05 Janeiro 2026
Referência mundial no estudo do clima e da Amazônia, cientista alerta que país se aproxima de limites ambientais irreversíveis enquanto setores econômicos poderosos ignoram alertas da ciência.
A reportagem é de Daniel Camargos, publicada por Repórter Brasil, 05-01-2026.
“O agronegócio é negacionista da mudança climática”, afirma Carlos Nobre.
Em entrevista exclusiva à Repórter Brasil, o cientista descreve um país que se aproxima rapidamente dos chamados “pontos de não retorno”, limites a partir dos quais ecossistemas podem perder a capacidade de se recuperar, mesmo que a destruição seja interrompida. Segundo ele, esse risco já ameaça os principais biomas brasileiros: Amazônia, Cerrado, Pantanal e Caatinga.
Ao mesmo tempo, afirma Nobre, grupos econômicos com forte influência política seguem apostando na ampliação do desmatamento, na abertura de novas frentes de exploração de petróleo, e na ideia de que a crise climática pode ser contida sem mudanças profundas no modelo de desenvolvimento do país.
Aos 74 anos, Carlos Nobre tem longa trajetória na ciência. É formado em engenharia eletrônica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e doutor em meteorologia pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT). Coordenou o Experimento de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA), o maior projeto científico já realizado em uma floresta tropical, e integrou o primeiro relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado em 1990.
Na entrevista, Nobre relaciona o aumento dos riscos ambientais à resistência de setores, como o agronegócio, em admitir evidências científicas sobre a gravidade da crise. Para ele, limitar as políticas públicas ao combate do desmatamento ilegal, manter permissões para desmatamento legal em larga escala e autorizar novas explorações de combustíveis fósseis são decisões incompatíveis com a estabilidade dos biomas e com a capacidade do país de enfrentar a crise climática.
Nobre foi um dos primeiros cientistas a alertar que a Amazônia poderia ultrapassar um ponto de não retorno, entrando em um processo irreversível de degradação. Segundo ele, esses alertas tiveram um custo político.
A última vez que foi convidado pela CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil) para falar ao setor foi há mais de 20 anos, em palestra justamente sobre os impactos das mudanças climáticas. Desde então, ele relata que cientistas da área climática deixaram de ser chamados, enquanto vozes negacionistas passaram a ocupar espaço em eventos do agronegócio.
Na entrevista, Nobre também avalia os resultados da COP30, realizada em Belém, da qual participou diretamente. Ele critica a ausência de compromissos claros para o fim do uso de combustíveis fósseis, questiona a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, e defende o desmatamento zero como condição para evitar o colapso ambiental no Brasil.
Eis a entrevista.
Qual é o saldo da COP30, especialmente da ausência de um “mapa do caminho” no documento final? E por que, na sua avaliação, a ciência tem tanta dificuldade de competir com o lobby dos combustíveis fósseis, que chegou a reunir cerca de 1.600 representantes na conferência?
Nós criamos um Pavilhão de Ciência Planetária. Foi a primeira COP que teve um pavilhão desse tipo.
Levamos uma série de documentos que foram disponibilizados aos negociadores. Deixamos claro que é preciso acelerar muito a redução das emissões de gases de efeito estufa. Hoje, cerca de 75% das emissões globais ainda vêm da queima de combustíveis fósseis, principalmente gás carbônico, mas também do metano. Mostramos os riscos que o planeta já está vivendo: o aquecimento global chegou a 1,5°C, e os eventos extremos estão batendo recordes.
O Brasil levou esse diagnóstico para o centro da conferência. No lançamento da presidência da COP, o presidente Lula falou de dois marcos: zerar todos os tipos de desmatamento até 2030, no Brasil e no mundo, especialmente nas florestas tropicais, e acelerar fortemente o fim do uso de combustíveis fósseis.
Mas, infelizmente, houve grande resistência. Em vários países, o setor de combustíveis fósseis teve forte presença. Essa COP também teve um número elevado de representantes desse setor, e isso não é novidade: as três COPs anteriores foram realizadas em países produtores de combustíveis fósseis, como Egito, Emirados Árabes Unidos e Azerbaijão.
