25 Fevereiro 2026
"Enquanto isso, todos nós – e não só os católicos LGBTQIAPN+ - precisamos seguir fazendo memória de cada palavra e de cada gesto de proximidade, compaixão e ternura do Papa Francisco", escreve João Melo, licenciado em Filosofia e Matemática, bacharel em Teologia, e mestre em Educação pela UERJ. Atualmente, é doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde desenvolve pesquisas em estudos queer e religião.
Eis o artigo.
Já se passa quase um ano de pontificado de Leão XIV e o papa pouco se encontrou com pessoas LGBTQIAPN+. A ausência de encontros não é apenas uma lacuna pastoral, mas um sinal preocupante de distanciamento.
Os (poucos) encontros de Leão com os LGBTQIAPN+
De fato, em 18 de setembro de 2025, o papa afirmou na primeira entrevista de seu pontificado, concedida à jornalista americana Elise Ann Allen, que ainda não tinha planos sobre a “questão” LGBTQIAPN+. Pelo jeito ele continua sem muitos planos…
Alguns dias antes dessa entrevista, em 1º de setembro de 2025, Leão encontrou-se em uma audiência privada com o jesuíta James Martin, um conhecido aliado que exerce seu ministério juntos aos LGBTQIAPN+ dos EUA. O encontro se deu antes da peregrinação jubilar dos grupos católicos LGBTQIAPN+ no Vaticano, ocorrida no dia 6 de setembro de 2025. Esse evento que constou na programação oficial do Jubileu da Esperança foi organizado ainda durante o pontificado de Francisco. Portanto, não estava nos planos de Leão, mas nos de seu antecessor.
Meses depois, no Dia Mundial dos Pobres, 16 de novembro de 2025, continuando uma tradição criada por Bergoglio, o papa Prevost almoçou na sala Paulo VI com cerca de 1.300 pessoas, sendo 40 pessoas trans. Dentre elas destaca-se a ativista Alessia Nobile, uma das mulheres trans que em outras ocasiões esteve no Vaticano para encontrar-se com Francisco. Até agora nenhuma das mulheres trans de Roma que se encontraram com o antecessor de Leão XIV conseguiu conversar com o papa americano.
Em outra ocasião, o papa foi pego de surpresa pelo Arcebispo de Los Angeles, José Gomez, que em uma audiência com Leão levou em seu grupo de empresários e filantropos, um casal de homens gays, Alex Capecelatro e Brian D. Stevens. Os dois resolveram puxar assunto com o papa elogiando o trabalho pastoral do jesuíta James Martin junto aos LGBTQIAPN+. O papa acenou com a cabeça, concordando.
Além disso, eu mesmo, no dia 08 de julho de 2025, recebi uma carta assinada por um assessor da Secretaria de Estado da Santa Sé com a Benção Apostólica do papa. Trata-se de uma resposta a uma carta que eu e meu companheiro lhe escrevemos parabenizando-o pela eleição à cátedra de Pedro e lhe pedindo que seguisse os passos de Francisco.
Pelas minhas contas – que provavelmente estão subestimadas – o Papa Francisco se encontrou ou trocou cartas com ao menos 60 pessoas LGBTQIAPN+ e aliadas em 12 anos de pontificado (2013–2025). Sem contar as inúmeras falas pastorais positivas sobre a acolhida aos dissidentes sexuais e de gênero. Francisco teve 12 anos de pontificado e dezenas de encontros documentados, enquanto Leão XIV, em quase um ano, tem poucos registros de proximidade.
Courage e a “cura gay”
Recentemente, 6 de fevereiro de 2026, Leão XIV recebeu no Vaticano representantes do Courage International, grupo que tem uma visão negativa das dissidências sexuais e de gênero e defende a abstinência sexual. O papa Francisco uma vez disse a um homem gay chileno sobrevivente de abuso sexual do clero: “Juan Carlos, que você é gay não importa. Deus te fez assim e te ama assim, e eu não me importo. O Papa te ama assim. Você precisa estar feliz como você é”. Ser feito por Deus assim, homem gay, e ser assim amado por Ele e pelo papa, indicam uma visão positiva da diversidade de orientações sexuais criadas e amadas por Deus. Em sua autobiografia Vida: minha história através da História, Bergoglio também chegou a dizer que muitos casais em união homoafetiva vivem o “dom do amor” em suas relações. E um documento vaticano preparatório para um sínodo afirmou que as pessoas LGBTQIAPN+ têm “dons e qualidades” a oferecer para a comunidade cristã (Sínodo da Família, relatório preparatório, 2014). Tudo isso mostra uma visão positiva da realidade dos católicos LGBTQIAPN+ distinta da proposta do grupo recebido por Leão.
Para diversos especialistas e ONGs, o método do Courage parte da premissa de que as dissidências sexuais e de gênero são algo a ser controlado ou corrigido. Para eles, portanto, o grupo promove a repressão da orientação sexual e de gênero e é denunciada como uma tentativa de “cura gay”.
Na ONU tais práticas foram condenadas, em 2020, como equivalentes à tortura ou tratamento cruel, desumano e degradante. Em 14 de novembro de 2019, Francisco se encontrou com a ativista Jayne Ozanne, que milita contra terapias de conversão. O papa ouviu suas preocupações, recebeu um relatório sobre os danos dessas práticas e manifestou a sua preocupação. Em julho de 2021, a Congregação para o Clero desautorizou oficialmente a associação espanhola Verdad y Libertad, afirmando que tais práticas não têm respaldo eclesial.
