29 Novembro 2024
Análise de investidores indica que meta definida há 15 anos deveria ter sido cumprida em 2020; desempenho ruim afetou renovação de compromisso negociado na COP29.
A reportagem é publicada por ClimaInfo, 29-11-2024.
Para surpresa de ninguém, os países ricos não fizeram sua parte no esforço global de financiamento para ação climática nas nações em desenvolvimento. Uma análise divulgada nesta semana pelo projeto Assessing Sovereign Climate-Related Risks and Opportunities (ASCOR) mostrou que 81% dos governos ricos não estão destinando recursos correspondentes a sua “parcela justa” do financiamento de US$ 100 bilhões anuais, meta definida há 15 anos na COP15 de Copenhague.
A lacuna do financiamento climático é ainda mais preocupante se considerarmos que, em tese, essa meta dos US$ 100 bilhões deveria ter sido cumprida em 2020. O tema foi uma das polêmicas que afetaram as negociações em torno da nova meta de financiamento na COP29 de Baku, finalizada na semana passada.
De acordo com a análise, apenas França e Alemanha têm contribuições alinhadas à meta original, tanto em compromissos já cumpridos quanto em novos valores prometidos. O relatório ainda não analisou os compromissos à luz da nova meta de US$ 300 bilhões anuais até 2035, mas indica que o caminho para viabilizar esse montante – apontado como insuficiente pelos países em desenvolvimento – será bem mais tortuoso do que imaginado.
O ASCOR também analisou as metas de mitigação que constam nas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs). A maioria (80%) dos 70 países avaliados tem uma meta de descarbonização (net-zero), mas apenas um grupo pequeno de países prevê atingir esse quadro antes de 2050 – Barbados e Noruega (2030), Finlândia (2035), e Áustria, Dinamarca, Alemanha e Suécia (2045 ou antes).
Do total de 70 países, 14 têm metas de mitigação para 2030 que estão alinhadas com a meta de 1,5°C ao usar uma abordagem de “participação justa”, que aloca o orçamento de carbono de 2030 com base em princípios de equidade.
O relatório também afirmou que os países “têm um desempenho ruim em compromissos de eliminar gradualmente os subsídios e a produção de combustíveis fósseis, tornando os fluxos financeiros inconsistentes com um futuro de 1,5°C”. Peru e Uruguai, além do território chinês de Hong Kong, são os únicos países que atualmente não subsidiam combustíveis fósseis.
Bloomberg e Business Green repercutiram os principais pontos da análise.
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