07 Janeiro 2026
"À medida que 2026 avança e se torna cada vez mais evidente que a sinodalidade não vai desaparecer, que o foco excessivo na homossexualidade como o pecado supremo dos nossos tempos não é algo com que Leão XIV concorde, e que a priorização da política do aborto em detrimento de outras questões controversas sempre foi uma interpretação equivocada da teologia moral católica, esses críticos conservadores de Francisco precisam se olhar no espelho", escreve Michael Sean Winters, autor católico, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 02-01-2026.
Eis o artigo.
A polarização da Igreja Católica nos Estados Unidos por vezes parece tão arraigada quanto as divisões políticas da nossa nação. De fato, a gradual separação do país em dois campos ideologicamente opostos na política, e a forma como a política agora engloba grande parte da cultura, tornam a superação da polarização eclesial muito difícil.
Existe, porém, um agente de unidade em nossa fé católica que falta na cultura secular: o bispo de Roma.
No dia da eleição do Papa Leão XIV, escrevi:
Os críticos conservadores ricos e bem organizados de Francisco ficarão desapontados. Que bom. O novo papa não é alguém que se deixará seduzir pelo poder financeiro deles. Os conservadores americanos que discordavam de Francisco costumavam citar o provincianismo de sua origem argentina e, principalmente, o que consideravam sua veia peronista. Diziam que ele não entendia os Estados Unidos. Essa desculpa não cola mais.
Muitos católicos conservadores estavam convencidos de que o mundo compartilhava da mesma opinião que eles sobre o Papa Francisco, e que os cardeais buscariam uma grande mudança de rumo. Raymond Arroyo e seus aliados anti-Francisco, dom Joseph Strickland e seus seguidores nas redes sociais, Edward Pentin, Diane Montagna e seu absurdo "Relatório do Colégio de Cardeais", todos estavam convencidos de que as reformas de Francisco seriam revogadas.
À medida que 2026 avança e se torna cada vez mais evidente que a sinodalidade não vai desaparecer, que o foco excessivo na homossexualidade como o pecado supremo dos nossos tempos não é algo com que Leão XIV concorde, e que a priorização da política do aborto em detrimento de outras questões controversas sempre foi uma interpretação equivocada da teologia moral católica, esses críticos conservadores de Francisco precisam se olhar no espelho. Precisam se perguntar se estão dispostos a seguir em frente como dissidentes da autoridade eclesial. Francisco tinha 78 anos quando foi eleito papa e não gozava de boa saúde nos últimos anos. Leão XIV é um jovem de 70 anos e ainda joga tênis. Não existe essa de "esperar o fim" do pontificado.
O futuro da Igreja Católica neste país, felizmente, não depende da visão ideológica limitada de nossos amigos da EWTN. O papel dos católicos mais jovens e conservadores nos bancos das igrejas, e as vocações ao sacerdócio e à vida religiosa que eles geram, são de extrema importância para esse futuro. O Estudo Nacional de Padres Católicos do ano passado, realizado pelo Projeto Católico da Universidade Católica da América, ilustra o fato de que a esquerda católica simplesmente não gera mais muitas vocações ao sacerdócio. Aqueles que ingressam no seminário tendem a ser mais conservadores, tanto em sua teologia quanto em suas posições políticas.
Não compartilho da ansiedade desmedida que alguns dos meus amigos liberais demonstram diante desse desenvolvimento. A maioria desses padres mais jovens e conservadores que conheci são excelentes pastores que amam seu povo. Eles precisam ser encorajados a ignorar a maior parte do que se passa por comentários católicos na internet e a dedicar mais tempo à leitura dos sermões e discursos de Leão. A doutrina social católica precisa ser apresentada a eles como uma aplicação da antropologia cristã, algo que Leão explica com maestria.
Existe uma outra realidade, de certa forma peculiar aos Estados Unidos, com a qual nossos correligionários conservadores precisam lidar: o dinheiro. A pobreza é uma das causas defendidas pelos evangélicos, mas muitos projetos conservadores são liderados e moldados por plutocratas. Tim Busch, do Instituto Napa, é o arauto dos plutocratas, mas há outros, todos aparentemente relutantes em questionar o capitalismo desenfreado contemporâneo e seus resultados perversos.
