24 Agosto 2024
"Em relação ao gênero, o livro confirma o crescente distanciamento das mulheres da participação nos ritos católicos. As mulheres que vão à missa continuam sendo um número maior do que os homens, mas a diferença entre os dois está diminuindo com uma velocidade impressionante ano após ano, enquanto o número de mulheres consagradas italianas (freiras e monjas) também está caindo vertiginosamente", escreve Marco Marzano, professor da Universidade de Bergamo, na Itália, em artigo publicado por Domani, 22-08-2024. A tradução é de Luisa Rabolini.
Os fiéis na Itália estão diminuindo a uma taxa muito maior do que a taxa em que decresce o clero: a profissão clerical está resistindo discretamente à secularização. O problema é, ao contrário, a qualidade e a adequação dos padres.
É uma obra séria e escrupulosa a do sociólogo Luca Diotallevi La messa è sbiadita. La partecipazione ai riti religiosi in Italia dal 1993 al 2019 (A missa desbotou. Participação aos ritos religiosos na Itália de 1993 a 2019, em tradução livre; Rubbettino, 2024). Ao lê-la, os estudiosos dos assuntos católicos e os fiéis encontrarão a confirmação de muitas de suas suspeitas.
La messa è sbiadita. La partecipazione ai riti religiosi in Italia dal 1993 al 2019, de Luca Diotallevi (Foto: Divulgação)
A frequência à missa dominical (analisada por meio de pesquisas do ISTAT) está em declínio acentuado no país. Em 1993, 37% dos italianos declaravam honrar com regularidade semanal o preceito católico; em 2019, a porcentagem caiu para 23%.
Um declínio acentuado que seria ainda maior se pudéssemos calcular a presença “real” na igreja (um bom número daqueles que afirmam frequentar a igreja, na verdade não o fazem).
Trata-se de uma contração que tende a se ampliar se analisarmos cuidadosamente, como faz Diotallevi, as tendências contidas nos dados, especialmente em relação ao gênero e à idade. Em relação ao gênero, o livro confirma o crescente distanciamento das mulheres da participação nos ritos católicos. As mulheres que vão à missa continuam sendo um número maior do que os homens, mas a diferença entre os dois está diminuindo com uma velocidade impressionante ano após ano, enquanto o número de mulheres consagradas italianas (freiras e monjas) também está caindo vertiginosamente.
Em relação à idade, Diotallevi observa que provavelmente estamos diante da última geração de pessoas de setenta anos que retornam à igreja depois de tê-la abandonado algumas décadas atrás. No futuro, o comportamento religioso das diferentes gerações tenderá a se assemelhar. As considerações que o surgimento desse cenário sugere são muitas. Limito-me a apresentar duas delas (que Diotallevi também aborda no texto).
A primeira diz respeito à representação do “caso italiano” como uma exceção às tendências secularizantes do resto do continente. A população do país, diziam alguns anos atrás o Cardeal Ruini e seus acólitos (incluindo alguns estudiosos), demonstra um vínculo indissolúvel com o catolicismo e resiste à secularização que é se espalha em todos os lugares. Essa representação é hoje desmentida pelos fatos.
Não existe nenhuma exceção italiana e não existe nenhuma “retomada da religião”. Mesmo o papado de Francisco, em muitos aspectos um sucesso clamoroso, não trouxe um único fiel de volta à igreja, nem desencorajou aqueles que decidiram deixar o catolicismo. Caberia dizer que a fé é uma coisa séria e não se recupera por amor a um líder.
A segunda consideração diz respeito à constante choradeira da liderança da Igreja Católica sobre a falta de novos padres. Isso também é uma mentira. Como mostra Diotallevi, os fiéis na Itália estão diminuindo a uma taxa muito maior do que a taxa em que decresce o clero. É por isso que cada pastor católico hoje tem um rebanho muito menor do que tinha no passado. O principal sacrifício que ele é chamado a sofrer é ter que administrar um número de paróquias que ainda ficou muito alto em relação ao número real de fiéis.
Portanto, a crise do clero é uma fake news. Pelo contrário, a profissão clerical, com todas as suas vantagens e especialmente em algumas áreas do país, resiste discretamente à secularização. O problema é, pelo contrário, a qualidade do clero, a preparação dos sacerdotes, sua adequação para liderar as comunidades de crentes. É aqui que a igreja perde o rumo, e é aqui que se gera um descompasso que também se reflete na participação nos ritos.
Entrevistei recentemente, para fins de pesquisa, muitas mulheres muito católicas, mas realmente católicas (inclusive algumas freiras), com longa militância e muitas vezes cargos diocesanos, que quase não vão mais à missa aos domingos por causa da pobreza e da desolação das homilias.
O que aconteceu é que as mulheres deram passos de gigante no caminho da emancipação. As garotas vão para a universidade em massa e as mulheres mais velhas se tornaram mais conscientes de seus direitos e, em geral, mais cultas. Os sermões dos párocos lhes parecem cada vez mais distantes de seus problemas. Para mudar essa situação, a igreja deveria dar a algumas delas a oportunidade de tomar a palavra e celebrar as funções. Talvez não se reverteria a marcha da secularização, mas se faria história e certamente se daria uma nova linfa o antigo rito da Eucaristia tirando-o de uma hegemonia exclusivamente masculina.