Relatório Final do Sínodo da Juventude é uma mistura de ideias sobre questões LGBT

Celebração Eucarística no Altar da Cátedra, com os Padres Sinodais e Papa Francisco, em 25-10-2018. Foto: Vatican Media

Mais Lidos

  • Lula, sua última eleição e seus demônios. Artigo de Antonio Martins

    LER MAIS
  • Vozes de Emaús: Movimento Fé e Política faz história. Artigo de Frei Betto e Claudio Ribeiro

    LER MAIS
  • Parte do Sul Global, incluindo o Brasil, defende que países desenvolvidos abandonem os combustíveis fósseis primeiro. Para Martí Orta, não há espaço para ritmos nacionais distintos na eliminação de petróleo, gás e carvão. O pesquisador afirma que a abertura de novos projetos de exploração ignora os limites definidos pela ciência

    Cancelar contratos fósseis. Não ‘há tempo’ para transição em diferentes velocidades. Entrevista com Martí Orta

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

30 Outubro 2018

O Sínodo do Vaticano sobre a Juventude emitiu seu relatório final, e as observações sobre questões LGBT são uma mistura de ideias. A seção correspondente a temas LGBT é a 150. O documento foi publicado apenas em italiano. Você pode ler o texto italiano, clicando aqui. Para ver o resultado da votação, clique aqui. Cada seção foi votada individualmente. Era necessária uma maioria de 2/3 para que fosse incluída no documento final.

O comentário é de Francis DeBernardo, publicado por New Ways Ministry, 28-10-2018. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

Se seguirem o padrão do Sínodo de 2015 sobre a família, não serão disponibilizadas versões oficiais em outros idiomas até pelo menos a próxima semana. Seguem uma proposta de tradução da seção 150 e o meu comentário segue o texto.

"Há questões relacionadas ao corpo, à afetividade e à sexualidade que exigem uma profunda exploração antropológica, teológica e pastoral, que deve ser realizada da forma mais apropriada, seja em nível global ou local. Entre elas, destacam-se particularmente as que dizem respeito à diferença e harmonia entre as identidades masculina e feminina e entre as inclinações sexuais. A respeito disso, o Sínodo reitera que Deus ama cada pessoa, e o mesmo acontece com a Igreja, renovando seu compromisso de lutar contra qualquer violência ou discriminação com base sexual. Igualmente reafirma a determinante relevância antropológica da diferença e a reciprocidade entre homem e mulher e acredita que é reducionista definir a identidade de uma pessoa unicamente com base em sua "orientação sexual".

Já existem, em muitas comunidades cristãs, caminhos de acompanhamento da fé das pessoas homossexuais, e o Sínodo recomenda que esse tipo de percurso seja incentivado. Neste caminho, as pessoas recebem ajuda para ler sua própria história, para seguir, com liberdade e responsabilidade, seu próprio chamado batismal, para reconhecer o desejo de pertencer e contribuir para a vida da comunidade, para discernir a melhor forma de realizá-lo. Desta forma, todo jovem, sem exceções, recebe ajuda para integrar ainda mais a dimensão sexual de sua personalidade, crescendo na qualidade de seus relacionamentos e caminhando em direção ao dom de si mesmo."

O Sínodo do Vaticano sobre a juventude divulgou um relatório final que pede "uma elaboração antropológica, teológica e pastoral mais profunda” da sexualidade e da afetividade, o que é um passo importante para a Igreja Católica em relação a questões LGBT. A declaração reconhece que a Igreja ainda tem muito que aprender sobre sexualidade. Se o estudo for feito com o coração e a mente aberta, pode haver uma grande transformação na Igreja.

O pedido para que mais paróquias forneçam acompanhamento para gays e lésbicas também é positivo. As palavras que descrevem o acompanhamento parecem ter sido cuidadosamente escolhidas para permitir uma ampla interpretação. Durante o Sínodo, foi pedido para que se incluíssem uma declaração chamando gays e lésbicas para a "conversão", uma palavra frequentemente utilizada no discurso da Igreja que quer dizer celibato. Esse tipo de linguagem não chegou ao documento final. Na verdade, as recomendações pastorais permitem grande a ampla acolhida e acompanhamento com base no indivíduo, no ministério e na comunidade pastoral local.

