21 Março 2024
"Acima de tudo, Nicodemos não pode esconder que está indo à noite porque, nas palavras do rapper milanês, 'a verdade não se explicita' pois 'é preciso coragem / para dizer: ‘Sou um covarde’'. Para dizer isso, em primeiro lugar, para si mesmo, quando talvez se tenha ficado calado (Jo 2,17.22) diante da perpetuação de uma injustiça (Jo 2,14) ou se murmurou junto com os outros contra aquele que a denunciou e combateu (Jo 2,18,20)", escreve Sergio Ventura, jurista italiano, em artigo publicado por Vino Nuovo, 16-03-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
É sempre o mesmo eu que se abre e se fecha para a verdade? Ou existe um critério para discernir o eu que acolhe a luz daquele que se fecha nas trevas?
Na noite escura de Nicodemos, como naquela de cada um de nós, parece-me que se impõe esse questionamento fundamental: a “verdade” última sobre o ser humano, sobre cada um de nós, será revelada, iluminada, por uma palavra de amor e de salvação (Jo 3,16-17,19)? Ou será trancada, escurecida, em uma palavra de (auto)condenação e perdição de si (Jo 3, 18-19)? Em outras palavras, o ser humano, cada um de nós, é fundamentalmente bom (mesmo que faça o mal) ou é irremediavelmente mau (Jo 3,20)?
Talvez nunca encontremos a resposta a essa pergunta, de vago saber metafísico, ainda que a direção indicada pelo Evangelho para a primeira opção seja suficientemente clara. O que, porém, acontece com mais frequência é encontrar companheiros de viagem levados a caminhar pela mesma questão, cansados por medos semelhantes, estimulados por esperanças que se assemelham.
Há algumas semanas um desses companheiros é Marracash, que no álbum Noi, loro e gli altri dedica uma música (intitulada Io) à verdade, à relação entre o “ego” e a “verdade”. E faz isso utilizando uma bela e conhecida música – Angeli – daquele Vasco Rossi que, em termos de saber colocar em relação (incandescente) a verdade e o eu, tem muito pouco a aprender…
A introdução da canção poderia ter sido proferida sussurrando pelo próprio Nicodemos, durante a viagem noturna para visitar Jesus, com o desejo de resolver também essa dúvida: “quantas mentiras contamos a nós mesmos / para nos sentirmos seguros / para nos sentirmos protegidos / ou quem sabe/ talvez sejamos mentirosos porque nunca nos disseram a verdade".
Nicodemos, de fato, sabe que está indo visitar aquele que poderia ser a verdade em pessoa, certamente aquele que considera como um mestre vindo de Deus (Jo 3,2). Talvez preveja, como descobrirá mais tarde, que a verdade rumo à qual está caminhando é complexa, complicada – “a verdade não simplifica”, canta Marracash. Acima de tudo, Nicodemo não pode esconder que está indo à noite porque, nas palavras do rapper milanês, “a verdade não se explicita” pois “é preciso coragem / para dizer: ‘Sou um covarde’“. Para dizer isso, em primeiro lugar, para si mesmo, quando talvez se tenha ficado calado (Jo 2,17.22) diante da perpetuação de uma injustiça (Jo 2,14) ou se murmurou junto com os outros contra aquele que a denunciou e combateu (Jo 2,18,20).
Os exegetas me perdoarão, mas sempre gostei de pensar que a cena noturna de Nicodemos é simbolicamente posterior ao dia em que Jesus realizou uma dramática “limpeza” no pátio do Templo (Jo 2,15-16). Como se o evangelho quisesse nos dizer que Nicodemos, indo até Jesus, tivesse medo de estar usando mais uma “máscara em cima da máscara que você já usa todos os dias”, e de ter que confessar que “a hipocrisia é a invenção do século" porque muitas vezes você "vende barato a sua verdade pela mentira deles".
Por outro lado, não se pode negar que o fariseu Nicodemos corresponde àquele homem com “a consciência de Zeno” cantado por Marracash: um homem que “se interroga / sobre a sua vida” - se “tudo continuará como está / enquanto há quem não tem pão”; um homem que, em última análise, não quer que “o mundo volte a ser o que era antes”. Por isso, Jesus, após se expressar com perguntas e frases à queima-roupa nos dois primeiros capítulos de João, presta homenagem a Nicodemos conversando com ele em um nível extraordinário de profundidade espiritual (Jo 3,3-21).
Para Jesus, trata-se de renascer do alto (Jo 3,3.7). Marracash fala de “idealismos sufocados”. Há, portanto, pouco para santificar da vida anterior - evangelicamente, aquela da carne (Jo 3,6); há poucas justificativas a serem dadas para o que Nicodemos chama de homem velho (Jo 3,4). Marracash exprime-se de forma semelhante: “a verdade não santifica / a verdade não justifica”; então, se não queremos (auto)condenar-nos “a não nos compreendermos”, é “hora de (…) colocar o ego de lado”, de dizer “ao velho eu: “você confunde o fim com o meio”, de “aprender com o passado e não queimá-lo”.
Então, apesar da tentação de concluir que “talvez nada faça sentido”, Marracash, como Nicodemos, pode submeter o seu próprio eu à obra da verdade (Jo 3,21): “Eu que não sou mais eu / eu não confio em Deus / Eu todo e / Eu nada / Eu essa noite / Ah, eu sempre / eu sem mais nada meu (meu) / eu e nada além que eu (uoh) / Eu, eu (ah-ah) / eu, eu, eu (ah-ah) / eu, nah”.
Um eu ambivalente que, por um lado, já não é mais tal, não tem mais nada de próprio, está quase aniquilado; enquanto, por outro lado, parece ser ainda tudo, com "um cachorro e sem filhos", onipresente, onívoro de toda alteridade em que confiar e a quem se confiar - a partir daquela por excelência que é Deus.
Essa ambivalência do eu, portanto, envolve também a relação de Marracash com Deus. Tomando emprestado o questionamento final do primeiro filme da segunda trilogia Star Wars (A ameaça fantasma), podemos apenas nos perguntar: dois Eu sempre existem, um é o Eu bom, o outro é o Eu mau, mas quem é o Eu que, para Marracash, 'matou' Deus? Quem é o Eu para o qual Deus não é confiável?
O Eu bom ou o Eu mau?
Dependendo da resposta, a enigmática frase “Não confio em Deus” assumirá dois significados e direções existenciais diferentes, senão opostas. Uma a favor, a outra contra Deus. O dilema permanece aberto diante de nós. Como se, na nossa noite escura, coubesse a nós, a cada um de nós, escolher. Como Nicodemos, como Marracash. E talvez é justamente isso que o rapper visava…