27 Março 2025
A reportagem é de Luis Miguel Modino, publicada por Religión Digital, 26-03-2025.
Nos dias 25 e 26 de março de 2025, a sede do Regional Norte 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, em Belém do Pará, cidade que será sede da COP em novembro, acolheu a Pré-COP Norte, com a participação de mais de 50 representantes dos Regionais Norte 1, 2, 3, Noroeste, Nordeste 5 e Oeste 2, no âmbito do programa Igreja rumo à COP-30, organizado pela CNBB Nacional e que pretende suscitar a reflexão sobre o cuidado da nossa casa comum, tema da Campanha da Fraternidade 2025.
Uma celebração eucarística, presidida por Paolo Andreolli, bispo auxiliar de Belém e membro da comissão da CNBB para a preparação da COP-30, deu início ao encontro. No dia da Anunciação do Senhor, o bispo destacou a importância dos sinais, de ser sinal, de esperança, de "fazer realidade o que esperamos e desejamos". Sublinhou que "o filho de Isabel se torna para Maria um sinal de que nada é impossível para Deus", chamando os participantes do encontro a ser sinal, a entrar no caminho da conversão ecológica, a passar da lógica da extração desenfreada de recursos para a lógica do cuidado.
Um encontro, o primeiro dos cinco que serão realizados em cada uma das grandes regiões do Brasil, que pretende facilitar processos de convergência, "para tentar compreender qual é o nosso papel diante do desafio da ecologia integral", segundo o assessor da Comissão Episcopal para a Ação Socio-Transformativa, Dário Bossi. Destacou a importância do Magistério do Papa Francisco e do trabalho ecumênico e a interação com outros processos populares, como a cultura dos povos e outras iniciativas.
O objetivo é buscar ajuda coletiva para descobrir os desafios da COP-30 como igrejas locais e crescer em incidência a nível nacional e internacional. Trata-se de entender como a COP-30 nos interpela nos diferentes níveis de nossa presença como Igreja, com vistas a fortalecer a ação das igrejas nos territórios, pois é a partir dos territórios que se produzem as mudanças e se faz a diferença, tecendo redes. Ao mesmo tempo, ser multiplicadores nos espaços onde cada um vive, destacou o missionário comboniano.
Um encontro que "é independente do tema central, que são as questões climáticas que afetam todo o planeta, mas que têm impacto, sobretudo, nos que vivemos na Amazônia", disse o bispo auxiliar de Manaus, Hudson Ribeiro. Segundo ele, a Pré-COP "é um encontro que realmente nos provoca a pensar na crise que estamos vivendo. É pior do que imaginávamos, e estamos tendo esta oportunidade de aprofundar nossos conhecimentos com pessoas convidadas que compartilham essas experiências em nossas comunidades, em nossos grupos, nos territórios onde a Igreja atua. Mas também estamos tendo a oportunidade de ouvir cientistas que pesquisam e estão aqui na região amazônica, que se atualizaram com os resultados dessas pesquisas sobre o impacto do aquecimento global nos territórios, e isso nos alertou para pensar em alternativas mais concretas".
O bispo insiste na necessidade de que "isso esteja na agenda global, que se discuta nos parlamentos, que seja uma questão de governança, e não apenas dos estados, dos municípios, que se valorizem as iniciativas que ali estão presentes, mas que, de fato, o grito dos povos, o grito dos pobres, o grito daqueles que são mais vulneráveis e são afetados por esses impactos do aquecimento global, encontrem eco em nossos corações como Igreja". Diante dessa realidade, pede "que sejamos voz, que sejamos mãos, que sejamos também braços. Este grito de alerta pelo cuidado do Planeta, sem perder a esperança, mas sendo muito objetivos diante dos dados que recebemos, que é o impacto do aquecimento global no Planeta, com um impacto, sobretudo, nos que vivem na Amazônia".
Segundo Erwin Kräutler, bispo emérito da diocese do Xingú, a Igreja Católica sempre teve um papel profético histórico diante da crise socioambiental. Chamou à responsabilidade com vistas às gerações futuras, a denunciar como Igreja que “a Amazônia não é para lucrar, a Amazônia é para viver e sobreviver”, e a pensar especialmente nos povos indígenas. Nesse sentido, como mostrou a análise do professor Mario Tito sobre as Conferências Climáticas em tempos de crise, que abordou o contexto geral e os temas centrais, é necessário assumir que “nossa fé deve ter um desdobramento no campo social”, especialmente na Amazônia, uma região que tem sido explorada irracionalmente e que deve nos levar a pensar nas pessoas e em seu desenvolvimento a partir da perspectiva da ecologia integral, cuidando da vida e do meio ambiente ao mesmo tempo.
Os participantes conheceram os Eixos Temáticos da Conferência sobre o Clima e refletiram, com a ajuda de Ima Vieira, sobre a “Crise climática e eventos extremos no bioma amazônico e na zona costeira da macrorregião Norte”. Paralelamente, foram apresentadas experiências de territórios indígenas, pesqueiros, quilombolas e agrícolas, com testemunhos muito fortes de denúncia dos grandes projetos, especialmente contra as empresas mineradoras, e destacando o papel da Igreja para que esses povos possam continuar existindo. Os participantes conheceram os passos dados pela Mobilização dos Povos pela Terra e pelo Clima da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), junto com a Cúpula dos Povos, e houve rodadas de conversas regionais, que apresentaram seus compromissos frente aos acordos macrorregionais.
De cara à COP-30, “a Igreja no Brasil está se mobilizando para que a própria população, a sociedade, seja mais consciente de tudo o que está ocorrendo no mundo, especialmente aqui em nossa realidade, aqui na Amazônia”, segundo a irmã Rosiene Gomes. A coordenadora das Pastorais Sociais do Regional Norte 1 da CNBB destaca a importância da Pré-COP, porque nos faz mergulhar na realidade, superando visões superficiais, o que nos leva a tomar consciência dos danos que prejudicam a população, especialmente as populações mais vulneráveis.
A religiosa enfatizou a reflexão sobre o papel da Igreja diante do cenário destrutivo atual, com tanta destruição que afeta a vida no planeta. Sublinhou a importância de agir “como Igreja, juntos, em comunhão, especialmente neste momento em que falamos tanto de caminhar juntos”. Um encontro que deve nos levar a “assumir nosso papel de cristãos com mais compromisso, mais responsabilidade”.