No documento que entregamos aos negociadores, defendemos que o uso de combustíveis fósseis deveria ser zerado idealmente até 2040, no máximo até 2045. Isso está diretamente ligado às metas já pactuadas. A COP26 prevê reduzir 43% das emissões até 2030, 60% até 2035 e zerar as emissões líquidas até 2050. Esses números estão nos documentos, mas o mundo não está caminhando nessa direção.
Se olharmos, por exemplo, a meta voluntária da China, que hoje responde por cerca de 23% ou 24% das emissões globais, o compromisso é reduzir algo em torno de 10% até 2035. Isso é muito insuficiente.
Por isso, apesar da expectativa de que esta fosse a COP mais importante das 30, tão importante quanto a de Paris ou até mais, justamente por acelerar as metas, isso não aconteceu. A conferência não conseguiu avançar no ritmo que a ciência considera necessário.
A ciência ficou frustrada com o resultado da COP30?
Essa foi a primeira COP realizada em uma floresta tropical. Era uma oportunidade central para fazer a conexão entre aquecimento global e biodiversidade. O aquecimento global destrói a biodiversidade do planeta e pode levar à sexta extinção em massa da história da Terra. Manter a biodiversidade é essencial para garantir os serviços ecossistêmicos de todos os biomas, especialmente a remoção de gás carbônico da atmosfera.
Por isso, essa COP era esperada como a mais importante de todas, mas infelizmente não foi. O presidente da COP segue no cargo até outubro de 2026, antes do início da COP31, que será realizada na Turquia em parceria com a Austrália, e já declarou que continuará tentando convencer os países a adotarem metas mais ambiciosas.
O presidente Lula defendeu reiteradamente na COP30 a necessidade de um “mapa do caminho” para a transição climática, e o Brasil segue na presidência da conferência até a próxima COP. Ao mesmo tempo, o governo avançou na exploração de petróleo na foz do Rio Amazonas. Essa duplicidade compromete a liderança climática que o Brasil tenta exercer?
Um grupo de cientistas do qual faço parte foi o primeiro a mostrar que o Brasil pode zerar as emissões líquidas em 2040, e não em 2050. Lançamos esse estudo no dia 5 de novembro, na Academia Brasileira de Ciências, no Rio de Janeiro, e depois o reapresentamos na COP. É muito claro que o Brasil tem condições de fazer isso.
O país é um dos poucos em que apenas cerca de 20% a 22% das emissões vêm da queima de combustíveis fósseis. Isso é muito diferente da maioria dos países europeus, dos Estados Unidos e da China, onde mais de 70% das emissões vêm da queima de fósseis. Por isso, o Brasil pode acelerar muito, zerar as emissões até 2040 e eliminar o uso de combustíveis fósseis. Essa é uma liderança que o país tem todas as condições de exercer. Mas isso implica não abrir nenhuma nova exploração de petróleo, gás natural ou carvão.
A ciência também deixa claro, e foi isso que levamos aos negociadores: mesmo utilizando apenas as minas de carvão, os campos de petróleo e de gás natural que já existem, sem abrir nenhuma nova frente, ainda chegaríamos a 2050 emitindo de 9 a 10 bilhões de toneladas de gás carbônico por ano. Nesse cenário, seria impossível zerar as emissões líquidas, e o planeta ultrapassaria os 2 graus, podendo chegar a 2,5 graus de aquecimento até 2050.
Por isso, o que a ciência levou para a negociação, e o que o Brasil também defendeu, foi a necessidade de acelerar e zerar o uso de combustíveis fósseis. Para isso, é preciso encerrar gradualmente as minas de carvão e os campos de petróleo e gás já existentes. Não faz sentido, em nenhum lugar do mundo, abrir novas explorações.
E o caso da Foz do Amazonas? Como essa decisão se encaixa no discurso climático do governo?
O Ibama aprovou a prospecção para verificar se há petróleo. Mesmo que se encontre petróleo, até o início da exploração passam muitos anos, mais de cinco. Isso significa começar a explorar apenas na próxima década para, em tese, parar em 2040. Isso não faz sentido.
