29 Agosto 2025
Após os protestos de Tel Aviv, fala Shai Agmon, acadêmico israelense em Oxford e diretor da organização Molad: "Os protestos estão focados nos reféns, não no futuro do conflito: é um erro".
A reportagem é de Davide Lerner, publicada por Domani, 28-08-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Os últimos grandes apelos à mobilização pelo fim da guerra de Gaza e pela libertação dos reféns israelenses, na última terça e domingo, levaram entre 200 mil e 300 mil pessoas às ruas de Tel Aviv, atestando as manifestações como duas das maiores da história do país. As pesquisas, ademais, continuam indicando que uma maioria perto de 80% dos israelenses, seria favorável a um acordo sobre os reféns que encerrasse as hostilidades e à criação de uma comissão de inquérito para investigar os erros de 7 de outubro. Além disso, segundo alguns levantamentos da Universidade Hebraica de Jerusalém, a maioria dos soldados, entre 72% e 73%, também é favorável ao fim da guerra.
Vários fatores contribuíram para novo ímpeto dos protestos: os vídeos dos reféns ainda mantidos pelo Hamas, visivelmente desnutridos; a decisão do governo de prosseguir com a invasão terrestre da Cidade de Gaza, mesmo ao custo de colocar suas vidas em risco; e o posicionamento do Chefe do Estado-Maior, Eyal Zamir, que expressou reservas quanto à ordem peremptória das autoridades políticas de expandir ainda mais as operações na Faixa.
Mas, de acordo com Shai Agmon, acadêmico israelense em Oxford e diretor da organização Molad, um centro para a renovação da democracia israelense, "já aconteceu durante a guerra que eventos de forte impacto emocional injetassem nova energia nos protestos". No entanto, prossegue, "sem uma oposição atuante para canalizar essa energia por meio de mecanismos institucionais, fazendo a diferença, o ímpeto poderia esmorecer, como nos casos anteriores".
O movimento abraça a causa unificadora dos reféns, evitando qualquer identificação com os partidos políticos de oposição, apresentando-se como representativo do consenso nacional. Mas, justamente por isso, "é difícil traduzir a mensagem apolítica para a arena política", explica Agmon. "A despolitização do movimento, para evitar sua fragmentação, também está na base da decisão de evitar a questão central do futuro do conflito, o que, na minha opinião, é um erro".
Outro aspecto desmoralizante, de uma perspectiva europeia, é a relutância persistente dos organizadores em incluir instâncias críticas dos crimes de guerra cometidos pelo exército israelense em Gaza. No dia seguinte ao massacre de jornalistas no Hospital Nasser, por exemplo, não havia o mínimo sinal de indignação pelo episódio nos discursos oficiais durante o dia de protestos. "Há quem carrega imagens de crianças palestinas mortas nos ataques israelenses", diz Agmon, "mas certamente não é esse o motivo que leva massas de israelenses às ruas". Segundo dados do centro de estudos Acord, que faz parte da Universidade Hebraica de Jerusalém, a maioria do público israelense continua a pensar que não existem civis inocentes em Gaza (cerca de três quartos, se for limitada a amostra ao público israelense judeu).
Israel está saindo às ruas sem parar há quase três anos. Nos primeiros três trimestres de 2023, os protestos se concentraram na reforma do judiciário promovida pelo governo, o mais de direita da história de Israel. A mobilização teve sucesso em desacelerar o processo de reforma, ao custo de causar uma profunda cisão dentro do país. Após o 7 de outubro, os ativistas colocaram os mecanismos organizacionais do protesto a serviço da população israelense atingida, e os protestos antigovernamentais cessaram por alguns meses. Desde então, o governo de extrema direita, que segundo as pesquisas não representava mais a maioria da população, rotulou qualquer expressão de dissenso com as políticas extremistas como formas de traição ao país em tempos de guerra. Apesar disso, as ruas voltaram a se lotar para exigir a libertação dos reféns.
Netanyahu e seus pareceram dispostos a ajustar o tom apenas para responder a pressões externas, particularmente à do governo estadunidense. Tanto que as ruas de Tel Aviv agora dirigem suas preces por um acordo a Trump, e não, como seria natural, ao governo israelense. Nesse interim, os apelos contra o genocídio em Gaza do grande escritor David Grossman, ou contra os crimes de guerra do ex-primeiro-ministro Ehud Olmert, caem no vazio, revelando apenas a menor influência dessas figuras. Ao excluir completamente a questão palestina, em certo sentido, as ruas continuam a se assemelhar às do período anterior ao 7 de outubro.
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