23 Abril 2026
Após enchentes no RS, pesquisa mostra que, ao falar de mudanças climáticas, entrevistados relacionam “eventos extremos e água”, “calor e aquecimento global”, a emoções negativas e destruição.
A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por Extra Classe, 20-04-2026.
Habitantes das regiões do Rio Pardo e Taquari apresentam alto nível de preocupação e ansiedade em relação às mudanças climáticas, afirma pesquisa realizada pela Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc). Os moradores apontam doenças mentais como a maior consequência das enchentes e como o maior problema para a população dos Vales, juntamente com o assoreamento de rios.
Os dados surpreenderam os organizadores da pesquisa, que constatou que, ao se falar em mudanças climáticas, as palavras e ideias que mais vêm à cabeça dos moradores estão relacionadas a “eventos extremos e água”, “calor e aquecimento global”, emoções negativas e destruição.
A pesquisa Percepção pública sobre enchentes e mudanças climáticas nos Vales do Rio Pardo e Taquari, RS, ouviu 389 moradores das regiões, entre setembro de 2025 e fevereiro deste ano, e será divulgada na íntegra no mês de maio.
Para 80%, novas enchentes como as de 2024 acontecerão em breve ou nas próximas décadas; e 10% confiam que demorará muito a acontecer novamente. Mais da metade dos entrevistados, 54%, vê forte relação entre as enchentes e as mudanças climáticas e 48,6% tem dúvidas quanto a um retorno à normalidade após as enchentes dos últimos anos, enquanto 13% se mostram pessimistas e 21% estão otimistas.
Os 389 respondentes são de municípios fortemente atingidos pelas enchentes de 2023 e 2024: Santa Cruz do Sul, Venâncio Aires, Sinimbu, Candelária, Lajeado, Estrela, Roca Sales, Muçum, Encantado e Marques de Souza. Destes, 48% tiveram perdas materiais, 17% tiveram perdas no âmbito familiar e 34% não tiveram perdas diretas. Para eles, temperaturas mais altas, catástrofes ambientais, secas e estiagens mais prolongadas, além das crises econômicas, são as consequências das mudanças climáticas nas próximas décadas.
“Há uma aparente calmaria nos últimos tempos e se fala menos de enchentes e mudanças climáticas, porém, percebemos que há grande pessimismo e ansiedade em relação à possibilidade de novas enchentes”, diz um dos responsáveis pela pesquisa, o professor João Pedro Schmidt.
Contudo, segundo os pesquisadores, a aflição dos habitantes até agora não se desdobrou em ações coletivas, verdadeiramente capazes de alterar os rumos das mudanças climáticas. Cerca de 70% dos respondentes afirmam ter mudado o modo de pensar e agir, mas as mudanças mencionadas são a nível individual e não iniciativas de mobilização social ou por políticas públicas.
“Tratam-se de coisas pequenas do seu dia-a-dia, ações individuais, mas não coletivas, o que tem um lado bom porque as pessoas estão dispostas a fazer a sua parte. Por outro lado, as ações individuais não resolvem a questão do clima”, diz Schmidt.
Negacionismo climático
O ponto de vista científico de que as mudanças climáticas têm causas humanas é compartilhado por 26,9% dos entrevistados. Adeptos do negacionismo duro são os que acreditam que as causas são divinas ou naturais e somam cerca de 15% dos respondentes.
Mas a percepção pública geral sobre o tema é de confusão científica: 56% crê que as causas das mudanças climáticas são naturais e humanas, o que para os pesquisadores, significa “um entendimento aberto a confusões e negacionismo sutil”.
Desde a década de 1980, o consenso científico mundial é de que as causas das mudanças climáticas atuais são humanas, como os gases de efeito estufa emitidos pela queima de combustíveis fósseis, desmatamentos, uso inadequado do solo e processos industriais.
O lixo, constantemente citado pelos populares como um dos fatores de maior impacto nas mudanças climáticas, na verdade, é fator de pouca expressão em termos de emissão direta de gases de efeito estufa. Já a criação excessiva de gado, que libera toneladas de gás metano na atmosfera através da ruminação e eructação, não é reconhecida pela população como grande fator de emissão de gases de efeito estufa. O agro é o setor brasileiro que mais emite metano, dado que o país tem o segundo maior rebanho bovino do mundo e lidera as exportações de carne.
Dos respondentes nos municípios dos Vales do Rio Pardo e Taquari, 12% foram chamados pelos pesquisadores de mobilizados: tratam-se de pessoas com alto nível de conhecimento e que apoiam políticas mais arrojadas, mesmo que afetem sua vida pessoal, como criação de impostos ambientais e redução do consumo de carne, em prol da reversão de mudanças climáticas. Outros 17% são os chamados esclarecidos passivos, apesar do alto nível de informação e conhecimento, são relutantes no apoio às políticas que lhes afetem a vida pessoal.
