'Therians', o fenômeno viral sem fundamento que a extrema-direita usa para alimentar sua retórica 'anti-woke'

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24 Fevereiro 2026

Essa suposta subcultura [1], entusiasticamente abraçada pela mídia, desencadeia ódio nas redes sociais por meio de boatos e exageros que têm como alvo pessoas trans, como já aconteceu antes na Argentina e no México.

A reportagem é de Paola Mendoza Ángel Munárriz, publicada por El País, 24-02-2026.

Os therianos têm sido notícia na Espanha há mais de uma semana. Mas onde estão esses famosos therianos, de fato? Sites e programas de televisão, fascinados pelo fenômeno, divulgaram inúmeras imagens no TikTok e no Instagram de supostos membros dessa subcultura marginal, que supostamente se identificam com alguma espécie animal. Mas nas praças onde se esperava que aparecessem neste fim de semana, atraídos por convocações vagas amplificadas pela mídia, eles mal apareceram. Jornalistas e curiosos, muitos. Therianos, poucos. O que surgiu foram elementos que já eram centrais para o mesmo fenômeno nos Estados Unidos: pânico moral — a reação exagerada ao comportamento de um determinado grupo, apresentado como uma ameaça —, boatos e manipulação da extrema direita para alimentar a narrativa de um suposto declínio moral na sociedade, tendo a diversidade como alvo.

Em meio à euforia que tomou conta da Puerta del Sol, em Madri, no sábado, ouviu-se o grito: "Cadê os therianos? Estou louco para dar uma surra neles!" Mas, entre as centenas de pessoas reunidas para testemunhar o fenômeno que dominou as redes sociais na última semana, os therianos estavam visivelmente ausentes. Cenas semelhantes se repetiram por todo o país durante o fim de semana: praças e parques lotados de curiosos, e até mesmo alguns agitadores de extrema-direita, todos aguardando os prometidos híbridos de humanos e animais.

Em cidades como Ávila, Salamanca e Segóvia, a mídia local noticiou o fracasso das manifestações planejadas pelos therianos. Nessas províncias de Castela e Leão, ativistas do Vox apareceram com suas tendas verdes ao lado dos encontros da juventude. Os cânticos e gritos contra o primeiro-ministro surpreenderam muitos, que chegaram a se perguntar em voz alta: "O que Pedro Sánchez tem a ver com tudo isso?"

“O fenômeno theriano é um exemplo perfeito de como algoritmos e redes, com uma mistura de interesse político e curiosidade mórbida, podem fabricar uma notícia do nada”, afirma Adrián Juste, analista do think tank Al Descubierto, que observou como, antes de chegar à Espanha, essa “bolha cultural” já havia se inflado em diversos países da América, apesar de ser uma subcultura relativamente insignificante, com seu impacto concentrado na “adolescência” e consistindo simplesmente em se vestir como “não humanos” por “lazer” ou para “fazer bobagens”.

Na comunidade theriana, a identificação pessoa-animal é frequentemente apresentada como um recurso lúdico, não literal, explica Juste. Não se trata de pessoas com uma "crise de identidade", ressalta ele. No entanto, a natureza incomum do fenômeno faz com que ele se torne viral, apesar de sua "trivialidade". É isso que estamos vendo na Espanha, explica, observando como alguns grupos estão se aproveitando da atenção gerada para apresentá-lo como a mais recente expressão de supostos excessos no reconhecimento da diversidade. "A tolerância à diferença está em seu nível mais baixo, e há claramente um discurso alimentando isso", observa ele.

A “viralidadedos therianos, portanto, nas mãos da extrema-direita e alimentada por algoritmos que recompensam o escândalo, torna-se “contra pessoas trans, contra pessoas LGBTQ+, reforçando o discurso da decadência da sociedade moderna, segundo o qual ir contra a natureza humana ou os desígnios de Deus nos leva, em última instância, à decadência”, explica ele. “Os therianos costumam dizer: ‘Vejam o que está na moda! É ridículo! Vamos para o inferno!’ É assim que a raiva e a frustração da sociedade são redirecionadas para algo que não existe. De cada 100 comentários sobre esse assunto, 95 são odiosos, do tipo ‘tragam de volta o serviço militar obrigatório’ ou ‘eles precisam apanhar’. E tudo isso está divorciado da realidade. É uma bolha cultural.”

Marcelino Madrigal, especialista em redes e cibersegurança, explica que o aumento das conversas nas redes sociais sobre therianos se deve à influência de grupos de extrema-direita: “Eles acham muito fácil atacar a identidade, o gênero e as escolhas das crianças, motivados pelo que chamam de política woke”. Madrigal vê isso como um ataque direto ao reconhecimento da diversidade de gênero e das pessoas transgênero, aquelas cuja identidade de gênero difere do sexo atribuído no nascimento: “Eles querem se diferenciar como aqueles que ‘defendem crianças normais’, chegando ao ponto de exagerar e dizer que as pessoas se transformam em cães e gatos”.

América Latina

Esse modus operandi não é novo. Madrigal lembra que, durante 2021 e 2022, certos setores do Partido Republicano nos Estados Unidos usaram os furries (uma subcultura de pessoas que se vestem como animais com características humanas) para espalhar desinformação nas escolas. Um boato falso circulou em fóruns como o Reddit, alegando que algumas escolas estavam fornecendo caixas de areia nos banheiros para alunos que "se identificam como gatos" ou que participam das subculturas furry, otherkin ou therian. Tudo isso tinha como objetivo enfatizar que, depois das questões trans, as questões animais seriam as próximas.

