05 Abril 2025
"Ao contrário de Morselli, porém, muitas vezes elas não têm uma trepidação na alma e seguem em frente satisfeitas, apegadas às coisas, presas a uma superficialidade que lhes permite passar os dias sem um empenho ético e sem uma busca de sentido para suas ações. O Sócrates evocado por seu discípulo Platão já advertia que 'uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida'", escreve o cardeal italiano Gianfranco Ravasi, em artigo publicado em Il Sole 24 Ore, 30-03-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Minha vida é bastante provida de supérfluos, mas é tão pobre em coisas essenciais.
É uma frase terrível se pensarmos no ponto em que chegou quem a escrevia em seu Diário: em 1973, em Varese, o escritor Guido Morselli tirava a própria vida aos 61 anos. Seus romances, de forte impacto e originalidade, haviam sido rejeitados por vários editores e só teriam grande sucesso após sua morte. No entanto, não era apenas o fracasso editorial que levou o autor a esse trágico estuário da vida: as páginas de seu Diário publicado em 1987, por um lado, refletem o exterior burguês de sua condição social, mas, por outro, revelam o vazio interior que estava se abrindo em sua existência. O autorretrato que propomos é, paradoxalmente, o perfil de tantas pessoas providas de todos os bens materiais, mas completamente desprovidas de valores e de afetos verdadeiros. Na prática, poderíamos efetivamente aplicar a elas o título jocoso do filme Nada por baixo.
Ao contrário de Morselli, porém, muitas vezes elas não têm uma trepidação na alma e seguem em frente satisfeitas, apegadas às coisas, presas a uma superficialidade que lhes permite passar os dias sem um empenho ético e sem uma busca de sentido para suas ações. O Sócrates evocado por seu discípulo Platão já advertia que “uma vida sem reflexão não vale a pena ser vivida”. Para muitos, no entanto, a mera sobrevivência trivial é uma escolha que evita qualquer questionamento e, assim, lentamente entorpece a mente e narcotiza a consciência. Nesse ponto, passando para outro tema e continuando a folhear o Diário de Morselli, concluímos com uma frase irônica que ele escreveu na página de 20 de outubro de 1957: “A Itália é um país adorável que mereceria, no entanto, ser melhor habitado”.