Um sínodo inútil?

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05 Novembro 2018

O sínodo dos bispos dedicados aos jovens acaba de se concluir. Lendo as conclusões, surgiu a razoável dúvida de que tenha sido inútil.

O comentário é de Vinicio Albanesi, padre italiano, presidente da Comunità di Capodarco, fundador da agência jornalística Redattore Sociale e, juntamente com o Pe. Luigi Ciotti, de Coordinamento delle comunità di accoglienza, em comentário publicado por Settimana News, 30-10-2018. A tradução é de Luisa Rabolini.

Mesmo apreciando a ideia e concordando, com o devido respeito, com as boas intenções, é evidente que, seguindo o esquema clássico dedutivo, a linguagem, os conteúdos e os destinatários são aqueles que já vivem, abundantemente, dentro do mundo cristão.

Mesmo declarando que o sínodo é voltado para os jovens, na realidade é dirigido àqueles que, formados e crescidos dentro do mundo católico, são encorajados a continuar no caminho percorrido.

As conclusões podem ser úteis para os seminaristas, para as jovens vocações das religiosas, para aqueles que frequentam a paróquia, para os escoteiros, para os meninos das escolas dominicais.

As estatísticas, mas também a experiência pastoral, dizem que apenas uma mínima parte frequenta, após a confirmação (quando é celebrada), a Igreja.

Meninos e meninas seguem outros mundos, outras emoções, outros ambientes. Começar com a invocação do Espírito e prosseguir com a imagem dos dois discípulos de Emaús é muito lindo para aqueles que já acreditam e estão muito familiarizados com as Escrituras e a meditação.

O mesmo aconteceu com a família. O estilo "doutrinal" para aqueles que querem dialogar com os garotos (mesmo abaixo dos 16 anos como sugeridos pelo sínodo) não tem valor porque, de fato, eles te olham sem entender o que você diz.

Era necessária uma linguagem indutiva: procurar os fragmentos de seu mundo para começar a escuta.

Nós não estamos preparados para isso. Nós permanecemos fechados em nosso esquema e não conseguimos inventar nada. As conclusões do sínodo lembram os milhares de Instruções de alguns Dicastérios da Santa Sé sobre a vocação.

A escola, a universidade, a paróquia, as catequeses ainda são apontados como locais adequados para o diálogo: mas se quase ninguém os frequenta, o diálogo com quem se realiza?

O mundo dos adultos

Percebe-se um fator agravante significativo: nenhuma menção de nós adultos que fizemos nascer e criamos esses nossos filhos e filhas, confiando a eles um mundo que, apesar de ter feito progressos, também construiu um estilo egoísta, solitário e materialista.

Basicamente alimentamos continuamente e obsessivamente o consumo, o bem-estar, os prazeres sem mais remorsos e arrependimentos.

Os grandes grupos financeiros e comerciais bombardeiam suas mentes e sensibilidades, mas depois acusam os jovens de serem indolentes, desatentos e autocentrados.

É verdade que aqui e ali as conclusões do sínodo indicam jovens que vivem em mundos difíceis e injustos. Mas as causas? Quem são os perseguidores e as vítimas? Perguntas que um adulto deveria se por e responder, pedindo perdão.

Fala-se sobre a rede e as ferramentas para seu acesso: uma maneira útil de se comunicar. Por que essa rede demora a ter regras? São impedidas pelos grandes grupos especuladores cotados na bolsa de valores certamente não dirigidos por jovens. O testemunho é invocado: em substância ser eficientes, visíveis, bem sucedidos.

Educá-los com essas premissas é muito difícil: estas são construídas para se tornarem armadilhas, sem possibilidades de exceção.

Sem esperança?

Em vários capítulos das conclusões aparecem passagens automáticas da análise das situações para a proposta religiosa, como, por exemplo, de eu para o nós (sinodalidade), a valorização da mulher, a corporeidade (sexualidade, identidade e orientação sexual), a família, o acompanhamento vocacional ...

Mundos justos que acabam impactando outros mundos em que muitas vezes não há lógica, nem ética, mas apenas emoções, fragmentos, vislumbres de histórias vividas e também sofridas.

Não é verdade que não exista esperança à vista. É preciso agir com paciência e sabedoria. O caminho percorrido no passado já não é adequado para dialogar no mundo materializado dos jovens.

É necessário saber ler suas emoções: elas oscilam entre a arrogância e a depressão, entre o orgulho e o medo. Quem pode entender o que dizem os seus diálogos, as suas músicas, as suas interlocuções? Sem entrar em seu mundo, a porta para o diálogo está fechada.

O primeiro passo é a escuta: desde que não sejam dadas respostas de sabe-tudo. No fundo, eles buscam segurança, amizade, cumplicidade. É um tempo que não pode ser contabilizado. Muitas vezes aparece como energias desperdiçadas: o afeto, o respeito e a benevolência, no entanto, deixam sua marca, na memória e no coração.

O discernimento requer uma atenção refinada entre os vislumbres do aparecer. Os sentimentos, as boas vontades, o agir com honestidades também emergem nas vidas mais contorcidas.

O testemunho deve ser sincero: até nos limites e contradições dos adultos. O respeito tem base na sinceridade e não na autoridade. Para ouvir e ser ouvido, é preciso ser amados.

Finalmente, o esforço para sugerir ideais grandes e leais, próximos das sensibilidades expressas e não expressas. O mundo que construímos baseava-se em algumas diretrizes que eram importantes para nós: precisamos deixar espaço para outras linhas, outras sensibilidades e outros ideais.

Ninguém na história conseguiu completar o apelo evangélico. Nas várias épocas e lugares surgiram sensibilidades, religiosidades, vocações. Inclusive hoje continua a ser assim.

A fé vem depois, sem sentir o dever de explicar, pela enésima e inútil vez, as reflexões e os chamados falados e repetidos. Deus oferece a graça e ilumina as mentes. Podemos repetir o que Jesus disse a Bartimeu: "O que você quer que eu faça por você?" deixando que a divina providência venha a agir.

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