Dois anos após as enchentes: planos de governo das prefeituras gaúchas não enfrentam as questões climáticas. Entrevista especial com João Pedro Schmidt

Conscientização individual dos efeitos das mudanças climáticas aumenta, mas enfrentamento dos eventos extremos depende de ação coletiva, diz pesquisador da Universidade de Santa Cruz (Unisc)

Foto: Giulian Serafim/PMPA

Por: Luana de Oliveira e Patricia Fachin | 05 Mai 2026

No fim da semana passada, os gaúchos reviveram momentos de medo, tensão e insegurança diante do alerta vermelho de grande perigo para tempestades, emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet). A previsão de chuvas acima de 100 milímetros trouxe à memória as cenas das enchentes de dois anos atrás, quando 478 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul foram atingidos pelas cheias de maio, deixando mais de 581 mil pessoas desalojadas, segundo dados da Defesa Civil do Estado.

Os vários pontos de alagamento registrados no estado após a primeira chuva do mês de maio deste ano confirmam a impressão geral da população: os municípios não estão preparados para enfrentar os efeitos de novos eventos climáticos extremos. O sentimento é confirmado pelos dados da pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari, RS”, conduzida por pesquisadores da Universidade de Santa Cruz (Unisc), localizada na região central do estado.

Segundo João Pedro Schmidt, um dos responsáveis pelo estudo, a questão climática não está entre as prioridades dos planos de governo dos prefeitos eleitos meses após as enchentes de 2024. “A região dos Vales é historicamente dominada por elites políticas locais que pertencem ao campo ideológico da direita e, ultimamente, da extrema-direita. Estas forças prezam pouco pelas pautas climáticas. No levantamento que fizemos sobre os planos de governo [registrados no Tribunal Superior Eleitoral] dos prefeitos eleitos em 2024 na região, nenhum plano deu destaque à questão do clima. Paradoxalmente, a maior tragédia climática não foi relevante na hora de votar”, informa.

Na entrevista a seguir, concedida ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU por e-mail, Schmidt comenta a falta de conhecimento científico da população sobre as mudanças climáticas, destaca a resistências das empresas de combustíveis fósseis em reduzir as fontes de emissão de gases de efeito estufa e enfatiza a ansiedade como um dos efeitos que têm afetado as populações atingidas pelos eventos climáticos extremos. “Está aumentando a percepção popular de que o clima mudou e que traz grandes riscos. É o que se verifica no caso do Rio Grande do Sul, com a catástrofe de 2023/24. Mas, preocupação é uma coisa, conhecimento é outra”, resume. Para o pesquisador, a ação coletiva é a maneira de enfrentar os efeitos da crise climática. “Quem pode organizar este tipo de ação em larga em escala é o poder público, empurrado ou apoiado por movimentos e instituições sociais”, afirma.

João Pedro Schmidt (Foto: Arquivo pessoal)

João Pedro Schmidt é graduado em Filosofia pela Faculdade de Filosofia Imaculada Conceição, mestre em Filosofia e doutor em Ciência Política pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). É professor titular da Universidade de Santa Cruz (Unisc).

Confira a entrevista.

IHU – A pesquisa “Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari, RS” mostra que 90% das pessoas percebem uma ligação entre enchentes e mudanças climáticas, mas apenas 26,9% atribuem causas exclusivamente humanas. Por que essa desconexão entre percepção e compreensão científica ainda persiste?

João Pedro Schmidt – A falta de conhecimento científico da população sobre as mudanças climáticas não é um fenômeno apenas brasileiro. Mesmo em países desenvolvidos são comuns as percepções em desacordo com a ciência. Isso se deve em boa parte ao negacionismo climático, orquestrado pelas grandes companhias petrolíferas, que produziu na sociedade uma confusão que até hoje não está sanada. No fim dos anos 1980 estava firmado na ciência climática o entendimento de que o aquecimento global, raiz das mudanças do clima, deriva fundamentalmente da queima de combustíveis fósseis, do desflorestamento e da agropecuária química.

Criou-se então a expectativa de que a pauta climática iria avançar, que se chegaria nos anos seguintes a um consenso social sobre a necessidade de um novo modelo de desenvolvimento, sustentável. Houve três fatos importantes que fortaleceram essa expectativa: em 1988 foi criado o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas; na Rio-92 foi estabelecida a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima; e a partir de então, anualmente, foram realizadas as Conferências das Partes (COPs).

Reação das companhias petrolíferas

Todavia, houve uma reação forte das companhias petrolíferas, cuja estratégia foi semear dúvidas sobre a ciência do clima. Essa estratégia foi legitimada pelo conjunto das elites econômicas, cujos interesses convergiam para a manutenção do modelo econômico capitalista da superprodução e do superconsumo, inaugurado nos anos 1950 (a era da Grande Aceleração) e globalizado a partir dos anos 1980 (a era do neoliberalismo).

