12 Março 2026

A transformação do panorama religioso na América Latina é um dos processos socioculturais mais significativos do século XXI. A questão é: que formas a assume e que função social ela desempenha em sociedades cada vez mais diversas?

O artigo é de Mario J. Paredes, diretor executivo da SOMOS Community Care, publicado por Religión Digital, 11-03-2026.

Eis o artigo.

A transformação do panorama religioso na América Latina é um dos processos socioculturais mais significativos do século XXI. A questão é: que formas a fé assume e que função social ela desempenha em sociedades cada vez mais diversas?

O Brasil, país com a maior população católica do mundo durante grande parte do século XX, ilustra claramente essa mudança. A queda de aproximadamente 20 pontos percentuais na identificação com o catolicismo reflete uma tendência em direção a igrejas evangélicas e pentecostais que oferecem fortes redes comunitárias, apoio diário e soluções práticas para problemas sociais. Esse fenômeno está ligado a processos de rápida urbanização, desigualdade estrutural e fragilidade institucional, nos quais as comunidades religiosas emergentes atuam como espaços de apoio social. A fé, nesse contexto, está se transformando, passando de estruturas hierárquicas para modelos mais horizontais e participativos.

O Chile representa outro caso emblemático, com um declínio de mais de trinta pontos percentuais desde a década de 1990. A secularização chilena não pode ser compreendida sem considerar a crise de legitimidade que afetou a Igreja, bem como o aumento de pessoas que se declaram sem religião. O descontentamento institucional não implica necessariamente ateísmo; antes, expressa um distanciamento crítico de estruturas percebidas como incompatíveis com valores contemporâneos como transparência, igualdade de gênero e direitos humanos. Esse fenômeno revela uma profunda transformação cultural: a autoridade moral não é mais concedida automaticamente às instituições religiosas, mas avaliada com base em sua coerência ética.

Imagem: Pew Research Center | Religión Digital | Reprodução

O Uruguai, por sua vez, constitui um caso singular de laicidade histórica. Embora seu processo de laicização tenha começado antes do que em outros países, sua inclusão entre os contextos com maior declínio do catolicismo demonstra a consolidação de uma sociedade onde a religião ocupa um espaço mais privado do que público. O elevado percentual de pessoas sem filiação religiosa não implica ausência de valores, mas sim a construção de marcos éticos baseados em princípios cívicos e humanistas. Esse modelo demonstra que a coesão social pode ser sustentada por meio de um consenso laico orientado para o bem comum.

A Argentina apresenta um declínio significativo no catolicismo, embora este continue sendo a religião majoritária. O crescimento do número de pessoas sem filiação religiosa e a diversificação da espiritualidade refletem uma sociedade em transição, onde a identidade religiosa não é mais uma característica hereditária, mas uma escolha pessoal. A pluralização do panorama religioso argentino implica não apenas competição entre as religiões, mas também o surgimento de espiritualidades individuais que combinam elementos de diferentes tradições. Esse fenômeno demonstra uma mudança na forma como as pessoas acreditam: a fé está se tornando mais reflexiva, menos institucional e mais intimamente ligada à experiência pessoal.

O México, historicamente um dos países mais católicos do mundo, também está vivenciando um declínio notável na proporção de seus fiéis. A expansão evangélica e a pluralização religiosa indicam que a hegemonia católica enfraqueceu, dando lugar a um cenário religioso diversificado. Essa mudança ocorre em um contexto de profundas transformações sociais, onde a migração interna, a urbanização e a desigualdade remodelaram as estruturas comunitárias. Ao oferecer redes de apoio imediato, as igrejas evangélicas têm atraído com sucesso setores que buscam pertencimento e assistência concreta.

Em conjunto, esses países revelam três tendências estruturais. Primeiro, o crescimento do evangelicalismo é o principal motor da substituição religiosa. Essas igrejas adaptaram-se com sucesso a contextos urbanos e vulneráveis, proporcionando capital social e um senso de pertencimento. Segundo, o aumento do número de pessoas sem religião, especialmente no Cone Sul, indica uma desinstitucionalização da fé, e não seu desaparecimento. Terceiro, a crise de confiança institucional enfraqueceu a autoridade moral da Igreja Católica, forçando-a a repensar seu papel em sociedades cada vez mais críticas e pluralistas.

Imagem: Pew Research Center | Religión Digital | Reprodução

Paradoxalmente, esse processo regional contrasta com o ressurgimento do catolicismo nos Estados Unidos, impulsionado pela migração latino-americana. As comunidades migrantes estão remodelando o panorama religioso americano por meio de práticas devocionais, festivais e redes de solidariedade que revitalizam paróquias e reforçam identidades culturais. A fé, nesse contexto, funciona como um recurso para a integração e a continuidade simbólica. Esse contraste demonstra que a religião não desaparece, mas se transforma de acordo com as condições sociais e culturais.

A questão central que emerge deste panorama não é se a fé está em declínio, mas que formas ela assume e que função social desempenha em sociedades cada vez mais diversas. A diminuição da filiação católica não implica necessariamente um vácuo ético. Pelo contrário, muitos setores sociais buscam referenciais de significado orientados para a justiça social, a dignidade humana e a solidariedade. A fé, entendida como confiança ativa na possibilidade de construir um mundo melhor, pode manifestar-se tanto em tradições religiosas quanto em humanismos seculares.

Nesse contexto, a academia internacional enfrenta uma responsabilidade histórica. Universidades e centros de pesquisa possuem a capacidade de analisar rigorosamente essas mudanças, evitando interpretações simplistas que equiparam a secularização à perda de valores. De uma perspectiva interdisciplinar, a academia pode demonstrar que a transformação religiosa abre oportunidades para a construção de uma ética pública inclusiva baseada no bem comum. Esse papel implica fomentar o diálogo entre tradições religiosas, organizações da sociedade civil e atores estatais, promovendo soluções colaborativas para problemas sociais urgentes.

A , em seu sentido mais amplo, pode se tornar uma força motriz para ações voltadas ao bem comum. Experiências em diversos países mostram que comunidades religiosas e organizações leigas colaboram em programas de ajuda humanitária, educação comunitária e mediação de conflitos. Essas iniciativas demonstram que a espiritualidade pode ser traduzida em práticas concretas de solidariedade. A Academia Internacional pode documentar essas experiências, avaliar seu impacto e disseminar modelos replicáveis ​​que fortaleçam o tecido social.

Convidar outros a serem exemplos nesse contexto implica reconhecer que a credibilidade moral não depende mais da filiação institucional, mas sim da coerência entre princípios e ações. A transformação religiosa na América Latina não deve ser interpretada como uma crise terminal, mas como uma oportunidade para renovar o compromisso com a dignidade humana e a justiça social. Brasil, Chile, Uruguai, Argentina e México demonstram que a fé está em transição, não desaparecendo. Ao acompanhar esse processo, a Academia Internacional pode contribuir para garantir que a espiritualidade — em suas múltiplas expressões — inspire novas formas de solidariedade, responsabilidade e esperança ativa em um mundo marcado pela incerteza.

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