Francisco e a literatura: Deus... que emoção

Papa Francisco, carta sobre literatura | Foto: Vatican Media

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04 Outubro 2024

"Em outras palavras, a escuta ativa dos outros na qual se descobre o Outro e o eu (mais) profundo, o discernimento como forma refinada e (mais) abrangente de juízo, a revelação de um sentido que excede o 'sempre foi feito assim' que doa nova linfa ao nosso viver juntos", escreve Sergio Ventura, jurista italiano, em artigo publicado por Vino Nuovo, 01-10-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

No verão, pode acontecer de encontrar, seja à beira-mar ou nas montanhas, alguma “joia” da natureza cuja beleza enriquece nosso tempo de descanso e cuja lembrança iluminará esse tempo de retomada do trabalho cotidiano. Isso também pode valer do ponto de vista eclesial, como, por exemplo, aconteceu este ano com a publicação de uma pequena, mas densa, carta do Papa Francisco “sobre o papel da literatura na formação” dos presbíteros, dos agentes pastorais e de todo cristão: um verdadeiro presente, a ser desembrulhado pouco a pouco.

É claro que se poderia dizer que o texto sofre do velho dualismo entre razão e sentimento (ou emoções), pois exalta a literatura como “via de acesso” (13) à parte emocional do ser humano, ao mundo dos sentimentos humanos - o que Marcello Neri chamou de “affectus. Por outro lado, também é verdade que a teologia e, mais ainda, o magistério ainda estão em dívida com essa esfera do ser humano: para alguns, porque é, em última análise, inferior à racionalidade (uma espécie de sentimentalismo), para outros, porque é tão superior que escapa a toda inteligência (em uma espécie de misticismo mal compreendido).

Não é por acaso que a Igreja tem dificuldade de entender e dialogar com seus contemporâneos: o tempo (pós-moderno) em que vivemos colocou esse aspecto do ser humano no centro, com todos os seus lados (e implicações) positivos e negativos. Já há um século, Eliot falava de “incapacidade emocional” e, seguindo os passos do poeta inglês, o Papa Francisco afirma que “o problema da fé nos dias de hoje não é, em primeiro lugar, o de acreditar mais ou acreditar menos em proposições doutrinais. Liga-se antes à incapacidade de tantos se comoverem perante Deus, a sua criação e os outros seres humanos. Por conseguinte, abre-se aqui a tarefa de curar e enriquecer a nossa sensibilidade” (22).

É por isso que, embora dentro desses limites, parece-me absolutamente oportuno que um texto do Magistério busque um certo reequilíbrio entre as esferas emocional e racional, mesmo que sofra algo em termos de complexidade da análise (que hoje é conduzida mantendo os dois aspectos juntos de maneira quase inseparável). O próprio Neri vê, na Carta de Francisco, “o começo de uma possível teologia fundamental que está por vir - literalmente o alter da Fides et ratio de João Paulo II”: a “fides et affectus”. O sentido da literatura para a fé

Analisando o texto, então, emerge claramente que a literatura é considerada como o “acesso privilegiado (...) ao coração do ser humano” (4), à sua “verdade” (26), que é também o seu “mistério” (5). Porque dela decorrem todas as “questões de sentido” (26) ligadas, por um lado, aos “sonhos” (3), aos “ideais” (9), aos “desejos” (6) e às “paixões” (8); e, por outro lado, às “tensões” (6) e aos “dramas” (7), até os “abismos” (13) dos “vazio” (7) e do “tédio” (28), das “solidões” (7) e das “violências, medos” (9), “angústias” (26).

A literatura entendida dessa forma, precisamente por causa dessa capacidade de atravessar sem remover ou ocultar o que Inácio de Loyola chamava de “escuridão da alma” (27), é (re)avaliada como uma fonte de “amadurecimento pessoal” (1), como aquilo que “permite que a riqueza da pessoa floresça” e “renova e amplia o universo pessoal” (3), como aquilo que “abre novos espaços interiores” (2), “na direção (...) de uma ampliação da própria sensibilidade humana e, finalmente, de uma grande abertura espiritual para escutar a Voz através de muitas vozes“ (41), evitando assim cair naquele “autoisolamento” que constituiria “uma espécie de surdez ’espiritual'” (20), um “grave empobrecimento intelectual e espiritual” (4).

Essa “amplitude de perspectiva que alarga a nossa humanidade” (34) a ponto de nos fazer compreender melhor a “maravilhosa diversidade do ser humano” (35) deriva, para o Papa Francisco, em primeiro lugar, da relação de identificação com os outros que a literatura nos permite estabelecer - como também percebido por Marcello Tarì em termos de uma “’saída’ em direção ao outro ou ao alhures (...) que nos salva de nós mesmos”.