A ciência do clima foi taxativa em mostrar que esse modelo era suicida, que estava levando a um aquecimento global perigosíssimo. Mas, as elites capitalistas optaram por priorizar o curto prazo, assegurando seus lucros. Junte-se a isso a incapacidade das forças políticas progressistas em delinear um modelo de desenvolvimento sustentável e chegamos ao quadro atual de uma mistura de conhecimentos fragmentados, preocupação, medo e inação.

Em diversos países as pesquisas indicam que os eventos climáticos extremos vêm produzindo preocupação e ansiedade nas populações atingidas. Está aumentando a percepção popular de que o clima mudou e que traz grandes riscos. É o que se verifica no caso do Rio Grande do Sul, com a catástrofe de 2023/24. Mas, preocupação é uma coisa, conhecimento é outra. Nossa pesquisa indica que há um misto de percepções, que algumas estão em acordo com a ciência, outras, não.

IHU – Há uma grande preocupação da população nos vales do Rio Pardo e Taquari com relação a novos desastres, mas pouca mobilização. O que falta para transformar preocupação em ação coletiva efetiva?

João Pedro Schmidt – Nossa pesquisa detectou que grande parte das pessoas mudou o modo de pensar e agir a partir das grandes enchentes de 2023/24, mas as ações mencionadas pelos respondentes são de caráter individual, como cuidar melhor do lixo, fazer doações, ficar mais atento às notícias sobre o clima, não se expor a riscos em dias de tempestade.

Mapa do Vale do Rio Pardo, RS (Foto: Divulgação)

Mapa do Vale do Rio Taquari, RS (Foto: Karla Petry)

Há um lado muito positivo neste dado: as pessoas estão dispostas a fazer a sua parte. Mas, pequenas ações individuais fazem diferença mínima para sustar o aquecimento global. São necessárias ações em larga escala, ações que levem à redução substancial do uso de combustíveis fosseis, acabem totalmente com os desmatamentos e incêndios florestais, conduzam à agricultura e pecuária regenerativas. Quem pode organizar este tipo de ação em larga em escala é o poder público, empurrado ou apoiado por movimentos e instituições sociais. Isso falta nos Vales do Rio Pardo e Taquari, mas é em grande parte também o retrato do Rio Grande do Sul, do Brasil e do mundo. A ação coletiva no mundo hoje é extremamente frágil diante da velocidade das mudanças climáticas.

IHU – A baixa influência das enchentes nas eleições de 2024 chama atenção. Por que um evento tão impactante teve pouco peso na decisão de voto?

João Pedro Schmidt – A ciência política explica que o voto é resultado de vários fatores. Na hora de votar, a preocupação em relação às enchentes de 2023/24 juntou-se a outras preocupações, como saúde, educação, segurança e, pelos dados da pesquisa, a preocupação sobre o clima foi um elemento menor entre vários fatores que os eleitores queriam ver atendidos.

Cabe levar em conta que as preocupações e expectativas sempre são filtradas pela visão ideológica e pelas simpatias partidárias dos eleitores. A região dos Vales é historicamente dominada por elites políticas locais que pertencem ao campo ideológico da direita e, ultimamente, da extrema-direita. Estas forças prezam pouco pelas pautas climáticas. No levantamento que fizemos sobre os planos de governo [registrados no Tribunal Superior Eleitoral (TSE)] dos prefeitos eleitos em 2024 na região, nenhum plano deu destaque à questão do clima. Paradoxalmente, a maior tragédia climática não foi relevante na hora de votar.

IHU – Sobre o aumento de doenças mentais em meio a tragédias climáticas, os municípios estão preparados para lidar com esse impacto psicológico de longo prazo?

João Pedro Schmidt – Nenhum município parece estar preparado para dar conta deste problema. O levantamento parcial de dados que estamos fazendo sobre as ações dos municípios após a catástrofe de 2023/24 indica que o foco é basicamente a reconstrução de danos de infraestrutura, como pontes, estradas, dragagem de rios, moradias e o planejamento de novas infraestruturas.

A saúde entra neste planejamento onde há postos de saúde ou equipamentos públicos que foram afetados nas enchentes. Já o adoecimento mental adicional produzido pelas chocantes perdas humanas e materiais tende a sobrecarregar os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e estruturas de saúde da região. Pelas informações disponíveis na imprensa, o quadro é similar ao de outras regiões do Rio Grande do Sul. A Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul, por exemplo, anunciou apenas em março de 2026 um plano para enfrentar este problema, cujos resultados ainda não são mensuráveis.

IHU – Como a ansiedade climática pode ser combatida, principalmente entre os jovens?

João Pedro Schmidt – Não há como evitar a ansiedade entre os jovens, pois em um planeta mais quente os eventos climáticos anômalos vão se repetindo. Para reduzir a ansiedade dos jovens (e de todos nós) só vejo uma possibilidade real: agir, agir coletivamente.

A ação coletiva é uma forma de diminuir a angústia de ver o mundo descontrolado e ameaçador. Ao participar de uma ação coletiva, podemos repartir com os outros o peso do medo e da angústia e encontrar no coletivo as energias que sozinhos não conseguimos. Trata-se de um desafio hercúleo. Não adianta apresentar aos jovens consolos ilusórios. É preciso mostrar o tamanho do problema em que a humanidade se encontra e convocá-los para uma luta de longo curso, cujo objetivo final é construir um novo modelo de economia e um novo modo de viver.

