Novas formas de pobreza. Que tipo de pastoral? Artigo de Francesco Cosentino

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12 Janeiro 2026

"Escutar o grito dos pobres, acolhê-lo e empenhar-se com a sua causa é, de fato, uma tarefa evangélica para a qual todos os cristãos são chamados."

O artigo é de Francesco Cosentino, publicado por “Consacrazione e servizio”, nº 1, janeiro-fevereiro 2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Reunindo o que o Papa Francisco preparava nos últimos meses de sua vida, o Papa Leão XIV quis publicar a Exortação Apostólica Dilexi te, convidando todos a amar e cuidar dos pobres. Esse empenho, longe de ser delegado à prática social e ao simples mandamento do “fazer”, é uma dimensão que pertence à própria essência do cristianismo: em Cristo Jesus, resplandece o rosto do Deus amor, que se fez pobre, despojando-se de tudo, para vir ao encontro da nossa pobreza e nos enriquecer com o dom da sua própria vida (cf. 2Cor 8,9). O próprio Cristo é o pobre por excelência, aquele que não tem um lugar ao vir ao mundo (cf. Lc 2,7), aquele que não tem onde repousar a cabeça (cf. Lc 9,58), aquele que foi despojado das suas vestes (cf. Jo 19,23-24) e, assim, identifica-se e associa a si todos os pobres da terra e, em geral, a criatura humana com a sua pobreza.

Por isso, no final, seremos julgados pelo nosso amor e cuidado para com os necessitados (cf. Mt 25,31-46): “Nenhuma expressão de carinho – escreve o Papa Leão - nem mesmo a menor delas, será esquecida, especialmente se dirigida a quem se encontra na dor, sozinho, necessitado” (Dilexi te, 4).

Uma Igreja que coloca os pobres no centro. Desse aspecto, teológico e não sociológico, surge o chamado, o empenho e o dever da Igreja de estar atenta ao ser humano como um todo e a todos os seres humanos, olhando de forma abrangente o mistério de suas vidas, ou seja, considerando não apenas sua condição econômica e social, mas, de maneira mais geral, sua situação específica do ponto de vista existencial e espiritual. De fato, como sabemos, existem muitas formas diferentes de pobreza, e seria um grave erro, especialmente na atual estrutura das nossas sociedades, reduzir a pobreza apenas à dimensão econômica. Em outras palavras: mesmo onde não é o sustento econômico que falta, existem inúmeras outras formas de pobreza e situações de vida feridas ou marcadas pela opressão do ponto de vista moral, cultural e existencial, que geram bolsões de solidão, drenagem das energias interiores, bloqueio emocional, escuridão interior, vazio, até desespero. Embora o grito, por vezes silencioso, dessas pobrezas não encontre espaço numa sociedade que celebra o culto do vencedor, e seja muitas vezes silenciado para não incomodar, como no caso de Bartimeu no Evangelho (Marcos 10,46-52), ou simplesmente neutralizado pela indiferença generalizada das nossas cidades e dos nossos estilos de vida, a Igreja deseja acender os holofotes sobre os pobres, mas, sobretudo, acredita que o desafio da pobreza e da miséria continuam a ser incontornável e sempre atual para a comunidade dos que creem.

Que tipo de pastoral?

Perante as novas formas de pobreza, porém, que tipo de pastoral? Precisamos refletir em múltiplos níveis.

O primeiro é estritamente teológico: se a mensagem de libertação do Evangelho deve alcançar o homem concreto, na sua situação e condição específicas, é evidente que a ação pastoral, e o exercício da caridade em geral, variam conforme os séculos, os contextos, as culturas e as diferentes circunstâncias. O Papa Leão, recordando o que afirma a Encíclica Fratelli Tutti, lembra que, no passado, não ter energia elétrica (e outros exemplos poderiam ser citados) era comum e, portanto, não era considerada uma pobreza, ao contrário do que acontece hoje. Por essa razão, o cuidado pastoral com os pobres, ao longo da rica e milenar história da Igreja e da tradição cristã, nunca foi indistintamente a mesma em todas as épocas e situações. Pelo contrário, mudou conforme o tempo e, aliás, muitas vezes foi pioneiro de novas e importantes iniciativas que transformaram a sociedade. Basta lembrar, como faz Dilexi te, que muitas ordens religiosas inspiraram "novas formas de ação diante das escravidões modernas: o tráfico de pessoas, o trabalho forçado, a exploração sexual, as diversas formas de dependência", e esse é um exemplo de caridade cristã encarnada que se torna fonte de libertação evangélica.

A partir dessa primeira questão, aprendemos que a pastoral para as novas formas de pobreza deve ser sempre nova, realmente encarnada — e não genérica ou abstrata — e, portanto, capaz de responder à situação concreta e específica. Um segundo nível de reflexão é fenomenológico: envolve observar a realidade e evitar o risco de generalizar o tema, e nos perguntarmos: o que se entende pela expressão "novas formas de pobreza"? A Exortação Apostólica afirma que “as diferentes manifestações da pobreza aumentaram. Ela já não se apresenta como uma condição única e homogênea, mas manifesta-se em múltiplas formas de empobrecimento econômico e social, refletindo o fenômeno de crescentes desigualdades, mesmo em contextos geralmente prósperos” (Dilexi te, 12). Mas devemos nos perguntar: quais são essas novas formas de pobreza?