Durante a COP, o presidente Lula não parou de defender o fim do uso de combustíveis fósseis. Nesse contexto, não foi coerente que a prospecção já tivesse sido aprovada pelo Ibama.
Depois da COP, na semana seguinte, o presidente publicou um decreto determinando que os ministérios de Minas e Energia, da Fazenda, do Meio Ambiente e da Mudança do Clima apresentassem, em 60 dias, um estudo mostrando como zerar as emissões. No entanto, no final do documento aparece a ideia de usar recursos do petróleo para financiar a transição energética.
Isso não faz sentido, porque, se o mundo inteiro fizer isso, vamos ultrapassar os 2 graus de aquecimento até 2050, o que chamamos de ecocídio.
Além disso, hoje as energias renováveis já são economicamente muito mais vantajosas do que os combustíveis fósseis. No Brasil, que tem grande potencial de energia solar e eólica, o custo da eletricidade gerada por energia solar é cerca de um terço ou um quarto do custo da eletricidade gerada por termelétricas.
As energias renováveis também empregam quatro vezes mais pessoas do que a geração da mesma quantidade de energia por termelétricas a combustíveis fósseis. São fontes limpas e não emitem poluentes. Esses poluentes, oriundos do carvão, do petróleo e do diesel, são a principal causa da poluição nas cidades do mundo.
Como dialogar com o agronegócio que nega a crise climática e insiste em avançar sobre a floresta?
Essa é uma questão muito difícil. E não só no Brasil. Na maioria dos países do mundo, o agronegócio é negacionista em relação às mudanças climáticas. Por isso, vota em presidentes claramente negacionistas, como acontece nos Estados Unidos, no Brasil e na Argentina.
Você toca em um ponto importante, mas não é fácil, porque se trata de um setor que, politicamente, é negacionista de forma geral. Diante disso, o que eu considero mais importante é convencer as populações, principalmente por meio do consumo.
Nós não podemos deixar o agronegócio continuar destruindo. No Brasil está a maior biodiversidade do planeta e as maiores florestas. Eu estou muito mais preocupado em convencer a população, porque tem sido muito difícil convencer o agronegócio, mesmo quando estudos mostram que o setor corre um enorme risco de perda econômica com eventos climáticos extremos.
No ano passado, por exemplo, tivemos a pior safra de soja, uma mega seca, a Amazônia extremamente seca e o Cerrado também. Seria muito melhor se houvesse uma migração para a agricultura e a pecuária regenerativas. Mas isso não ocorre. Em vez disso, o setor pressiona politicamente o governo federal e o Ministério da Fazenda para cobrir os prejuízos.
É essa a lógica predominante. O Congresso, fortemente apoiado pelo agronegócio, com cerca de 63% de deputados e senadores ligados ao setor, tenta aprovar o PL 2159, conhecido como o PL da Devastação.
O argumento de que o colapso climático pode inviabilizar o próprio negócio deles não funciona?
A ciência está dizendo isso para eles há muito tempo e, até agora, não tem funcionado. A ciência diz isso com toda clareza.
Há também um outro ponto importante. Eu e outros cientistas climáticos não somos convidados para dar palestras fora do nosso meio. Quem eles convidam? Os pouquíssimos cientistas negacionistas que o Brasil tem. Esse é o espaço que eles dão.
Eles chamam cientistas que afirmam que aumentar a concentração de gás carbônico seria algo positivo, porque isso faria a agricultura aumentar muito a produtividade. Com mais gás carbônico na atmosfera, a fotossíntese aumentaria.
Esses cientistas negacionistas são muito ignorantes. Eles dizem que a fotossíntese aumenta, mas ignoram que, quando você tem ondas de calor e super secas, é isso que passa a dominar a produtividade. Uma super seca não deixa nem água no solo para que haja fotossíntese, nem para o crescimento das plantas e das pastagens.