Ela, por meio do “poder empático da imaginação” (34), “nos torna sensíveis ao mistério dos outros, (...) nos faz aprender a tocar seus corações” (21) e “a ouvir a voz do outro que nos interpela” (20). Graças a ela, “somos capazes de ‘ver através dos olhos dos outros’” (34), adquirindo a “capacidade de identificação com o ponto de vista, a condição, o sentimento dos outros” (34): “à medida que sentimos vestígios do nosso mundo interior no meio dessas histórias, tornamo-nos mais sensíveis às experiências dos outros, saímos de nós próprios para entrar nas suas profundezas, conseguimos compreender um pouco mais as suas lutas e desejos, vemos a realidade com os seus olhos e (...) mergulhamos na existência concreta e interior dos outros” (36).

Encontrar outro e outros

Os outros, além disso, não são apenas as “pessoas concretas” com cuja “vida” a literatura nos coloca em “diálogo” (8), mas também “a cultura do tempo”, com a qual a literatura inicia um “diálogo igualmente fecundo” (13), a fim de compreender seu “coração” (4), seu “centro” (9). Isso vale para culturas “antigas e novas” (9): “o cristianismo primitivo, por exemplo, [percebeu] bem a necessidade de uma relação estreita com a cultura clássica... É precisamente desse encontro, do acontecimento cristão com a cultura daquele tempo, que emerge uma original reelaboração do anúncio evangélico” (11). É, portanto, a própria história do cristianismo que é a bancada de teste da importância e da veracidade do que nos recorda o Papa Francisco, afirmando que “o contato com diferentes estilos literários e gramaticais permitirá sempre aprofundar a polifonia da Revelação, sem a empobrecer ou reduzir quer às próprias exigências históricas quer às próprias estruturas mentais” (10).

Tal encontro e contínuo confronto com a “pluralidade diacrônica e sincrônica” (35) das alteridades culturais desenvolve ou enxerta no nós eclesial, cada vez sempre geo-historicamente contextualizado, potencialidades desconhecidas ou pouco percebidas por ele. Isso vale para frente, olhando para a difusão global do cristianismo: “a missão eclesial soube desenvolver toda a sua beleza, frescura e novidade no encontro com diversas culturas – e muitas vezes graças à literatura – nas quais se enraizou, sem medo de arriscar e de extrair o melhor daquilo que encontrou. É uma atitude que a libertou da tentação de (...) acreditar que uma certa gramática histórico-cultural tem a capacidade de exprimir toda a riqueza e profundidade do Evangelho” (10).

Mas tudo isso também se aplica para trás, até à complexidade do evento Jesus que, sem tudo o que a literatura escreveu (e não apenas sobre ele), seria mutilado de sua “carne”: “aquela carne feita de paixões, emoções, sentimentos, histórias concretas, de mãos que tocam e curam, de olhares que libertam e encorajam, de hospitalidade, perdão, indignação, coragem, intrepidez” (14). Em outros termos, ainda mais claro, somente “o assíduo recurso à literatura pode tornar alguém (...) ainda mais sensível à plena humanidade do Senhor Jesus (...) concreto com as feridas, os desejos, as recordações e as esperanças da sua vida” (15). O amadurecimento, o florescimento e o enriquecimento da “nossa” (39) personalidade e da cultura (também religiosa) - em toda a sua sensibilidade espiritual, intelectual e ética - dependem, porém, na visão de Francisco, também de duas outras atitudes que a literatura nos “obriga” a praticar: o discernimento (dos “espíritos”) e o dar nome (às coisas).

Discernir e dar nome

Com relação ao primeiro, Francisco fala explicitamente de “uma espécie de ginásio de discernimento, que aguça as capacidades sapienciais de escrutínio interior e exterior” (26), “um ginásio onde se treina o olhar para procurar e explorar a verdade das pessoas (...) que só pode parcialmente se pode manifestar em categorias, esquemas explicativos, dinâmicas lineares de causa-efeito, meio-fim” (32).