Se devemos esperar que os católicos conservadores façam uma reflexão profunda sobre os motivos de estarem em desacordo com o segundo papa consecutivo, os católicos liberais também precisam examinar algumas de suas atitudes e ideias. O catolicismo liberal com o qual minha geração foi criada estava enraizado nas experiências reais da classe trabalhadora e era exemplificado pela aliança de fato da Igreja Católica com o New Deal. Os liberais perderam o apoio da classe trabalhadora nas últimas décadas. Agora, os liberais são o partido da elite intelectual.
Os católicos liberais seguiram o liberalismo secular, recorrendo a teólogos acadêmicos como uma fonte alternativa de autoridade magisterial em um momento em que a teologia acadêmica estava perdendo contato com a realidade eclesial. É fácil encontrar um teólogo liberal bem versado na ideologia de gênero de Judith Butler, mas trabalhos importantes sobre, digamos, Agostinho, são deixados para teólogos conservadores. Essa situação é insustentável.
Os católicos liberais tendem a adotar uma postura crítica em relação às decisões da hierarquia com muita facilidade e a relutar em questionar a ortodoxia da MSNBC. Uma coisa é dizer que o aborto não deve ser visto como a principal questão política da nossa época, e outra bem diferente é sugerir que existem justificativas católicas para apoiá-lo.
Um desafio comum se apresenta aos católicos tanto da esquerda quanto da direita: como evitar que pressupostos e rótulos políticos definam as distinções importantes no diálogo religioso e até mesmo na prática da fé. Não deveria ser estranho que alguns democratas gostem de missas em latim ou que alguns frequentadores de missas em latim tenham votado em Kamala Harris, mas é mais do que estranho. É quase inconcebível. Tanto os católicos conservadores quanto os liberais precisam desvincular a fé da política do momento, e isso só acontecerá quando ambos os lados colocarem sua fé e seus princípios em primeiro lugar.
É aqui que as novas nomeações episcopais podem ter maior impacto. Os bispos precisam ajudar seu clero, os homens na linha de frente do cuidado pastoral e do ensino religioso, a reconectar os católicos nos bancos das igrejas com os fundamentos da fé. Acabou-se o tempo em que a cultura transmitia a religião de geração em geração, e a desintegração de uma cultura distintamente católica resultou na proliferação do sectarismo dentro da Igreja. A religião nos Estados Unidos está reduzida à ética e, daí, à política, finalmente ao legalismo. É proposicional: acredite nesta lista de ideias e você se qualifica. Essas tendências tornam a polarização cada vez mais provável.
Existe, contudo, uma abertura para reacender o sentido da cultura católica: os jovens anseiam por comunidade, vida real, comunidade encarnada. Encontram informação, mas também solidão, nos seus smartphones. Os algoritmos que definem a nossa cultura digital fomentam uma série de patologias antissociais. A Igreja Católica local deve tornar-se um lugar onde as pessoas são acolhidas, todas as pessoas, e onde todas são convidadas a reconhecer o significado do seu batismo, a morte para o ego e a incorporação no Corpo de Cristo, e a caminhar juntas rumo a um futuro mais humano, porque mais santo.
Como disse Leão em sua homilia de Natal:
Para curar nossa cegueira, o Senhor escolhe revelar-se em cada ser humano, que reflete sua verdadeira imagem, segundo um plano de amor iniciado na criação do mundo. Enquanto a noite do erro obscurecer esta verdade providencial, então "não haverá lugar para os outros, nem para as crianças, nem para os pobres, nem para o estrangeiro". Estas palavras do Papa Bento XVI permanecem um lembrete oportuno de que, na Terra, não há lugar para Deus se não houver lugar para a pessoa humana. Recusar um é recusar o outro. Contudo, onde há lugar para a pessoa humana, há lugar para Deus; até mesmo um estábulo pode se tornar mais sagrado do que um templo, e o ventre da Virgem Maria, a Arca da Nova Aliança.
Neste novo ano, uma renovação da fé cristã é profundamente necessária, e cabe a todos nós contribuir para que isso aconteça. Todas as orações feitas durante o Jubileu da Esperança do ano passado podem, quem sabe, se concretizar em 2026, mas somente se aprendermos a orar com os olhos abertos, levarmos a sério o chamado para seguir o Senhor e nos reaproximarmos, em nossas próprias situações, dos conselhos evangélicos de castidade, pobreza e obediência. Não construiremos a cidade de Deus em 2026, mas podemos permitir que Deus nos ajude a construí-la dentro de nós. E isso pode mudar a história da humanidade.
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