A Encíclica não elabora uma lista, mas se refere repetidamente a situações que, para além da indigência econômica, representam situações de pobreza e escravidão: pessoas forçadas a viver sem liberdade, periferias urbanas onde prevalecem conflitos de várias naturezas ou degradação cultural e moral, mas também o complexo fenômeno migratório e o sofrimento dramático dos migrantes, mulheres que são maltratadas e vítimas de violência. Além disso, não se pode deixar de acrescentar o trabalho precário, o problema do acesso à saúde, a crise da família e, não menos importante, a dependência digital e os problemas a ela associada de ansiedade, de transtornos obsessivo-compulsivos, até fenômenos como o cyberbullying.

Somente no terceiro nível podemos realmente nos perguntar que tipo de pastoral devemos considerar. Naturalmente, é evidente que situações específicas exigem ações pastorais igualmente específicas, dependendo da forma de pobreza que encontramos. No entanto, precisamente porque o cuidado do pobre não pode ser reduzido a ações pontuais que correspondam à necessidade do momento, se pode sugerir algumas reflexões que poderíamos definir como “visão pastoral integral”, que, ao mesmo tempo, acredito possa acarretar uma verdadeira “trajetória de conversão” das nossas comunidades paroquiais. Em resumo:

Promover uma pastoral integrada: infelizmente, habitando e vivendo diariamente as paróquias, muitas vezes descobrimos que cada uma se caracteriza mais por algum aspecto e tem uma sua própria tipificação/especificidade; isso não é em si negativo, desde que essa especificidade leve em conta e não prejudique dimensões fundamentais da vida cristã. E aqui tocamos o ponto sensível: para muitos fiéis, a questão dos “pobres” é um apêndice, desvinculada do cerne da mensagem cristã e, quando muito, diz respeito à ordem da ação, à assistência social e aos serviços de caridade, mas nada mais.

Promover uma pastoral integrada significa manter unidas as diversas dimensões: oração e ação, doutrina e vida, liturgia e caridade. A própria Exortação Apostólica nos lembra que a atenção aos pobres é, por vezes, dificultada por certos preconceitos que se infiltram até mesmo entre os fiéis: “Há quem continue a dizer: ‘O nosso dever é rezar e ensinar a verdadeira doutrina’. Mas, desvinculando esse aspecto religioso da promoção integral, acrescentam que só o Governo deveria cuidar deles, ou que seria melhor deixá-los na miséria e ensinar-lhes antes a trabalhar” (Dilexi te, 114). Não existe doutrina sem o empenho de vida, nenhuma oração autêntica sem ação, nenhum culto verdadeiramente cristão que separe Deus do amor e do cuidado para com o próximo.

Repensar a paróquia a partir dos pobres: isso significa não priorizar primeiro outras questões consideradas mais importantes e, só depois, só com alguns indivíduos mais sensíveis ou com membros da Cáritas, fazer algo pelos pobres. Na realidade, trata-se de estabelecer uma visão pastoral que, até mesmo no que diz respeito ao âmbito litúrgico, à oração, à formação, à piedade popular e às outras atividades várias, ajude a todos a pensar a Comunidade cristã como um lugar onde a pobreza de cada um — incluindo a pobreza espiritual — encontra espaço, escuta, resposta. Trata-se de afinar a nossa "atenção espiritual" a todos, para que nos tornemos realmente capazes de uma leitura real do contexto local e perceber as solidões e sofrimentos menos evidentes e mais escondidos. Isso exige Comunidades cristãs realmente acolhedoras e hospitaleiras, que saibam "abrir espaço" para que aqueles que vêm sintam a liberdade e o conforto de compartilhar suas próprias histórias de vida. Comunidades que oferecem espaços de escuta, de compartilhamento e de relações humanas boas e significativas.

Passar da caridade à solidariedade: sob essa perspectiva, a Comunidade cristã deve colocar o cuidado com os pobres no centro, não apenas organizando obras de caridade para eles e suas necessidades, embora isso seja necessário. Não se trata de tornar o sofrimento ou o fardo por essa pobreza mais suportável, mas de promover uma formação cristã, uma consciência crítica e um empenho compartilhado que reflita sobre as causas das novas pobrezas, os sistemas e as estruturas que as geram e os projetos a serem implementados para remover essas causas. A caridade deve se tornar um compromisso global de solidariedade, tanto colocando os pobres no centro de nossas relações paroquiais, para não os reduzis a meros "objetos" de nossas esmolas, quanto para que as paróquias se tornem, em cada localidade, uma voz crítica contra as estruturas de injustiça e um sinal profético da libertação que Deus deseja realizar.

A caridade cristã não se limita à assistência, mas busca criar relações comprometidas com a transformação das causas da pobreza e do sofrimento, capacitando os próprios pobres para que encontrem as condições necessárias para se reerguerem. Tudo isso exige que o cuidado do pobre e a atenção às novas formas de pobreza estejam realmente presentes, antes de tudo, na consciência dos fiéis, e, portanto, empenhem também a proclamação da Palavra, a catequese e a própria liturgia. Significa também fazer de nossas paróquias "observatórios", buscando identificar as novas formas de pobreza, desvendando as causas (também sistêmicas e estruturais) que as originaram, promovendo uma conscientização crítica sobre o tema por meio de programas de formação abertos à comunidade e às competências leigas, e capacitando pessoas aptas a se dedicarem aos mais vulneráveis, a ponto de dialogar e colaborar com as instituições para ajudar as pessoas a sair das situações de pobreza.

Escutar o grito dos pobres, acolhê-lo e empenhar-se com a sua causa é, de fato, uma tarefa evangélica para a qual todos os cristãos são chamados.

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