10 Abril 2026
Quase dois anos após enchente de 2024 e à espera do El Niño para o segundo semestre, prefeitura não entregou reformas nas casas de bombas, comportas e diques; Zona Norte concentra fragilidades.
A reportagem é de Niara Aureliano, publicada por Extra Classe, 09-04-2026.
Ainda estão em andamento reformas nas casas de bombas, comportas e diques neste mês de abril e as melhorias conteriam apenas parcialmente os efeitos de uma cheia parecida com a de maio de 2024, em Porto Alegre, caso voltasse a ocorrer. Pontos seguem críticos especialmente próximo à Rodovia Freeway, na Zona Norte da capital.
De acordo com o hidrólogo e pesquisador do Instituto de Pesquisas Hídricas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), Fernando Fan, as obras realizadas até aqui para reforçar o sistema de proteção contra cheias “ajudam bastante, mas não resolvem 100% o problema” em cenário semelhante. As melhorias estruturais garantem “proteção maior” que em 2024 no Centro, e, na zona norte, “proteção parcialmente maior”, afirma Fan.
A região da Rodovia FreeWay apresenta os pontos mais vulneráveis. “Tem um trecho na FreeWay, que um pedaço do dique foi removido, Assis Brasil para FreeWay. E também, onde o dique foi furado para passar o trem na Avenida Ernesto Neugebauer. Esses são pontos que são frágeis, que não tem nenhuma proteção ali. Então, se acontecesse uma cheia igual a de 2024, a água ia entrar por ali de novo. Aí, teria que fazer um tipo de contenção emergencial”, argumenta Fan.
O Departamento Municipal de Água e Esgoto (Dmae), da Prefeitura Municipal de Porto Alegre (PMPA), afirma que as intervenções necessárias no trecho entre a FreeWay e o ponto que apresentou rompimento em 2024 já foram realizadas. Vulnerabilidades seguem no trecho 3, que ainda não está em obras. Cerca de 500 famílias do bairro Sarandi ainda residem na zona de inundação e aguardam acolhimento.
No projeto original de defesa contra inundações da capital, da década de 1960, a cota do sistema de proteção na zona norte deveria ser de sete metros. As obras, no entanto, estão considerando a cota de 5,8 metros. Estudo contratado pela Prefeitura de Porto Alegre junto à empresa Rhama Analysis determinará as cotas de cheia em todos os pontos do sistema. O estudo deve ser concluído até o fim deste semestre, segundo o Dmae.
Zona Norte
O dique da Fiergs foi reforçado e elevado à cota de 5,8 metros, informa o Dmae. O trecho 2 do dique Sarandi foi concluído em janeiro deste ano. Mais de R$ 12 milhões foram investidos nas obras.
“Talvez, para ficar coerente com o resto do sistema de proteção, os diques da zona norte tenham que ser alteados (acima dos 5,8 metros). A prefeitura contratou estudos que devem ficar prontos no final desse semestre e que vão dizer até onde essa cota tem que ser levada”, analisa Fan.
Estão pendentes intervenções em Estações de Bombeamento de Águas Pluviais (Ebaps) da Zona Norte. As Ebaps 5, 6, 8 e 10 atendem os bairros Humaitá, Anchieta, Vila Farrapos e Sarandi. “O contrato, firmado após concorrência pública, já teve ordem de início emitida. As intervenções terão início assim que a empresa vencedora concluir a construção do canteiro de obras”, diz o Dmae. A Ebap 20, que atende a Vila Minuano, está licitada e com contrato assinado. Outros três lotes de estações devem ser reformadas ainda em 2026. As Ebaps 3 e 4, no 4º Distrito, receberam novas comportas de segurança que impedem o retorno da água.
Centro
Os portões 3, 5 e 7, localizados no Muro da Mauá, foram desativados e substituídos por estruturas de concreto armado, que impedem a entrada de água durante as cheias, e os portões 8, 10, 13 e 14 da Avenida Castelo Branco também foram extintos. As comportas 1, 2, 4 e 6 foram reformadas. Obras estão em andamento na comporta 9 (fechamento definitivo) e 11 e 12 (substituição). O Dmae afirma que a previsão de conclusão é para o mês de junho. O investimento é de R$ 12 milhões.
Cinco Ebaps do Centro passaram por obras: as Ebaps 17 e 18, no Centro Histórico, receberam chaminés de equilíbrio, que impedem o avanço do Guaíba pelos poços; a Ebap 13 (Menino Deus) recebeu tampas herméticas sobre os poços. Aguardam início de obras as Ebaps 12, 17 e 18, que atendem o Parque Marinha do Brasil e o Centro Histórico.
Das estações, 17 contam com geradores para garantir o funcionamento do sistema de drenagem urbana em caso de falta de energia. “Mais de R$ 7 milhões foram investidos em geradores e automação. Em 7 de novembro, foi assinado o contrato entre a Prefeitura e a CEEE Equatorial para a instalação de linhas exclusivas de energia destinadas aos serviços de saneamento. Das 23 casas de bombas de drenagem urbana, 22 receberão o novo sistema, garantindo operação mesmo durante episódios extremos, como cheias e temporais”, declara o Dmae, que aponta previsão de conclusão para final de 2026 e R$ 18 milhões de investimento.
Morte humana zero
O fenômeno El Niño tem 62% de probabilidade de se formar entre junho e agosto, de acordo com o Centro Interinstitucional de Previsão e Observação de Eventos Extremos (Ciex), e deve trazer chuvas intensas ao Rio Grande do Sul no segundo semestre. Previsões de eventos extremos são feitas próximo de suas ocorrências, por isso as condições devem ser acompanhadas. Por ora, não há previsão de enchente como a de maio de 2024, que foi resultado da combinação chuvas intensas, grande área de baixa pressão atmosférica e chegada de frente fria.
Pesquisadores apontam que ações educacionais são extremamente eficazes na prevenção e gestão de risco de desastres. É o que defende o professor Masato Kobiyama, coordenador do Grupo de Pesquisas em Desastres Naturais (GPDEN), da Ufrgs. Ele aponta que a principal meta da gestão de riscos e desastres é morte humana zero. Por isso, os municípios precisam se “preparar para o pior”, informar e educar a população sobre riscos, inclusive em relação à falhas estruturais no sistema de proteção. A população precisa ser treinada para eventos que comprometam sua segurança.
“Se ocorrer alguma coisa, como que a gente vai evacuar? Dois anos passados, Santa Catarina já fez duas vezes simulação da evacuação a nível estadual. Cada evacuação, eles envolveram mais 200 municípios catarinenses, treinando. É porque catarinense está apavorado. Se ocorrer daquela magnitude, o que o Rio Grande do Sul consegue fazer?”, questiona Kobiyama.
Durante e após a enchente de 2024, o GPDEN da Ufrgs analisou a mancha de inundação gradual na capital e dos movimentos de massa (deslocamento de solo, rochas ou detritos) na Região dos Vales, com o objetivo de elencar ao poder público e comunidades locais recomendações quanto à gestão de riscos e desastres.
Nesta série, o Extra Classe aborda possíveis efeitos do El Niño para 2026 com análises dos pesquisadores Masato Kobiyama e Fernando Fan, do Instituto de Pesquisas Hídricas da Ufrgs.
O que é El Niño
O El Niño é um fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais e sub-superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, alterando os padrões climáticos mundiais. No Brasil, ocasiona secas prolongadas nas regiões Norte e Nordeste e chuvas intensas na região Sul.
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