Isso não deve surpreender quando tiver se entendido que a vida é “um terreno instável, onde as fronteiras entre salvação e perdição não estão a priori definidas e separadas” (29) e, nele, nos movemos dentro de frestas luminosas, mas também obscuras, entre os quais a literatura educa a penetrar e, de fato, discernir. Isso vale também em relação não só às pessoas, mas também às culturas e à voz do Espírito que sussurra nelas (e para elas): “graças ao discernimento evangélico da cultura, é possível reconhecer a presença do Espírito na variegada realidade humana, é possível, isto é, captar a semente já plantada da presença do Espírito (...) nas tensões profundas (...) dos contextos sociais e culturais” (12). Nesse sentido, o discernimento educado pela literatura não nega o juízo, “não neutraliza o juízo moral” - oferecendo, porém, “critérios de valor (...) do bem e do mal, do verdadeiro e do falso” - mas o refina, torna-o mais terno, compassivo, misericordioso: “impede que se torne cego ou superficialmente condenatório” (38), “educa (...) para a lentidão da compreensão, para a humildade da não simplificação, para a mansidão de não pretender controlar a realidade e a condição humana” até “traduzir-se na sentença de morte, no cancelamento, na supressão da humanidade” (39).

Em outras palavras, a literatura educa a capacidade de discernimento do leitor “para a descentralização, para o sentido de limite, para a renúncia do domínio cognitivo e crítico sobre a experiência, ensinando-lhe (...) a impossibilidade de reduzir o mistério do mundo e do ser humano a uma polaridade antinômica de verdadeiro/falso ou de certo/errado” (40), porque entende o juízo ”não como um instrumento de dominação, mas como um impulso para a escuta incessante e como disponibilidade para se envolver nessa extraordinária riqueza da história que se deve à presença do Espírito, que também se dá como Graça, isto é, como acontecimento imprevisível e incompreensível” (40).

O discernimento educado pela literatura, portanto, consiste em uma operação de compreensão que permite discernir os detalhes e perceber os sussurros; ajuda a ver os claros-escuros e a escutar os não ditos; ensina a se deixar surpreender e questionar pela complexidade, a ter paciência diante da mistura de trigo e joio. Como tal, constitui uma atitude que faz amadurecer e florescer uma sensibilidade espiritual, intelectual e ética mais profunda nas pessoas e em uma cultura.

Por fim, há uma terceira atitude que vai nessa direção e está estritamente relacionada ao discernimento. Se este último, de fato, torna possível perceber das pessoas e culturas “seus contornos e nuances” (sem escondê-los ou removê-los), segue-se a possibilidade de ver a literatura que o educa como “‘um telescópio’” (Proust) - “um laboratório fotográfico” (Spadaro) - apontado para a vida, capaz de “pôr em foco (...) o conjunto da experiência humana [e] seu significado” (30), capaz de “deixar emergir o infinito excesso de ser” e o “excesso de sentido” presente no “real” (32) portanto, “de ‘dar nome’, de dar sentido, fazer-se instrumento [da] Palavra e seu poder de iluminar todos os aspectos da condição humana” (43): a literatura “expressa e transmite a riqueza da experiência, sem a objetivar na representação descritiva do conhecimento analítico ou no exame normativo do juízo crítico, mas enquanto conteúdo de um esforço expressivo e interpretativo para dar sentido à experiência” (35). Isso significa que ela “ajuda-nos a dizer a nossa presença no mundo, a ‘digeri-la’ e a assimilá-la, captando o que vai para além da superfície da experiência” (33).

Compreender um pouco melhor o “sentido” de nossa vida comum, especialmente sobre o que parece “invisível” (21, 44), também nos permite expressá-lo de modo mais adequado, o que muitas vezes é mais um sinal de amadurecimento e florescimento de uma pessoa ou cultura.

É por isso que Francisco escreve que a literatura, entendida dessa forma, “põe a linguagem em movimento, liberta-a e purifica-a; abre-a, por fim, às suas ulteriores possibilidades expressivas e exploratórias”, permitindo “quebrar os ídolos das linguagens autorreferenciais, falsamente autossuficientes e estaticamente convencionais” (42). Por outro lado, “adquirir um vocabulário mais amplo” e “aprender a expressar as próprias narrativas de maneira mais rica” permite “desenvolver vários aspectos da (...) inteligência” - “a imaginação e a criatividade”, “a capacidade de concentração” - reduzindo “os níveis de déficit cognitivo” e acalmando “o estresse e a ansiedade” (16).

No âmago do dom de verão do Papa Francisco, portanto, encontramos - nas palavras de Marcello Tarì - “escuta do outro e exercício de discernimento”, “possibilidade de conversão de si e subversão das narrativas dominantes”. Em outras palavras, a escuta ativa dos outros na qual se descobre o Outro e o eu (mais) profundo, o discernimento como forma refinada e (mais) abrangente de juízo, a revelação de um sentido que excede o “sempre foi feito assim” que doa nova linfa ao nosso viver juntos. Mais uma vez, uma espécie de caminho sinodal reduzido, para a qual a literatura também pode contribuir.

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