É fácil rastrear a histeria em torno dos therianos a partir da América Latina. Durante a primeira semana de fevereiro, o fenômeno explodiu nas redes sociais na Argentina. O primeiro encontro foi marcado para 10 de fevereiro no centro de Buenos Aires. E nos dias seguintes, dominou as conversas online devido a eventos como a suposta mordida de um theriano em uma menina de 14 anos na província de Córdoba. Ao final da semana, o tema já havia entrado na agenda da extrema-direita. Veículos de comunicação como o La Derecha Diario descreveram o fenômeno como a expressão de uma doença mental.

A jornalista Fabiola Solano destaca que a Argentina funcionou como um laboratório para a construção de “um inimigo funcional”: “O enquadramento é sistemático: patologização, ridicularização e associação direta com o progressismo, a agenda woke e as identidades de gênero. A subcultura é apresentada como um transtorno mental, uma ilusão de identidade ou o resultado de uma suposta engenharia cultural que está obscurecendo a identidade humana”. Basta observar os grupos de extrema-direita no Telegram, onde os usuários falam de “subnormais disfarçados” e “animais que devem ser tratados como tal, dormindo no jardim o ano todo”.

Figuras da extrema-direita como Agustín Laje, na Argentina, e Eduardo Verástegui, no México, ambos com um longo histórico de ataques a pessoas trans, que retratam como sintomas da degeneração moral do Ocidente, juntaram-se agora à onda de difamação contra pessoas trans. Para eles, esses indivíduos servem como prova da suposta ilusão da obsessão da esquerda com a chamada "política identitária". Laje, um dos principais agitadores de Javier Milei, referiu-se ao fenômeno como "a degeneração dos therianos animais trans " e "a germinação de massas sem identidade". Verástegui afirmou que " eles deveriam estar em um hospital psiquiátrico" e apresentou o surgimento deles como prova de que sua retórica clássica de degeneração social estava correta. "Disseram que isso nunca aconteceria e nos chamaram de alarmistas. Família, isso é mais do que preocupante. Temos que fazer algo URGENTE", escreveu Verástegui recentemente.

Na Espanha, circula desde o fim de semana um boato alegando que o governo de Pedro Sánchez estaria considerando aprovar um subsídio mensal de 426 euros para cidadãos que se identificam como animais. A forma como a notícia falsa apresenta esse "pagamento", supostamente devido a uma "discrepância na autopercepção de gênero" entre therianos, alude diretamente a pessoas transgênero. Também circulam em celulares vídeos falsos gerados por inteligência artificial mostrando cães atacando humanos usando máscaras de cachorro e andando de quatro.

Entretanto, usuários da extrema-direita na Espanha aderiram à ofensiva antitheriana. Um exemplo é o Sr. Liberal, cujo discurso se alinha ao do Vox, que forneceu aos seus mais de 160 mil seguidores no X mensagens como esta, comentando sobre o protesto em Barcelona: “Jovens sem lar ou futuro preferem se identificar com cães para escapar [...]. E o sistema quer que os aplaudamos. Estamos indo para o inferno como sociedade.”

Viralidade sem fundamento

Em Barcelona, ​​o encontro terminou com quatro prisões por conduta desordeira, mas com um número muito pequeno de therianos presentes. Este é um tema recorrente. Houve muito barulho, mas pouca substância. No último fim de semana, pelo menos uma dúzia de "encontros therianos" foram organizados por toda a Espanha. Esses encontros foram promovidos nas redes sociais com imagens geradas por inteligência artificial, muitas vezes sem um organizador claro. A maioria compareceu apenas a curiosos. Em Madri e Saragoça, alguns menores vestidos de gatos, linces e raposas apareceram. Alguns dos que esperavam encontrar muitos outros fantasiados acabaram sendo ridicularizados e assediados.

Gabriela, uma jovem de 15 anos que usava a máscara de raposa em Madri, disse que foi à Puerta del Sol em busca de outras pessoas como ela. A adolescente relatou ter se sentido intimidada e decepcionada com o que deveria ser "seu primeiro encontro com pessoas como ela", após ser obrigada a pular contra a sua vontade, cercada por várias pessoas que a filmavam com seus celulares. Só havia influenciadores buscando viralizar seus conteúdos e centenas de jovens reunidos para assistir ao fenômeno e zombar dele.

As tendas verdes não estavam à vista em Puerta del Sol, mas os comentários odiosos eram certamente audíveis. Para Madrigal, é exatamente disso que a extrema-direita precisa: “Quando o Vox monta uma tenda, não é para as crianças, é para os pais delas”. Em meio aos murmúrios e rostos atônitos dos presentes neste sábado, José Carvajal, pai de duas meninas de 12 e 17 anos, afirmou que os “therianos ” são “um monte de bobagem”. Suas filhas pediram que ele fosse a Puerta del Sol para ver “se algo estava acontecendo”, e ficaram por causa da presença do youtuber Mihail Amoli, com quase um milhão de seguidores, que atraiu uma grande multidão.

O que são 'therianos'?

Os therianos são pessoas que se identificam, em um nível psicológico, lúdico ou espiritual, com um animal não humano. Trata-se de um fenômeno social e cultural que não envolve uma transformação física ou a crença em possuir um corpo diferente, mas sim uma experiência interna de identidade. O termo vem da palavra inglesa  therianthropy", que por sua vez deriva das palavras gregas antigas "therion" (que significa besta ou animal selvagem) e "anthropos" (humano). Assim, o termo se refere à capacidade espiritual de se transformar em um animal, mas essa transformação não ocorreria fisicamente, apenas no sentido de vivenciar uma conexão interna com um animal específico.

Nota

[1] Theria é uma subclasse de mamíferos que integra as infraclasses Marsupialia e Placentalia. O grupo distingue-se dos Prototheria pela capacidade de dar à luz crias desenvolvidas total ou parcialmente no corpo das fêmeas, sem recorrer à proteção de ovos. 

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