Papa Francisco e a geopolítica da devoção de Fátima

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18 Março 2022

 

Na véspera da terceira semana da invasão russa da Ucrânia, o Papa Francisco atendeu ao pedido do Episcopado de Kiev, que com uma carta pedia a consagração do país ao Imaculado Coração de Maria. Durante a celebração da penitência em São Pedro no próximo dia 25 de março, de fato, o pontífice consagrará à Nossa Senhora não só o país atingido pelas bombas russas, mas também a contraparte beligerante. Paralelamente às tentativas de negociação, que na quarta-feira, 16 de março, viram o Patriarca Kirill e o Papa Francisco em videoconferência, o pontífice pretende resolver o conflito com uma prática pietista intimamente ligada às aparições de Fátima onde, simultaneamente com a liturgia romana, o Cardeal Konrad Krajewski, esmoleiro apostólico, oficiará na mesma consagração.

 

A reportagem é de Marco Grieco, publicada por Domani, 17-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

O anúncio é divulgado dois dias após a cerimônia na igreja de São Salvador em Moscou, durante a qual o patriarca russo doou o ícone de Nossa Senhora Theotokos ao chefe da Guarda Nacional Russa, Viktor Zolotov, com os votos de "proteção do exército russo e rápida vitória”.

 

Foto: Reprodução de Frame de Vídeo do Twitter.

 

A consagração à Virgem de Fátima, portanto, não pode deixar de ser uma mensagem política. O historiador Daniele Menozzi, autor do ensaio O poder das devoções, Piedade popular e uso político dos cultos na época contemporânea (em tradução livre) especifica isso.: “O culto mariano, tão caro à ortodoxia, é chamado a interceder pela obtenção da paz, não para dar um conteúdo religioso à cruzada contra a modernidade ocidental. Assim, assinala-se a diversidade da posição do catolicismo romano em relação à linha do patriarcado de Moscou”.

 

Aparições e conflitos

 

A consagração era uma prática de reparação das guerras que foram o pano de fundo dramático das mariofanias de Fátima em 1917, quando Nossa Senhora revelou o destino do mundo a três crianças portuguesas.

A mais longeva das chamadas videntes da Cova da Iria, a religiosa Lúcia dos Santos, escreveu várias vezes que a virgem garantiria um período de paz no mundo se a Rússia fosse consagrada ao seu imaculado coração: "O santo padre me consagrará a Rússia, que se converterá e ao mundo será concedido um período de paz”, escrevia a religiosa em um texto, que foi posteriormente avalizado pela Congregação para a Doutrina da Fé.

A opinião pública sempre ligou as aparições portuguesas aos conflitos mundiais que marcaram o século curto. Na carta apostólica Sacro Vergente Anno, o Papa Pio XII, em comunhão com os bispos portugueses, consagrou “de maneira muito especial, todos os povos da Rússia ao mesmo Imaculado Coração”.

Uma segunda consagração ocorreu pelas mãos do Papa Paulo VI em 1964, diante dos padres reunidos em Roma para o Concílio Vaticano II. Mas foi João Paulo II quem - segundo o que a Irmã Lúcia deixou escrito na memória conhecida como o terceiro segredo de Fátima - cumpriu plenamente o desejo mariano: era 25 de março de 1984 e o Papa Wojtyła confiou ao imaculado coração de Maria todos os povos, "as nações, que desta entrega e desta consagração são particularmente necessitadas".

Segundo o teólogo Andrea Grillo, no Papa Francisco “a intenção é colocada em continuidade com Fratelli tutti, porque se quer sair da tentação fratricida, unificando em Cristo o que está dividido e em conflito no mundo. À intenção de comunhão, porém, corresponde um registro inadequado de oração e celebração, porque demasiado condicionado pelo mundo de 1917 e 1942. Pode funcionar como operação política, mas não como ato eclesial. Mas também politicamente utiliza competências que não são tidas como garantidas, nem no plano jurídico nem no plano eclesial”.

 

O terceiro segredo de Fátima

 

A escolha do Papa Francisco segue nos passos da consagração do Papa João Paulo II, que também aconteceu em 25 de março. O fio vermelho que liga os dois acontecimentos é suficiente para reabrir o polêmico capítulo do terceiro segredo que Nossa Senhora teria revelado aos pastores portugueses, tornado público por ordem do papa polonês apenas no ano 2000.

