30 Agosto 2025
"Se 'somos uma família global', é preciso olhar para as necessidades uns dos outros. Daí, Irmã Dorothy nos aponta que a primeira ação imediata para nos vermos como família é a 'partilha', também chamada por ela de 'um profundo valor cristão'", recorda Felício Pontes Jr., em sua oitava carta de memória aos 20 anos do martírio de Irmã Dorothy Stang, que foi celebrado no dia 12 de fevereiro de 2025.
O martírio da Irmã Dorothy Stang será lembrado pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU durante os doze meses de 2025. Em cada mês, Felício Pontes Jr., Procurador da República junto ao Ministério Público Federal, em Belém, e assessor da Rede Eclesial Pan-Amazônica – Repam, publicará uma carta em memória à religiosa.
Felício Pontes Jr. era amigo da irmã Dorothy e como procurador segue os seus passos, atuando nas causas defendidas pela missionária. Em entrevista à IHU On-Line, em 2009, ao lembrar do trabalho da missionária, ele a classificou como “o Anjo da Amazônia”. “Tudo que ela tentou estabelecer foi o desenvolvimento integral dos povos da floresta. Isso implica também na relação do homem com a natureza”, disse na ocasião.
Eis o artigo.
Não há dúvida de que migrantes possuem um senso de pertencimento ao mundo que, no geral, difere de quem não é migrante. Possuem mais forte o entendimento do planeta Terra como uma aldeia global, o que também é encontrado na cosmovisão dos povos originários e na Laudato Sì do Papa Francisco, na feliz expressão “nossa casa comum”.
Essa característica parece dotar a pessoa de uma relação mais respeitosa para com a natureza e os seres humanos. Faz com que a dor pela violação de direitos humanos em Gaza, por exemplo, também seja sentida por quem está a milhares de quilômetros do conflito. Faz com que lutemos juntos contra o aquecimento global. Faz com que nos sintamos como uma família global.
Parece ter sido nessa perspectiva que Irmã Dorothy escreve em uma carta que nos insere numa mesma família e nos indica como agir para mantê-la:
"Somos um povo global — uma família. Um profundo valor cristão é a partilha. Sou um instrumento para ajudá-los a se unir. Sou uma pessoa livre para fazer isso".
A compreensão de que somos partes da mesma família global é a mais evidente das conclusões, e dela partem duas outras características que põem em prática a existência dessa mesma família global. Vejamos.
Se “somos uma família global”, é preciso olhar para as necessidades uns dos outros. Daí, Irmã Dorothy nos aponta que a primeira ação imediata para nos vermos como família é a “partilha", também chamada por ela de “um profundo valor cristão".
A segunda característica é a união. Na frase, a existência de desavenças parece fazer parte da caminhada. E elas, apesar de existentes, não devem predominar. Daí Irmã Dorothy se coloca como “um instrumento para ajudá-los a se unir”. A busca pela conciliação não parece ser fácil. Tanto assim que a frase seguinte é: “sou uma pessoa livre para fazer isso".
Irmã Dorothy mostrava nessa carta o tamanho do desafio que encarava, tanto assim que havia a necessidade de entrega total para o exercício dessa missão, pois jamais foi fácil buscar a união sem comprometer a diversidade das pessoas, encarada por ela sempre como uma dádiva, e não um motivo para que um grupo, uma nação ou uma raça pudesse se sobrepor à outra.
O legado parece claro: é preciso ver a humanidade como uma família, comprometer-se com as necessidades dos outros através da partilha e ajudar na conciliação quando as desavenças surgirem. Aí está uma receita tão simples e tão difícil para os desafios de hoje.
Confira a versão em áudio do Especial Irmã Dorothy Stang – 20 anos de martírio e profecia.
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