Schmidt destaca que o negacionismo duro, termo popularizado pelo climatologista norte-americano Michael E.Mann, está sendo reduzido mundialmente por conta das inegáveis evidências físicas das mudanças climáticas.
Apocalipse
Formas mais brandas de negacionismo têm se apresentado, como o fatalismo, observado entre os habitantes do interior do estado. De acordo com os pesquisadores, o fatalismo leva à inação ou postergação na cobrança por políticas públicas e ações coletivas que gerem soluções reais em larga escala para frear as mudanças climáticas, como se o destino da terra já estivesse selado: o apocalipse.
Vem ocorrendo uma popularização de uma narrativa apocalíptica, o que atrasa a transição mundial para energias limpas, fundamental no processo de reversão do atual cenário, e favorece a indústria dos combustíveis fósseis.
“Você, na sua boa vontade, quer recolher o lixo, que não é o problema”, explica. “Claro, não adianta a Petrobras fazer uma redução drástica, se os outros países seguirem ocupando esse espaço”, contextualiza Schmidt.
Maior tragédia climática do RS
Compartilhando do interesse em compreender como os municípios da região dos Vales Taquari e Pardo enfrentam as consequências das enchentes e incluem o tema em suas agendas políticas, os professores João Pedro Schmidt e Marco Cadona, da Unisc, organizaram a pesquisa.
“O questionário leva em conta, em parte, questões que fazem parte de outros estudos sobre o tema e em parte, questões que nos parecem importantes para entender a repercussão da maior tragédia climática do RS”, conta Schmidt, que concluiu a obra Mudanças climáticas: por que o mais grave problema da humanidade não se tornou o problema político nº 1? no período das enchentes de 2024.
Com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do RS (Fapergs), o questionário foi aplicado pelos estudantes Luis Ribeiro Stephanou, Emanuelle Monteiro, Paola Simon e Matheus Quoos.
A pesquisa também apontou que a população se preocupa com a adoção de medidas para lidar com a crise climática, como as já implementadas na região, como sistemas de monitoramento e drenagem dos rios.
“Há forte apoio para medidas ainda não adotadas, como exigir o plantio de árvores em todas as calçadas, aumentar o transporte público para reduzir o uso de combustíveis fósseis, campanhas para reduzir o uso de fertilizantes químicos e agrotóxicos, pagamento por serviços ambientais aos proprietários que protegem a natureza, apoio à instalação de energia solar nas residências, redução do uso de asfalto na cidade, rodízio de carros particulares nos dias de semana e introdução de impostos para investir em ações ambientais”, indica.
Apesar de reforço na Defesa Civil na região dos Vales do Rio Pardo e Taquari, Schmidt sublinha que são necessárias a criação de Núcleos de Comunitários de Proteção e Defesa Civil (Nupdec) e de planos de contingência.
“Há pouco reflorestamento e recuperação de matas ciliares na região, não se vê medidas mais efetivas no campo da arborização e menos ainda das chamadas cidades-esponjas”, fala o pesquisador. Cidade-esponja é um conceito criado pelo arquiteto chinês Kongjian Yu, que propõe reter a água da chuva com parques alagáveis, telhados verdes e calçamentos permeáveis, com o objetivo de reduzir enchentes e assegurar reservas para períodos de estiagem. Kongjian Yu morreu em um acidente áereo no Pantanal brasileiro, em setembro do ano passado.
Educação para preservar vidas
Pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs) defende que, para lidar com a recorrência de eventos climáticos extremos, é necessário investir em educação voltada à preservação da vida da população, em que se destaca a criação de Nupdec, além da adoção de ações não-estruturais no ambiente, como o mapeamento de áreas de risco, regramento do solo e planos de contingência, por exemplo.
Masato Kobiyama, coordenador do Grupo de Pesquisas em Desastres Naturais (GPDEN), do Instituto de Pesquisas Hídricas (IPH), sustenta que o governo estadual precisa também, a partir de convênios com instituições de pesquisa, criar Centros de Estudos e Pesquisas sobre Desastres (Ceped) regionais, especialmente no Vale do Taquari, onde existe uma grande recorrência de desastres hidrológicos.
O GPDEN elencou série de recomendações ao poder público, após a enchente de 2024, quando realizou pesquisa de campo na região metropolitana e na Região dos Vales.
O que é El Niño
Na série El Niño, o Extra Classe aborda possíveis efeitos do fenômeno para 2026 com análises dos pesquisadores Masato Kobiyama e Fernando Fan, do IPH da Ufrgs.
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais e subsuperficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando os padrões climáticos mundiais. No Brasil, ocasiona secas prolongadas nas regiões Norte e Nordeste e chuvas intensas na região Sul.
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