Em entrevista ao Repubblica em 19 de maio de 2000, Joseph Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, especificou que não havia "interpretações obrigatórias" do segredo, embora sua interpretação teológica ainda ancorasse o homem vestido de branco das aparições ao Wojtyła ferido no atentado de 13 de maio de 1981 por Ali Agca.

Que ligação existe hoje com a mariofania portuguesa? “Ainda não sabemos como o Papa Francisco pretende explicitar a consagração, mas é difícil para ele que possa retirá-la completamente do legado de um passado que a conecta a uma dimensão política", explica o historiador Menozzi.

A consagração da Rússia era tradicionalmente ligada à impetração do fim do comunismo, ao qual se atribuía a causa da eclosão da Segunda Guerra Mundial.

A inclusão da Ucrânia indica um afastamento desta tradição, provavelmente para reconduzir a consagração ao imaculado coração de Maria às suas origens primeiras. Em 1917 era um ato que pedia o fim da Grande Guerra”.

Para o teólogo Grillo, ao contrário, um século depois existe o “risco de enredar-se nas categorias nascidas no início do século XX, fruto de um pietismo obsoleto. A tradição é muito mais rica do que o imaginário devoto de terços, consagrações, aparições de nossas senhoras sozinhas, sem filho, com mensagens pseudoapocalípticas. Bons 1800 anos de experiência eclesial falam aqui contra essas formas de tradicionalismo distorcido, demasiado unilateral e demasiado triste”.

 

Retorno ao século XX

 

Em seu primeiro encontro com Vladimir Putin, em 25 de novembro de 2013, o Papa Francisco recebeu do líder russo uma cópia do ícone da Virgem Thetokos, o original está preservado na galeria Tretyakov em Moscou, que chegou a Kiev da antiga Bizâncio em 1130.

A troca de presentes ocorreu em nome da paz almejada pouco antes por Bergoglio em uma carta ao presidente da Federação Russa, então à frente do G20: “Sem paz não há nenhum tipo de desenvolvimento econômico. A violência nunca leva à paz, condição necessária para tal desenvolvimento [...]. Pelo contrário, deve haver um novo empenho em buscar, com coragem e determinação, uma solução pacífica por meio do diálogo e da negociação entre as partes envolvidas, com o apoio concordante da comunidade internacional”.

Hoje Francisco escolhe responder ao guelfismo de Putin e Kirill com uma linguagem novecentista: “A aspiração à comunhão entre os povos é um dos conteúdos fundamentais da fé cristã e das razões da existência da Igreja. A esperança de poder dizer a profecia de comunhão entre os irmãos em guerra parece-me certamente necessária, mas desproporcional ao instrumento escolhido, demasiado condicionado histórica, linguística e simbolicamente. Não estou certo de que possam ser vinculados os tradicionalistas à lógica de Fratelli tutti, utilizando uma linguagem que é em parte velha e em parte injusta e que não tem nenhum fundamento na tradição anterior a 1917”, explica Grillo.

O historiador Menozzi, por outro lado, acrescenta: “Entre os motivos que levaram Bergoglio a tomar essa decisão está justamente a retirada aos tradicionalistas de um de seus terrenos favoritos de propaganda. O papa retoma uma devoção à qual eles atribuíram o valor de uma contraposição à Igreja conciliar e a ressignifica para reservar um papel pacificador à presença dos católicos no mundo contemporâneo”.

Ainda que isso inverta a semântica de seu magistério: “A novidade de Francisco estava na apresentação do método da não-violência ativa como resposta evangélica ao mal da violência bélica. Assim superava a doutrina tradicional da guerra justa”, continua o historiador.

"A consagração se insere em uma reproposta do conjunto de atitudes que acompanharam a adesão do papado à moralização dos conflitos no passado: deploração da guerra, ativação da assistência humanitária, mobilização dos canais diplomáticos para obter a paz e, justamente, solicitação da oração pela paz. Por ocasião desse conflito, o pontífice não realiza uma explícita legitimação ética da guerra, mas põe em prática todos os comportamentos que a acompanharam no passado. De fato, é um retorno ao esquema dos antecessores. Significa a renúncia a aprofundar um dos elementos mais inovadores de seu magistério”.

 

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