Trata-se de mostrar que a única saída é uma economia com menos produção e menos consumo, com melhor distribuição de renda, uma economia que caiba no planeta. Associado a esta economia, um novo modo de viver, com menor consumo, mais convívio comunitário e mais amigável com a natureza. A esperança de que este mundo é possível e que agir coletivamente é o caminho para chegar lá é o que de melhor temos a oferecer aos jovens.

IHU – Após as enchentes, o que efetivamente mudou na infraestrutura urbana dos municípios mais atingidos? Houve avanços concretos em drenagem urbana, contenção de cheias e planejamento territorial?

João Pedro Schmidt – Alguns municípios avançaram mais que outros. A reconstrução de pontes e estradas no geral avançou bastante. Roca Sales, Muçum, Cruzeiro do Sul, Estrela e Venâncio Aires estão mais à frente em planejamento de realocação de moradores próximos aos rios. Lajeado e Estrela atualizaram suas normas urbanísticas para restringir construções em áreas de risco e adaptar o zoneamento.

Santa Cruz do Sul foi beneficiado com um Plano Municipal de Redução de Riscos, viabilizado pelo governo federal, mas os resultados concretos ainda são poucos. Sistemas de alerta estão sendo instalados tanto no Vale do Rio Pardo quanto no Vale do Taquari, o que é um importante para preservar vidas. Limpeza e desassoreamento de rios e cursos d’água foram feitas em vários municípios. Houve algumas iniciativas de replantio de matas ciliares. Mas, no conjunto, dois anos após as enchentes de 2023/24, a impressão predominante é que no curto prazo estamos pouco preparados para novas intempéries climáticas.

IHU – As áreas de risco foram totalmente desocupadas, ou a população segue vivendo em locais vulneráveis? 

João Pedro Schmidt – Ainda estamos mapeando o quadro das iniciativas dos governos locais no período pós-enchentes. As informações esparsas coletadas até agora indicam que os poderes públicos entregaram algumas centenas de casas no Vale do Taquari e menos no Vale do Rio Pardo. Algumas centenas de famílias continuam vivendo com aluguel social em ambos os vales.

Uma parcela da população que residia em áreas atingidas pelas enchentes se deslocou para outras áreas, junto a parentes ou conhecidos. Em certas áreas, como Santa Cruz do Sul, a população residente em áreas de enchentes continua no mesmo local, enquanto em Mariante, no município de Venâncio Aires, a população resiste em sair da beira do rio. Uma situação preocupante é a cidade de Sinimbu, fortemente atingida nas enchentes de 2024, cuja área central fica bem próxima ao Rio Pardinho e cujo futuro é incerto.

IHU – A pesquisa aponta forte apoio popular a políticas climáticas. Os governos municipais da região estão aproveitando esse respaldo para implementar medidas mais ousadas?

João Pedro Schmidt – Até o momento, não há medidas mais ousadas por parte dos gestores municipais. A pauta climática não se tornou ainda prioritária para os municípios. Como referi acima, o tema climático não foi apontado como prioridade em nenhum plano de governo dos prefeitos eleitos.

O que temos até aqui são iniciativas de reconstrução (moradias, estradas, pontes), algumas medidas de adaptação (sistemas de alerta, deslocamento de áreas residenciais) e pautas ambientais que já havia no período pré-enchentes, como o incentivo à energia solar nas residências. Medidas de mitigação climática, como redução de combustíveis fósseis e arborização em larga escala, não foram anunciadas ou implementadas até agora.

IHU – Há iniciativas nas escolas da região para tratar as mudanças climáticas de forma estruturada, com educação climática baseada na ciência?

João Pedro Schmidt – As mudanças do clima vêm sendo objeto de discussão nas escolas da região, mas não da forma estruturada e sistemática estabelecida no novo Plano Nacional de Educação (PNE) 2026-2036. O objetivo 8 do PNE prevê a promoção da educação ambiental e o enfrentamento das mudanças do clima em todos os estabelecimentos de ensino.

Duas metas detalham este objetivo:

a) garantir que até 2031 no mínimo 60% e até 2036 a totalidade das redes de ensino desenvolvam planos para prevenção, mitigação e adaptação às mudanças do clima;

b) assegurar que todos os estabelecimentos de ensino tenham estrutura física e instalações que atendam a padrões de conforto térmico. Penso que há boas chances de avançarmos na educação climática. Mesmo gestores municipais tradicionais geralmente não se opõe a abordagens novas nas escolas.

O problema é transformar os ensinamentos escolares em ação prática. Na hora da prática é que aparecem os conflitos com setores econômicos e com modos de vida associados ao aquecimento global. Um exemplo: geralmente, na sala de aula é tranquilo o debate sobre o consumismo e suas consequências negativas; mas transformar a consciência sobre os males do consumismo em campanhas que afetam as vendas do comércio não é tranquilo e gera conflitos.

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