Essas são questões que os negacionistas ignoram. Ainda assim, eles continuam sendo chamados. Eles não chamam cientistas como eu e meus vários colegas. A última vez que a Confederação Nacional da Agricultura me chamou para dar uma palestra foi há 23 anos.
E qual era o tema da palestra, o senhor lembra?
Exatamente: mudanças climáticas e o que poderia acontecer.
Provavelmente o senhor falou o que eles não queriam escutar, né?
É. Os cientistas climáticos sempre disseram isso. Eu participei do primeiro relatório do IPCC, em 1990, e já dizia naquela época que a temperatura do planeta estava meio grau mais quente. Eu alertava que não deveríamos deixar passar de um grau, porque, se isso acontecesse, seria muito grave.
Quando chegamos ao Acordo de Paris, em 2015, já estava claro que não havia mais como ficar em um grau. Estávamos muito próximos desse limite. Então os cientistas passaram a dizer que não poderíamos deixar passar de 1,5 grau.
A ciência vem dizendo isso com muita precisão. Infelizmente, a temperatura global acelerou ainda mais rápido do que a própria ciência previa. Nós dizíamos que a temperatura chegaria a 1,5 grau depois de 2040, mas ela já está chegando agora.
Nos últimos três anos, 2023, 2024 e 2025, 2024 ficou acima de 1,5 grau, e 2023 e 2024 ficaram muito próximos desse patamar. Nunca, desde que existe a civilização, há 10 ou 11 mil anos, o clima atingiu esse nível. Todos os eventos extremos se intensificaram muito.
Isso é extremamente preocupante, porque o agronegócio não percebe esse risco. Em geral, o agronegócio diz que não é responsável pelas emissões. De fato, o setor responde por algo entre 20% e 23% das emissões globais. Mas, quando se considera o uso de combustíveis fósseis associado ao agronegócio, esse número chega perto de 30%.
O governo brasileiro tem como meta zerar o desmatamento ilegal até 2030, mas o senhor defende o desmatamento zero total. Considerando que a legislação ainda permite desmatamento legal em biomas como o Cerrado e a Amazônia, por que essa distinção entre “legal” e “ilegal” é insuficiente diante do risco de colapso ambiental?
A Amazônia, o Cerrado, o Pantanal e a Caatinga estão na beira do ponto de não retorno. A Caatinga, por exemplo, já avançou cerca de 230 mil quilômetros quadrados sobre o Cerrado. O Pantanal, na sua área permanente de água, já perdeu 60%. A Amazônia também está na beira do ponto de não retorno. Por isso, nós temos realmente que zerar todo o desmatamento.
É interessante notar que, se você observar os discursos do presidente Lula durante a COP30, ele falou em “zerar o desmatamento” em todo o planeta, não apenas no Brasil. Ele não usou a palavra “ilegal”.
Eu estava em um evento dos negociadores e assisti ao discurso do vice-presidente Geraldo Alckmin. Ele falava em “zerar o desmatamento ilegal”. Mas a Amazônia é o bioma com a menor margem legal de desmatamento, de até 20%. Mesmo assim, nem esses 20% podem ser desmatados.
No Cerrado, a situação é ainda mais grave. A maior parte do bioma pode ter até 80% de desmatamento legal. Na transição entre o Cerrado e a Amazônia, esse percentual chega a 65%. Isso significa que, se em 20 ou 30 anos o agronegócio desmatar 80% do Cerrado, o bioma tende a se transformar em uma Caatinga, em um Cerrado semiárido.
Por isso, não pode. Precisamos de uma política de desmatamento zero para evitar os pontos de não retorno. Também é necessário restaurar uma grande parte do território. Precisamos fazer a transição de mais de 2 milhões de quilômetros quadrados de áreas de pecuária, sendo que mais de 50% dessas áreas estão altamente degradadas.
O que nós temos que torcer é para que essas questões cheguem à população brasileira e que, na eleição de 2026, não sejam eleitos políticos negacionistas. Precisamos reduzir drasticamente o número de políticos negacionistas e populistas para que o Congresso aprove o que o Brasil realmente precisa: um projeto de lei para zerar todos os desmatamentos.
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