O documento também condena fortemente a discriminação e a violência contra gays e lésbicas — uma importante mensagem aos bispos que às vezes já apoiaram implícita e explicitamente as leis de criminalização dos LGBT com punições severas. O apoio católico a leis desse tipo tem que acabar.

O documento tem elementos problemáticos também. Reforça a proibição de relações entre pessoas do mesmo sexo, embora de uma forma típica do Papa Francisco: sem usar linguagem condenatória, mas endossando a noção de que o modelo heterossexual é o ideal.

A ideia de que "é reducionista definir a identidade de uma pessoa unicamente com base em sua 'orientação sexual'" também é um problema, pois dificilmente qualquer pessoa lésbica ou gay define sua identidade unicamente com base em sua orientação.

Pedir para ser chamado de “católico gay" não significa que a pessoa só se considera em termos de sexualidade, assim como pedir para ser chamado de "jovem católico" não iguala a identidade unicamente com a idade nem "católico estadunidense” significa que a nacionalidade é característica que define a pessoa. São apenas palavras que as descrevem. Querer dizer que a orientação sexual domina a personalidade de um indivíduo não apenas diminui a pessoa, mas também revela mais sobre o fraco entendimento da Igreja sobre as pessoas homossexuais do que sobre elas próprias.

O relatório usa a palavra "inclinações" para descrever a atividade sexual não heterossexual. Este termo reduz o amor e a sexualidade homossexual e baseia o desejo na atividade sexual, que não apenas é uma palavra depreciativa, mas mostra uma completa ignorância da vida afetiva dos homossexuais. O persistente uso do termo em documentos da Igreja não apenas é vergonhoso, mas também é prejudicial.

O fato de o relatório do Sínodo  não usar os termos comuns como "lésbica", "gay", "bissexual" é surpreendente, tendo em conta a utilização do próprio Papa da palavra "gay". Um detalhe do discurso como este significa muito para as pessoas. Além disso, as pessoas transgênero não foram mencionadas — uma grande omissão, considerando que estão entre as pessoas mais abusadas e oprimidas das comunidades LGBT do mundo inteiro.

Esses problemas nos lembram que ainda há muito trabalho a ser feito para chegar à justiça e à igualdade LGBT na Igreja. Na verdade, a seção que continha a análise mais abrangente das questões homossexuais recebeu uma maioria de votos negativos, e não conseguiu passar pela maioria de 2/3 por apenas dois votos. (O voto "não" pode não indicar oposição às questões LGBT; pode indicar discordância com alguns elementos negativos na seção.)

O poder deste Sínodo não está em seu produto, mas em seu processo. Foi um encontro sem precedentes de líderes da Igreja com representantes jovens de todo o mundo e, ao contrário de outros sínodos, deu mais força à voz dos participantes leigos. Independentemente do resultado, parece que houve um verdadeiro diálogo — e esperamos que isso se repita.

O Sínodo poderia ter sido muito melhor se os jovens LGBT tivessem tido espaço para falar por si próprios. Durante as conferências de imprensa, os bispos falaram sobre o quanto estavam emocionados com testemunhos pessoais de jovens que os ajudaram a colocar um rosto humano em situações abstratas ou desconhecidas. Seria tão importante para eles ouvirem sobre a vida religiosa e a experiências na Igreja diretamente de jovens LGBT... Os bispos perderam uma grande oportunidade de aprendizagem.

Os temas de escuta e acompanhamento foram os principais do encontro. Os bispos prometeram levar o processo do Sínodo para suas dioceses e incentivar outros bispos a instituir práticas semelhantes. Se não o fizerem, suas palavras soarão como promessas vazias de campanha política. Ao destacar o acolhimento e o acompanhamento, a Igreja está colocando a discussão LGBT no nível pessoal e local — lugares favoráveis para a discussão de verdade.

A escuta e o acompanhamento pastoral podem mudar o coração e a cabeça dos ministros pastorais e dos líderes da Igreja.

Dependendo de como forem implementados, essas ferramentas podem ajudar a Igreja a compreender e apreciar a sacralidade da vida e do amor LGBT. Se a escuta for implementada conforme a recomendação do Papa Francisco, como uma ferramenta teológica em que alguém escuta e permite que o coração seja tocado por novas verdades, a Igreja Católica pode começar a se transformar.

O sucesso do Sínodo não dependerá de suas conquistas até agora, mas de seu impacto ao estruturar uma Igreja mais dialógica e relacional para o futuro.

Leia mais