“O Papa sabe que está pagando um preço moral pela guerra na Ucrânia”. A opinião do historiador Daniele Menozzi

Foto: reprodução | Facebook

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17 Março 2022

 

No domingo passado, no Angelus, o Papa Francisco foi claro ao condenar “a inaceitável agressão armada” contra a Ucrânia. É verdade que ele não mencionou a Rússia ou Putin (mas nem mesmo João Paulo II mencionou nomes e sobrenomes em 2003 quando se tratou de atacar o Iraque de Saddam Hussein, apenas para lembrar o exemplo mais próximo à nossa época), mas pode haver bem pouca dúvida sobre a denúncia do agressor de parte da Santa Sé. No entanto, a posição do Vaticano é complicada, não tanto por meras questões geopolíticas, mas porque precisamente neste pontificado houve um repensamento geral do conceito de guerra justa.

 

Daniele Menozzi, historiador do cristianismo e professor emérito da Normale di Pisa (acaba de publicar Il potere delle devozioni. Pietà popolare e uso politico dei culti in età Contemporânea [O poder das devoções. Piedade popular e uso político dos cultos na época contemporânea, em tradução livre], editora Carocci), observa a complexidade da situação: No início, o Papa Francisco, na Mensagem para o Dia da Paz 2017, deu um virada, ressaltando que o método correto do ponto de vista evangélico para enfrentar a guerra é a não-violência ('Não-violência, estilo de uma política para a paz', intitulava-se o primeiro capítulo da mensagem).

 

Sejamos claros: não significa aceitar passivamente os abusos, mas encontrar métodos para responder ao mal, evitando usar esse mesmo mal. Essa orientação que põe fim à doutrina da guerra justa foi repetida esporadicamente e por ocasião desse conflito Francisco a citou apenas uma vez, na noite de 24 de fevereiro, em videoconferência com estudantes da América do Norte e do Sul. Nesta circunstância, ele voltou a se referir ao princípio da não-violência. Por um lado, o Papa pede a paz, faz grandes proclamações pela pacificação e pela cessação do conflito; pelo outro lado, convida a rezar pela paz. Este é outro elemento ligado à guerra justa. O que falta é a indicação segundo a qual a Igreja está empenhada em atuar concretamente pela paz, sem recorrer à legitimação moral da violência. Deste ponto de vista, eu diria que a dificuldade é evidente. De fato, as atitudes que caracterizam a doutrina da guerra justa reaparecem sem dizer que a guerra pode ser legítima.

 

A entrevista com Daniele Menozzi é de Matteo Matzuzzi, publicada por Il Foglio, 16-03-2022. A tradução é de Luisa Rabolini.

 

Eis a entrevista.

 

Mas de um ponto de vista que poderíamos chamar de diplomático, pode ser suficiente uma condenação da agressão sem nomear o agressor?

 

É evidente que também aqui há um elemento de dificuldade diplomática. Mas a denúncia é implícita, ainda que não haja distinção clara e explícita entre agressor e agredido. Quando faz referência à violência gratuita e ao ataque de civis, entende-se que há a condenação do agressor. Minha impressão - observa - é que a dificuldade se dá sobretudo pela complexidade das relações interconfessionais no campo (Ucrânia, Rússia, Patriarcado de Constantinopla), uma situação muito complexa do cristianismo no mundo oriental e especialmente na ortodoxia.

Se o Papa quer manter aberto o diálogo com o Patriarcado de Moscou que legitimou a guerra, não pode começar com uma condenação explícita do agressor: isso faria cair imediatamente a possibilidade de diálogo. Além disso, se o Papa acredita que não possa atuar pela paz senão mediando e abrindo um canal diplomático, não pode denunciar pública e imediatamente uma das duas partes envolvidas. A utilização dos canais diplomáticos exige uma linguagem extremamente prudente e prevê que nem mesmo com o agressor sejam cortadas as pontes.

 

No meio, o papel de Kirill. Pesa muito na prudência do Vaticano a abordagem lenta, mas progressiva do Patriarca de Moscou que levou ao encontro histórico de Havana em 2016?

 

Não há condescendência em relação a Kirill. Parece-me que a Santa Sé acredita neste momento que somente Roma pode manter vivo um diálogo ecumênico. Dada a situação, a Santa Sé acredita que deve assumir a liderança em um diálogo ecumênico que já está fragmentado entre Moscou e Constantinopla. Se Roma romper com Moscou, é claro que não tem mais margem de manobra.

O ecumenismo deve continuar, e se quiser continuar não podemos dizer a Kirill tudo o que pensamos.

 

A história nunca se faz com os ‘se’, mas talvez seja excessiva a concessão de crédito dada por Francisco a Putin nos últimos anos, mesmo comparada à frieza expressa pelo Papa em relação às várias lideranças estadunidenses que se sucederam nos últimos anos?

 

É a lógica política que orientou o Papa. Nos equilíbrios mundiais há um poder mais forte (o ocidental) em relação a outro poder. Para evitar um choque entre esses dois poderes que não se sabe onde terminará (já vimos isso na Síria), a Igreja deve mostrar-se disposta a construir pontes com o poder mais fraco em vez de apoiar o poder mais forte. Francisco sabe que está pagando um preço moral, porque é evidente que, dessa forma, Putin não tem nenhuma legitimação moral para fazer o que faz. O Papa também está ciente de que um pedaço da autoridade moral da Santa Sé pode ser sacrificado para manter aberto o diálogo com Putin, sem abrir mão de nada.

Claro que cabe se perguntar se tudo isso é eficaz ou não. Francisco apostou nisso, apostou no fato de que a autoridade da Igreja pode ser gasta para legitimar quem não é legitimado. O bem da paz é tão grande que a Igreja pode despender-se também pondo em risco a sua autoridade para evitar que o confronto alcance termos dramáticos”. Enquanto isso, na sexta-feira, 25 de março, durante a Celebração da Penitência em São Pedro, o Papa consagrará a Rússia e a Ucrânia ao Imaculado Coração de Maria.

 

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