No Brasil, tais práticas são proibidas pelo Conselho Federal de Psicologia pela Resolução CFP nº 01/1999 e pela Resolução CFP nº 01/2018. Dom Armando Bucciol, bispo de Jundiaí (SP) e referencial para os grupos católicos LGBTQIAPN+ disse em uma entrevista que as chamadas terapias de reversão sexual não têm respaldo científico nem pastoral e que a Igreja deve se posicionar contra práticas que causam sofrimento às pessoas LGBTQIA+.
O fato de Leão receber representantes de um grupo acusado de realizar tais práticas e ao mesmo tempo não ser visto na companhia de outros grupos e pessoas LGBTQIAPN+ e seus aliados têm causado inquietação em muitos católicos preocupados com os rumos da Igreja e do legado do Papa Francisco. Ao receber Courage, Leão XIV envia uma mensagem ambígua e perigosa.
A Força da Proximidade
Durante o seu pontificado, Bergoglio acompanhou pastoralmente diversas pessoas dissidentes sexuais e de gênero. Conversava com elas, escutava-as, era próximo, tratava-as com ternura e compaixão, segundo o que ele mesmo chamava de “estilo de Deus” (Carta aos LGBT+ enviada ao Pe. James Martin, maio 2022).
O Papa Leão, e também seus cardeais e bispos, não podem se distanciar desse estilo. É preciso que o bispo de Roma e os bispos das dioceses no orbe católico convivam e escutem as dores e as alegrias de todos, todos, todos, os católicos – e isso inclui os católicos LGBTQIAPN+.
A proximidade humaniza o olhar e converte o coração. Com essa atitude, os católicos LGBTQIAPN+ deixam de serem vistos como uma “categoria” de pessoas desajustadas e “quase” fora da Igreja. Não se encontrar com eles é seguir marginalizando-os. Não escutar suas histórias de vida é seguir estigmatizando-os como pecadores. O distanciamento não é neutro: é exclusão.
Ao escutá-los, os bispos podem descobrir que eles fazem a experiência de no amor serem abraçados pela misericórdia de Deus; podem descobrir que eles perseveram na fé mesmo entre ventos contrários, e que testemunham sua dignidade de filhos/as de Deus e da Igreja.
Escutando-nos, os bispos e padres podem dar espaço para o discernimento e formação da própria consciência dos fiéis e não pretender substituí-la (Amoris Laetitia n. 37; 303), pois Deus fala diretamente com a sua criatura (Exercícios Espirituais n. 15) no santuário das suas consciências (Lumen Gentium, n. 16), onde se rompem todos os esquemas (Amoris Laetitia n. 37). “Por isso, já não é possível dizer que todos os que estão numa situação chamada “irregular” vivem em estado de pecado mortal, privados da graça santificante” (Amoris Laetitia n. 301) e nem que estejam automaticamente excluídas dos sacramentos e da comunhão eucarística (Amoris Laetitia n. 305, nota 351). Na verdade, podem, juntos, discernir e decidir, como fez Francisco, que em 13 de junho de 2022, disse a um homem gay sobrevivente de abuso para comungar após 26 anos de jejum eucarístico.
Para isso, como recomendava Francisco, basta proximidade, compaixão e ternura (Carta aos LGBT+ enviada ao Pe. James Martin, maio 2022). Se a Igreja deseja ser fiel ao Evangelho, não pode se furtar ao encontro com aqueles com quem ela tem muito o que aprender.
Memória, perseverança e testemunho
Enquanto isso, todos nós – e não só os católicos LGBTQIAPN+ - precisamos seguir fazendo memória de cada palavra e de cada gesto de proximidade, compaixão e ternura do Papa Francisco.
Assim, seguiremos escrevendo livros, artigos, textos e panfletos sobre seus gestos palavras e ações. Daremos palestras, conferências, cursos e faremos peregrinações, grupos de oração, de estudos, encontros, retiros espirituais, rodas de conversa inspirados sob o seu “estilo de Deus”. Nós contaremos ao pé do ouvido de cada pessoa de fé e de boa vontade com quem nos encontrarmos pelo caminho e proclamaremos nos telhados a Boa Nova (Mt 10,27) que foi anunciada a todos, todos, todos.
Nós usaremos nossas redes sociais e nossos encontros virtuais para isso. Seguiremos formando grupos de acompanhamento e pastoral inclusiva, que, como nos afirmou o papa Francisco no voo de Baku para Roma no dia 1º de outubro de 2016, “Isso é o que Jesus faria hoje”.
Nós formaremos alianças com outros grupos católicos, de cristãos e de pessoas de boa vontade. Nós derrubaremos muros denunciando às autoridades toda vez que nossos direitos humanos forem violados e construiremos pontes de diálogo com todos os que se dispuserem a nos escutar. Escreveremos cartas, pediremos audiências e aproveitaremos encontros com nossos bispos, padres, religiosas e religiosos para dar-lhes a conhecer no amor quem somos.
Nós honraremos a memória e a ancestralidade da “nuvem de testemunhas” (Hb 12,1) de pessoas LGBTQIAPN+ e aliados que viveram antes de nós e seguiremos construindo um legado de fé, amor e esperança para os que vierem depois de nós, para que encontrem o testemunho de pessoas que amaram e deixaram-se amar com coragem e generosidade, e para que também elas se descubram amadas e perseverem no seguimento a Jesus Cristo, caminho, verdade e vida (Jo 14,6).
A doutrina que nos condenava não nos reprime mais, porque a morte já não tem a última palavra. Já não é mais possível viver sem partilhar a alegria da Vida Nova que encontramos em Cristo, rosto da misericórdia de Deus (Misericordiae Vultus, n. 1).
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